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Segunda-Feira 12.abr.2021

Ano IX - Nº 438

Saúde

O SUS será ferido de morte

Para Emerson Merhy, mudança na Saúde marca ruptura no pacto social.

Postado em 01 de Outubro de 2015 - Victor Barone

O médico Emerson Elias Merhy considera que a barganha é uma agressão ao SUS e a saúde pública e pode ter consequências graves para a saúde no país. O médico Emerson Elias Merhy considera que a barganha é uma agressão ao SUS e a saúde pública e pode ter consequências graves para a saúde no país.

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A barganha política com a intenção de preservar a base de apoio da presidente Dilma Roussef teve, como principal vítima, a saúde pública e o Sistema Único de Saúde (SUS). A opinião é compartilhada por diversas entidades, associações e profissionais da área e se agudiza quando expostos os nomes que devem substituir o ex-ministro Arthur Chioro – demitido por telefone nesta semana. O mais cotado, preferido pelo PMDB, é o médico e deputado federal Manoel Junior, cuja cam panha foi financiada por laboratórios e planos de saúde.

Professor titular de Saúde Coletiva da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), e da pós-graduação em Clínica Médica da mesma universidade, onde coordena a linha de pesquisa de Micropolítica do Trabalho e o Cuidado em Saúde, o médico Emerson Elias Merhy considera que a barganha é uma agressão ao SUS e a saúde pública e pode ter consequências graves para a saúde no país.

Confira a seguir a entrevista com Emerson Merhy.

A demissão do ex-ministro da Saúde, Arthur Chioro, foi recebida com preocupação pelas entidades que defendem a saúde pública e o SUS. Por quê?

Arthur como médico sanitarista tem uma trajetória exemplar no campo da militância e da gestão do SUS. Foi o primeiro secretário de saúde de um município que foi direto para ministro nesse período do SUS que tem na municipalização sua base de instalação como a maior e justa política pública do Brasil, após a ditadura. Como a construção do SUS é fruto das lutas dos movimentos sociais, defendendo que é possível construir um país mais justo no qual qualquer vida valha a pena de ser defendida e protegida, por ser um patrimônio da sociedade brasileira, diante da transformação do Ministério da Saúde em moeda de barganha mesquinha de trocas políticas, por interesses privatistas de governantes e grupos empresariais, as entidades que se vinculam a defesa do SUS perceberam a ameaça que essa política corre. Poderia ser um outro ministro vinculado ao SUS que as entidades também se manifestariam

Há o temor de que o SUS seja enfraquecido diante deste novo cenário?

Sem dúvida. Não basta o fato de que os nomes que estão sendo indicados para assumirem o lugar do Arthur terem uma ação anti-SUS, mas também a ruptura de um pacto social, que se constitui desde o fim da ditadura, por um governo que vem se mostrando “traidor” das pautas populares e da defesa radical da democratização social para o qual foi eleito. O SUS será ferido de morte nesse momento.

O nome mais cotado para assumir o ministério era o do deputado paraibano Manoel Junior. Mas a escolha acabou sendo o deputado federal Marcelo Castro, do Piauí. O nome faria diferença ou os danos são conceituais?

Nomes fazem algumas diferenças, mas os danos são da ruptura de um pacto social, como disse; além de conceituais, ou seja, da concepção do que é o SUS efetivamente. Para nós, o SUS pertence ao campo da Seguridade Social e compõe um conjunto de políticas que visam a construção de uma ampla rede de proteção social para qualquer brasileiro, independente de quem seja. Regido pelos princípio da universalidade, da integralidade e da equidade do cuidado em saúde, com ações de defesa das vidas e de recuperação das vidas, individuais e coletivas.

Uma infelicidade histórica essa que estamos vivendo, com consequências brutais para a construção de um Brasil democrático e de esquerda.

Mas, esses nomes não são vinculados, em suas concepções, a essa construção, e pior, entendem que o SUS é um projeto compensatório que deve ser política de pobre para pobre, e para aqueles que não podem pagar por serviços de saúde.

Lógico, que os ares que vêm da Paraíba eram mais malignos, de miasmas altamente prejudiciais à saúde. Manoel Júnior, além de anti Dilma (que paradoxo), é médico privatista, contra a política dos Mais Médicos, defensor do armamento das pessoas e vinculado a grupos privatistas predatórios no campo da saúde.

Há setores da esquerda que relativizam a ameaça ao SUS causada pela mudança no Ministério da Saúde. Dizem que Chioro se afastou dos movimentos sociais e que não haverá tanta mudança assim. Como o senhor analisa esta posição?

Acho que esses setores não sabem o que estão falando. Uma coisa é não fazer todas as ações que o SUS deve comportar, outra é a construção de um Ministério antiSUS. Há hora que certos grupos da esquerda em suas cegueiras são tão prejudiciais quanto os fascistas.

O senhor percebe uma ação coordenada no Congresso e em parte da sociedade para enfraquecer a saúde pública em detrimento da saúde complementar?

O presidente da Câmara Federal foi eleito com apoio explícito das empresas de planos de saúde. Ele e dezenas de parlamentares ligados a ele. As pautas que ele tem levado para aprovação na plenária na Câmara são anti-SUS declaradamente. É um servidor das empresas privadas de saúde e não um “servidor público”, como um deputado deveria ser. Talvez o fim do financiamento privado para apoiar campanhas eleitorais varra o parlamento brasileiro desse tipo de gente.

Na disputa entre a saúde pública e saúde suplementar quem sai perdendo?

Nesse momento, por tudo que já apontei, será a saúde pública, ou seja, todos nós. Veja que em lugares com intensa privatização dos serviços de saúde, como o estado de São Paulo, temos convivido com descontroles sobre quadros graves de ameaças à saúde de todos. A dengue está aí provando isso.

Conceitualmente é possível coadunar no Brasil um pensamento de esquerda sem a concepção de uma política de saúde pública consistente?

No meu ponto de vista, não. Ser de esquerda para mim é antes de tudo que a vida de qualquer um é um patrimônio de todos e que a minha vida enriquece na diferença do outro em mim. Para mim, isso é a construção de uma sociedade de esquerda.

Que sinais esta mudança dá à sociedade sobre a postura do Governo Federal em relação à saúde?

Creio que dá um sinal pior do que só da saúde. Dá um sinal de traição das pautas pelas quais foi eleito. Uma infelicidade histórica essa que estamos vivendo, com consequências brutais para a construção de um Brasil democrático e de esquerda.

Há futuro para o SUS?

Enquanto os coletivos sociais tiverem como eixo que a saúde é um direito social, é um bem público e não um bem de mercado, que se compra, além de um patrimônio coletivo, e lutarem por isso, o SUS sempre será presente e sempre será uma luz nos túneis.


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