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Quarta-Feira 02.dez.2020

Ano IX - Nº 421

Coluna

A cena e a cidade

Aparentemente todo movimento social queer está relacionado com o entretenimento LGBT nas cidades. Como funciona esta relação?

Postado em 21 de Agosto de 2015 - Guilherme Cavalcante

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Depois das férias da coluna (quase licença médica, muito franco), eis que estou de volta, com muitas ideias para tratar aqui. E já vou direto ao assunto: sempre me pergunto sobre a história que as ruas, paredes e becos lúgubres das cidades contam sobre os LGBT que por ali já passaram. Levando em conta que só nos últimos dez anos estamos experimentando uma espécie de outing social, é bem verdade que no escuro dessas vielas e no fundo dos bares discretos (ou nem tão discretos) das regiões centrais das cidades é que as coisas aconteciam.

Os clubes, bares, boates e até mesmo as saunas (aliás, principalmente elas) - todo tipo de gueto de entretenimento - da década de 1960 para cá, são uma espécie de ágora LGBT, onde o sentimento de comunidade surgiu, onde a militância primeiramente se estruturou. Imagine você que estes espaços permitiram desafiar e desconstruir as normas, romper condutas e fortalecer identidades. Como isso surgiu? Quem começou?

Bem, a historia básica você já conhece (ou ao menos deveria conhecer): 28 de junho de 1969, o bar Stonewall Inn, no Brooklin, NY. E a batalha que culminou na primeira resistência LGBT documentada e a qual é atribuída o início da nossa militância. A partir daí é só juntar os pontinhos...

Quer dizer, a relação estreita entre as casas noturnas e militância é clara. O que se esquece, no entanto, é de se documentar os atores que, nos pequenos centros, nem sequer são coadjuvantes nas histórias contadas sobre a edificação do movimento LGBT. Campo Grande padece disso, infelizmente.

Há sete anos moro na capital sul-mato-grossense, e meu conhecimento sobre a cena noturna LGBT da cidade é limitada e só contempla o que há de mais recente. Mas não me furto de perguntar a amigos que rondam a cidade desde os anos 80 sobre os lugares que esquentavam os tamborins décadas atrás. E com isso, tento montar na cabeça o cenário onde em meio a repressão o existir LGBT era possível, onde não havia proibição de performar identidade e expressão sexual, algo que hoje é tão absurdamente possível e incentivado em muitos clubes na cidade.

E minhas perguntas seguem: como era possível criar uma zona livre do preconceito em meio da opressão institucionalizada contra a diversidade? Quais os obstáculos que se encontravam? Como fazer a divulgação do lugar? Quem eram os corajosos proprietários que enxergavam nos empreendimentos mais que uma fonte de renda, mas (mesmo que inconscientemente) a oportunidade de exercer a vocação para o clássico aconselhamento tête-à-tête e para o fortalecimento da cultura queer? E principalmente: onde estão os agradecimentos pelos feitos destas pessoas?

Enfim, estamos sendo justos com o passado que torna nosso presente possível? Quantos gays novinhos, por exemplo, nascidos após 1997, e que frequentam as boates LGBT (que hoje já surgem aos montes), se preocupam em conhecer essas histórias? São perguntas que me inquietam e que, adianto, me dispus a investigar.

Este é um projeto (já iniciado) que estou desenvolvendo durante os próximos meses, um livro-reportagem que mapeará a cena LGBT de Campo Grande décadas atrás. Meu objetivo é construir uma espécie de etnografia urbana que, nas entrelinhas, conte de onde viemos. Farei isso não para ganhar dinheiro (hello...), nem reconhecimento, mas por conta da dívida de gratidão que tenho para com os companheiros 50+ que, com suas missões heroicas por meio do entretenimento LGBT, abriram as portas dos nossos armários. Aguardem!

Stonewall nas telinhas

Falando em Stonewall, já saiu o trailer de um filme que contará a história da batalha que marca o dia do Orgulho. O único problema, que é bastante grave, é que a história parece ter sido higienizada, retirando da pauta a participação/protagonismo de gays e pessoas transexuais negras que efetivamente foram a resistência do evento. A transexual Sylvia Rivera (1951-2002), por exemplo, foi a primeira a atirar uma pedra contra a truculência policial em 1969. O trailer você confere aqui, mas adianto que há um movimento pelo boicote ao filme.

O filme Stonewall tem estreia prevista para 25 de setembro e traz Jeremy Irvine no papel principal.


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