Semana On

Sábado 24.ago.2019

Ano VII - Nº 360

Comportamento

Estudos condenam classificação de gerações

Ideia de que geração Y é mais criativa ou colaborativa é posta em cheque.

Postado em 05 de Agosto de 2015 - Redação Semana On

Há muito exagero e estereotipação na caracterização da personalidade de cada geração. Há muito exagero e estereotipação na caracterização da personalidade de cada geração.

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Estudos no exterior e no Brasil corroboram a visão de especialistas em recursos humanos: claro que as diferentes gerações não são idênticas, mas há muito exagero e estereotipação na caracterização da personalidade de cada grupo.

Veja o caso da suposta criatividade e irreverência da geração Y, com frequência citada como mais preocupada com uma vida repleta de propósito do que com dinheiro, em oposição aos seus pais, a geração X, preocupada com carreira, consumo e bens.

"Percebemos essa tendência criativa mais entre os jovens das classes mais altas", diz Elisabete Adami dos Santos, professora da PUC-SP.

A lista das graduações mais procuradas no país mostra que a maior parte dos jovens ainda busca áreas tradicionais –"caretas". As quatro primeiras são administração, direito, pedagogia e contabilidade.

Arquitetura só aparece em 13º lugar. Publicidade e jornalismo, em 21º e 27º.

Tal ranking bate com uma pesquisa Datafolha divulgada em julho, que ouviu 1.036 jovens entre 16 e 24 anos. O trabalho ideal para a maioria tem horário fixo (71%) e cargo alto, com maior salário e responsabilidade (60%). Uma quantidade menor diz buscar poder trabalhar de casa (38%) ou ter horários flexíveis (27%).

Autoimagem

Uma diferença que realmente foi quantificada entre a geração Y e as anteriores, geração X e baby-boomers, refere-se à autoimagem.

Um estudo da Universidade de New Hampshire mostrou que os jovens americanos têm uma visão mais inflada de si, mesmo quando descontado o efeito da idade –ou seja, os mais novos são mais otimistas quanto ao seu próprio destino do que eram seus pais ou avós quando tinham sua idade.

Uma potencial explicação é o fato de tais jovens terem crescido em ambientes mais ricos –a renda cresceu ao longo das décadas– e protegidos.

Há certo senso comum de que os pais de hoje são mais sensíveis ao bem-estar dos filhos. Içami Tiba citava a simbólica questão do frango assado: antes, pais e avós ficavam com peito e coxa, que depois passaram ao prato das crianças. Mas daí a dizer que isso afetou o ego dos meninos não passa de hipótese, e também não se sabe se as conclusões são aplicáveis ao Brasil.

Ansiedade

João Brandão, professor da FGV, diz que com frequência se atribui à geração Y ansiedade no mercado de trabalho.

"Os jovens de hoje, por causa da velocidade de internet, tendem a não querer esperar cinco anos por uma promoção", afirma. "Mas, em alguma medida, impaciente todo jovem sempre foi."

É a questão: a ansiedade é característica desses jovens ou simplesmente algo típico da juventude de qualquer época?

"Minha opinião é que as pessoas amadurecem e a ansiedade tende a diminuir", diz Luís Fernando Martins, diretor da Hays, agência de recrutamento e seleção.

Até as preferências políticas podem estar mais ligadas com a idade do que com características específicas de uma determinada geração.

Infelizmente não há dados para o Brasil, mas nos EUA um infográfico do jornal "The New York Times" mostra como a idade afeta a visão politica.

Eleitores que nasceram na década de 1990 são, de fato, majoritariamente democratas. Eleitores que nasceram na década de 1950 são majoritariamente republicanos. O que o jornal mostrou foi que os mais velhos, porém, mudaram de opinião com o tempo: quando jovens, também eram democratas. O ponto de transição se dá por volta dos 32 anos.

Isso não significa determinismo ideológico etário. Os jovens dos anos Reagan foram mesmo mais republicanos, ao contrário dos que viveram os anos após o assassinato de John Kennedy. Há, porém, uma tendência geral a ser democrata quando jovem.

Há ainda outras características de personalidade, mais subjetivas, que são difíceis de medir. Há uma mudança de comportamento sexual bem registrada –mais parceiros ao longo da vida–, mas seriam mesmo os jovens de hoje menos ciumentos ou possessivos do que seus pais, por exemplo?

O que vem agora é a dita geração Z, de nascidos após 2000, os "nativos digitais". Ainda não está totalmente claro o que será dito sobre essas pessoas para quem até a internet discada é Pré-história.


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