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Sexta-Feira 20.set.2019

Ano VIII - Nº 364

Especial

Jovens começam a beber cada vez mais cedo

País lidera o ranking de consumo de álcool na América Latina.

Postado em 29 de Julho de 2015 - Redação Semana On

O mais preocupante é que esses jovens não só começaram a beber cedo, como têm feito uso abusivo do álcool. O mais preocupante é que esses jovens não só começaram a beber cedo, como têm feito uso abusivo do álcool.

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Cerca de 47% dos usuários de bebidas alcoólicas no Brasil começou a beber com menos de 18 anos. Os dados são da Pesquisa Nacional de Saúde divulgada no ano passado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). De acordo com a pesquisa, 34,5% dos usuários tiveram o primeiro contato com a bebida alcoólica entre os 15 e os 17 anos e 12,5%, antes dos 15 anos.

Um estudo conduzido pelos pesquisadores Tatiana Gonçalves dos Reis e Luiz Carlos Marques de Oliveira – que ouviu 638 alunos de 13 a 17 anos - mostrou que, no interior de estados da região sudeste, 80,9% dos jovens nesta faixa etária já consumiu álcool. Dos 513 alunos que relataram a idade da primeira experimentação, 269 (52,4%) disseram que foi entre 10 e 13 anos, 204 (39,8%) entre 14 e 17 anos e 40 (7,8%) antes dos 10 anos de idade. Dos 508 alunos que relataram o local do primeiro consumo, 251 (49,4%) disseram que foi em festas, 99 (19,5%) em casa de parentes, 79 (15,6%) na própria casa e 79 (15,6%) relataram diversos outros locais.

Segundo o ministro da Saúde, Arthur Chioro, o mais preocupante é que esses jovens não só começaram a beber cedo, como têm feito uso abusivo do álcool. “É preciso encarar esse uso abusivo por jovens como um problema de saúde pública. O álcool é responsável por muitas doenças e muitos problemas de saúde pública”, disse.

A cada 36 horas, um jovem brasileiro morre de intoxicação aguda por álcool ou de outra complicação decorrente do consumo exagerado de bebida alcoólica.

Para Chioro, é fundamental ampliar a fiscalização aos estabelecimentos comerciais, para evitar a venda a menores de idade, já que esse comércio é proibido pela legislação. “Mas também é preciso trabalhar com as famílias, porque, muitas vezes, o jovem tem acesso à bebida alcoólica no próprio seio familiar, nas festas. Como a bebida é socialmente aceita, faz-se todo um rito de iniciação [dentro da família].”

Um dado preocupante da pesquisa é que 24,3% dos usuários de álcool entrevistados assumiram já ter dirigido sob efeito de bebida. “São mais de 30 mil óbitos por ano relacionados a acidentes de trânsito, e uma parcela considerável deles é relacionada a pessoas que ingeriram álcool ou drogas e dirigiram."

O ministro defende o fortalecimento dos processos fiscalizatórios previstos na Lei Seca e o desenvolvimento de um conjunto de atividades preventivas de educação, saúde e informação.

O problema não está apenas nas estradas e ruas do país. Dados disponíveis no portal Datasus mostram que, a cada 36 horas, um jovem brasileiro morre de intoxicação aguda por álcool ou de outra complicação decorrente do consumo exagerado de bebida alcoólica.

De acordo com informações do Ministério da Saúde reunidas no portal, foram registradas em 2012, último dado disponível, 242 mortes na faixa etária dos 20 aos 29 anos causadas por "transtornos por causa do uso de álcool", conforme definido na Classificação Internacional de Doenças (CID).

Considerando todas as faixas etárias, o número de mortes causadas pelo álcool chegou a 6.944 em 2012, quase o dobro do registrado em 1996, dado mais antigo disponível na base Datasus. Naquele ano, foram 3.973 óbitos associados ao consumo exagerado de bebida. No período, a alta no número de mortes foi de 74%.

Ponta do Iceberg

Especialistas garantem que o número de mortes associadas ao álcool deve ser ainda maior se computadas as causas secundárias, como doenças provocadas pelo consumo por um longo período de tempo ou violência associada à ingestão da bebida. "Se considerados problemas como cirrose hepática ou acidentes causados por embriaguez, por exemplo, esse dado sobe", diz Deborah Malta, diretora do Departamento de Vigilância de Doenças e Agravos Não Transmissíveis do Ministério da Saúde.

Pesquisadora do Instituto Nacional de Políticas Públicas do Álcool e Outras Drogas da Universidade Federal de São Paulo (Inpad/Unifesp), Clarice Madruga afirma que o consumo excessivo de álcool em todas as faixas etárias vem crescendo nos últimos anos.

Pesquisa da Unifesp mostra que, entre os brasileiros que consomem álcool, o hábito chamado de "beber em binge", quando há ingestão de pelo menos cinco doses de bebida em um período de duas horas, cresceu de 45%, em 2006, para 59%, em 2012."E esse abuso é mais comum entre jovens, porque nessa faixa etária é realmente mais difícil controlar os impulsos. Por isso não se pode culpar a vítima ou os pais. É preciso que o poder público intervenha na venda de bebida", defende Madruga.

A especialista explica que o consumo exagerado de álcool, quando não chega ao ponto de levar à morte, está associado a uma série de problemas físicos e psíquicos. "No caso da intoxicação, é uma relação simples. O álcool em excesso paralisa o sistema nervoso e, se a pessoa entrar em coma alcoólico e não tiver o devido cuidado, pode sofrer a parada cardiorrespiratória. Além disso, o álcool causa doenças no fígado, perda cognitiva e ainda pode desencadear de forma mais rápida e mais severa doenças como a depressão e o transtorno de ansiedade."

Para Clarice, "a situação não vai mudar enquanto o governo não sobretaxar a indústria e proibir situações como o patrocínio de empresas cervejeiras a festas universitárias". A representante do ministério diz que o governo tem feito ações de monitoramento e prevenção do uso de álcool e que o governo apoia projetos de lei que dificultam o acesso à bebida. "Esperamos que a lei que criminaliza a venda de bebida para menores de idade entre em vigor o mais rápido possível", afirma Deborah.

Líder na América Latina

Os adultos brasileiros bebem, em média, 8,7 litros de álcool puro por ano – quantidade que já foi maior, mas continua sendo uma das mais altas nas Américas e supera a média mundial, segundo um recente informe da Organização Mundial da Saúde (OMS).

De acordo com a medição, baseada em dados compilados entre 2008 e 2010, o país tem a nona maior média de consumo alcoólico, entre 35 países pesquisados no continente.

Nos três anos anteriores, os adultos brasileiros consumiam 9,8 litros de álcool puro, terceira maior média do continente.

Segundo a brasileira Maristela Monteiro, assessora principal sobre abuso de substâncias e álcool da OMS, há uma cultura de consumo de álcool instalada na América Latina, criando um importante problema de saúde pública regional.

Na América Latina e no Caribe, as pessoas consomem em média 8,4 litros de álcool puro por ano, 2,2 litros a mais do que a média mundial, diz a OMS

 

Consumo adulto per capita de álcool puro nas Américas
(média anual entre 2008 e 2010)

Granada - 12,5 litros

Sta Lucia - 104, litros

Canadá - 10,2 litros

EUA - 9,2 litros

Chile - 9,6 litros

Argentina - 9,3 litros

Venezuela - 8,9 litros

Paraguai - 8,8 litros

Brasil - 8,7 litros

Belize - 8,5 litros

 

O consumo per capita por homens brasileiros é de uma média de 13,6 litros de álcool puro por ano. Apenas cinco países da região superam esse nível de consumo. Entre as mulheres brasileiras, o consumo per capita é de 4,2 litros de álcool puro por ano.

A cerveja é apontada como a bebida alcóolica mais popular na região: representa 55% de todo o álcool consumido, seguida por destilados como vodca e uísque (cerca de 30%) e o vinho, com quase 12%.

Consumo Excessivo

A situação tem piorado, segundo a OMS: em 2005, 18% dos consumidores masculinos relataram ter tido episódios de forte consumo de bebidas alcóolicas (quatro ou cinco bebidas em ao menos uma única ocasião ao longo de 30 dias). Essa porcentagem subiu para quase 30% em 2010.

Entre consumidoras mulheres, essa porcentagem também subiu de 4,6% para 13% no mesmo período. Na América Latina, um a cada cinco consumidores (22%) pratica episódios de consumo alcóolico excessivo, contra 16% da média global.

Para Monteiro, um dado particularmente relevante é que apenas 10% dos consumidores bebem, em média, mais de 40% de todo o álcool consumido na região. "Não se trata de tomar uma quantidade moderada por gosto ou por saúde, como por exemplo o vinho. O consumo se concentra em grandes doses", diz a especialista. "Especialmente entre os jovens, que o veem como uma espécie de ritual com prestígio social."

Segundo Maristela Monteiro, o álcool não afeta só quem bebe. “Aumentam os episódios de violência e os acidentes de trânsito e baixa a produtividade do país por culpa não só de faltas ao trabalho, mas sim pelo que se conhece como 'despresentismo', ou seja, pessoas que chegam ao local de trabalho sem forças (pelo efeito do álcool)."

Ela defende que os governos elevem os impostos sobre o álcool, para encarecê-lo; limitem horários e dias de venda de bebidas nos estabelecimentos; subam a idade legal mínima para o consumo; e reduzam ou proíbam sua publicidade (70% dos países não têm regulamento para tal).

A pesquisadora também fala em uma mudança cultural e educacional. "É preciso acabar com o prestígio social de beber álcool", diz.

Consequências

A consequência do consumo excessivo é que, em 2012, houve uma morte a cada 100 segundos em decorrência do álcool – 80 mil mortes poderiam ter sido evitadas naquele ano caso o consumo de álcool não tivesse ocorrido.

"Em geral, o consumo de álcool e os danos resultantes são relativamente altos nas Américas, em comparação às demais regiões do mundo", aponta o estudo da OMS. Além disso, a organização calcula que o consumo de álcool contribua com mais de 200 doenças ou lesões, como cirrose hepática e alguns tipos de câncer. Também torna as pessoas mais suscetíveis a doenças infecciosas, como HIV e tuberculose, e menos receptivas ao tratamento.

Em 2010, cerca de 14 mil jovens de menos de 19 anos morreram na região por motivos relacionados à bebida alcóolica. "A América Latina e o Caribe estão pagando um preço alto em saúde, recursos financeiros e produtividade" por causa desses excessos, observa Anselm Hennis, diretor do Departamento de Doenças Não-Transmissíveis e Saúde Mental da OMS.

O relatório da OMS cita outro estudo que identifica o álcool como a maior causa de mortes entre jovens brasileiros entre 15 e 19 anos. E, "ainda que o Brasil tenha repetidamente imposto leis para baixar o limite legal de teor alcóolico no sangue e aumentar as penas para quem bebe e dirige, esses esforços não têm tido efeitos duradouros na segurança viária", aponta o texto.

Mas o que explica o alto consumo de bebidas alcóolicas na região? "Algo está mudando na América Latina", diz Monteiro. "Nunca houve uma forte cultura de consumo na região, mas o desenvolvimento econômico e novos valores importados da globalização estão fazendo com que o consumo excessivo e abrupto seja uma tendência."

Indústria

Maristela Monteiro menciona fatores como o crescimento da indústria de bebidas como fortes influenciadores no alto consumo. "O álcool chega a todas as partes: foram melhoradas as cadeias de distribuição, há mais estabelecimentos e oferta e tampouco é desprezível a pressão que a indústria sabe exercer sobre os governos para que os preços do álcool fiquem baixos e não haja regulações."

A presidente da Associação Brasileira de Estudos do Álcool e Drogas (Abead), Ana Cecília Marques, concorda. Uma pesquisa capitaneada por ela - sobre o poder de compra de álcool entre meninos e meninas menores de idade – mostrou que 100% das meninas, com idade entre 12 e 17 anos, conseguiram comprar a bebida, enquanto somente 60% dos meninos saíram dos estabelecimentos com a bebida. “O poder da indústria do álcool é muito forte no nosso País, eles ditam o ritmo”, afirma.

De acordo com Clarice Madruga, a posição do governo em relação à indústria de bebidas é falha. Em sua opinião, é preciso maior fiscalização para que os jovens não se envolvam com o álcool. “É importante taxar o álcool. Em países em que o álcool é mais caro, o consumo é menor. A disponibilidade de bebidas alcoólicas é muito fácil aqui no Brasil, o jovem consegue comprar bebida em qualquer lugar”, sustenta.

A presidente da Abead também acrescenta que a indústria tem desenvolvido bebidas com o objetivo de agradar o paladar da mulher. “As bebidas já são feitas com base no gosto feminino. São mais doces, mais suaves e coloridas”.

Elas bebem tanto quanto eles

Apesar de as pesquisas apontarem que o consumo de álcool é mais comum entre os homens, entre os adolescentes o índice já é igual em ambos os sexos, de acordo com as especialistas. Para Patricia Hochgraf, coordenadora do programa de atendimento à Mulher Dependente Química do Instituto de Psiquiatria da USP, as adolescentes se comportam como os meninos, já que hoje são mais independentes hoje em dia.

“Elas saem para a balada para beber, assim como os meninos. Entre os adolescentes, as meninas já alcançaram os garotos em relação à quantidade consumida de álcool. Na clínica que trabalho na USP, por exemplo, na idade entre 12 e 17 anos, o consumo de álcool já é o mesmo entre os dois sexos”, afirma.

Ana Cecília Marques afirma que esta equivalência no consumo de álcool se dá ao fato de que as meninas amadurecem fisicamente mais cedo que o menino, principalmente em relação ao corpo. “Esse fator expõe a menina, porque ela consegue comprar a bebida sem que se peça o documento para comprovar a maioridade”.

Segundo dados da OMS, em 2025, os dois gêneros estarão consumindo a mesma quantidade de álcool em todo o mundo.


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