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Domingo 31.mai.2020

Ano VIII - Nº 395

Mundo

Trump ameaça se candidatar sem partido e embaralha disputa nos EUA

Candidatura do bilionário mostra poder universal da antipolítica.

Postado em 24 de Julho de 2015 - Redação Semana On

Trump ameaçou romper com o Partido Republicano para concorrer como independente à Casa Branca em 2016. Trump ameaçou romper com o Partido Republicano para concorrer como independente à Casa Branca em 2016.

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Em pouco mais de um mês, o bilionário Donald Trump lançou sua pré-candidatura à Presidência dos EUA, fez comentários escandalosos sobre imigrantes ilegais, trocou farpas com políticos republicanos e democratas, chegou à liderança da disputa entre seus correligionários.

E, diante de inevitáveis críticas, ameaçou romper com o Partido Republicano para concorrer como independente à Casa Branca em 2016.

Na quinta (23), o site "The Hill" publicou entrevista na qual o magnata diz que avaliará a atitude do partido. Se não for "justa" o bastante, disse, isso pesará na decisão.

Ainda que sua candidatura seja vista com ceticismo por analistas, o descolamento pode bagunçar ainda mais o cenário do Partido Republicano, que já conta 16 pré-candidatos -um recorde.

Trump é o candidato com maior intenção de votos entre o eleitorado republicano por ora. Segundo a pesquisa mais recente, do instituto PPP, 19% votariam nele.

Mas, se concorresse com a ex-secretária de Estado democrata Hillary Clinton, ele perderia por 50% a 37%. É o dobro da margem dela sobre outros republicanos.

A candidatura independente também seria um risco para o partido, já que pode dividir o eleitorado conservador e ajudar Hillary.

Há precedentes. Em 1992, o empresário Ross Perot, concorrendo como independente, cativou parte dos conservadores, e George Bush pai perdeu para Bill Clinton.

Fronteira

A ameaça de Trump de descolar-se do Partido Republicano veio a público no mesmo dia em que o magnata visitou Laredo, no Texas, na fronteira com o México.

Em seus primeiros dias como pré-candidato, ele relacionara mexicanos que vivem nos EUA ilegalmente a crimes como narcotráfico e estupro.

Na quinta, usando um boné com o slogan de sua campanha, "Faça a América Grandiosa Outra Vez", o empresário e apresentador do programa "O Aprendiz" contornou perguntas sobre sua popularidade com o eleitor latino, fundamental nos EUA.

Para o professor da Universidade Harvard Alexander Keyssar, os republicanos sabem que a maior parte dos votos que querem aglutinar não vem dos latinos. Mas a posição de Trump obriga os que esperam obter algum apoio a tentar apagar o incêndio.

O ex-governador da Flórida Jeb Bush, segundo entre os republicanos e casado com mexicana, disse ter "enorme discordância com Trump no tom e conteúdo de seu discurso, que não é preciso".

Mas é exatamente o tom do magnata que atrai o americano conservador, diz Keyssar.

"Ele é sensacionalista. Estamos vendo um ator no show business. O fato de se expressar com clareza e não repetir os clichês políticos é o que atrai as pessoas, mas não é um candidato sério."

De fato, Trump não repete clichês. Tem dito coisas tão inusitadas que o site Huffington Post anunciou que passaria a noticiar a campanha de Trump não como política, mas como entretenimento.

"Não vamos morder a isca. Se você está interessado no que 'The Donald' tem a dizer, você achará isso perto de textos sobre as Kardashians e 'The Bachelorette'", diz o portal citando reality shows campeões de audiência on-line.

Os tiros também se voltam para os correligionários. No último sábado (18), Trump questionou o mérito do senador e ex-presidenciável John McCain como ex-piloto de guerra. Herói até para o presidente Barack Obama, seu oponente em 2008, McCain foi capturado e torturado na Guerra do Vietnã (1965-75).

Para Trump, não é por que foi capturado que ele serviu bem ao país. "Gosto de pessoas que não são capturadas", disse então.

O episódio feriu os brios não só de militares. Rupert Murdoch, magnata de mídia e conservador, questionou em uma rede social: "Quando Trump vai parar de constranger os amigos e deixar o país em paz?". No dia seguinte, seu "Wall Street Journal" considerou o candidato, em editorial, "uma catástrofe".

Para enfrentar os meses de campanha pela frente -as eleições primárias, em rodadas estaduais, começam em janeiro-, Trump pode seguir o conselho de um cabo eleitoral mirim. Shay Doyle, 10, foi à rede CNN em junho declarar que Trump é seu ídolo. "Não leve para o lado pessoal. Isso sempre acontece em campanhas presidenciais."

Antipolítica

rimeiro disseram que Donald Trump atingiria o pico das intenções de voto em dias. Faz um mês.

Depois disseram que o milionário do setor imobiliário tinha atingido o teto com a ajuda de "malucos" republicanos. Pesquisas registram Trump com 24% dos votos, quase o índice dos seus dois maiores rivais (Jeb Bush e Scott Walker) somados.

Por fim, somos informados de que o fim do sr. Trump paira sobre nós. A razão é simples: ele foi longe demais.

A qualquer momento, o candidato mais patético, preconceituoso e egocêntrico da história republicana vai implodir. Tudo o que restará serão aqueles cartazes luminosos piscando "Trump" nos arranha-céus e nos cassinos dos EUA. Por esse ponto de vista, poderemos voltar à política tal como a conhecemos.

Infelizmente, os especialistas estão se enganando.

A política americana não vai recomeçar de onde parou. Mesmo que Trump se torne o primeiro homem a subir aos céus em seu arroubo, ele deixará uma marca no partido.

Entre 16 candidatos, um deles atingir um quarto dos votos é um massacre. Os detratores de Trump, uma das maiores coalizões bipartidárias de que se tem memória, consolam-se pensando se tratar só de uma viagem egocêntrica que vai desandar.

Pode ser. Mas eles estão se esquecendo do principal: as legiões de republicanos reunidos sob a bandeira de Trump não vão sair de onde estão. Se a candidatura do empresário ruir, o que pode ocorrer, acharão outro ídolo.

O melhor momento de Trump está por vir. Em duas semanas, ele vai subir ao pódio no debate republicano da Fox News como o primeiro dos dez candidatos habilitados a participar (pelo critério de intenção de votos).

Trump deve fazer ali o que tem funcionado em sua campanha: insultar os demais candidatos e vê-los sofrer.

Em um momento em que deveria traçar sua estratégia, gente como Jeb Bush só tem uma coisa na cabeça: como responder a Trump? Fingir ignorá-lo ou dizer: "O sr. não tem vergonha"?

Não há resposta certa para dilemas assim. As tentativas de achincalhar Trump podem alimentar o ressentimento popular que o sustenta.

Tampouco é possível roubar-lhes as armas políticas. Sua plataforma não tem nenhuma lógica. Seu sucesso se baseia no espírito da antipolítica. Coerência, nesse caso, se chama desonestidade.

A pesquisa mais recente mostra que apenas 8% dos republicanos com nível universitário apoiam Trump, contra 32% dos demais. São os estratos raivosos dos EUA, que se sentem desprezados e insultados. Querem recuperar o país, mas não podem dizer o que realmente querem.

E então aparece Trump.

Os estrangeiros podem vê-lo como alguém tipicamente norte-americano. Mas ele tem equivalentes em qualquer lugar. Pense em Silvio Berlusconi na Itália. Quanto piores parecem, mais bem-sucedidas são suas investidas. Esse é o poder da antipolítica.


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