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Quarta-Feira 14.abr.2021

Ano IX - Nº 438

Poder

Acusado de receber propina, Cunha diz que é oposição ao governo

Reação veio após Cunha ser denunciado pelo lobista Júlio Camargo, de ter embolsado US$ 5 milhões para viabilizar um contrato de navio-sonda da Petrobras com a Toyo Setal.

Postado em 17 de Julho de 2015 - Redação Semana On

O presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), anuncia seu rompimento com o governo Dilma Rousseff. O presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), anuncia seu rompimento com o governo Dilma Rousseff.

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Em rota de colisão com o Planalto desde que assumiu a Presidência da Câmara, no início do ano, Eduardo Cunha (PMDB-RJ) oficializou na manhã desta sexta-feira (17) o seu rompimento com o governo da presidente Dilma Rousseff.

Cunha afirmou que a partir de agora será oposição, mas enfatizou que não atuará contra o governo como presidente da Casa. O Planalto informou que espera "imparcialidade" do presidente da Câmara.

"Estou oficialmente rompido com o governo a partir de hoje. [...] Teremos a seriedade que o cargo ocupa. Porém, o presidente da Câmara é oposição ao governo", disse, nesta sexta.

Cunha acusou o governo de ter orquestrado uma campanha contra ele na Operação Lava Jato e disse que há um "bando de aloprados" no Planalto, mas se negou a responder quem seriam essas pessoas.

Na quinta (16), ele foi acusado pelo lobista Júlio Camargo de receber US$ 5 milhões de propina. O deputado, que nega as acusações, criticou os procedimentos do juiz Sergio Moro, que tomou o depoimento de Camargo.

Segundo o peemedebista, por ser um juiz de 1º grau, Moro não poderia ter colhido depoimentos contra alguém que tem foro privilegiado – a prerrogativa é do Supremo Tribunal Federal.

"Ele violou o procedimento de foro privilegiado. O juiz acha que o Supremo se mudou para Curitiba", provocou.

Cunha informou que seus advogados ingressarão com uma reclamação no STF para que o processo seja transferido para o STF, e disse: "Ser denunciado não significa que é culpado".

Apesar das críticas feitas ao juiz, Cunha afirmou não acreditar que ele esteja sofrendo influência do governo, como diz estar acontecendo com o procurador-geral da República, Rodrigo Janot. "É óbvio que Moro não está orquestrado com o governo. Não vou brigar com ele. Mas farei uma reclamação para que o caso vá para o Supremo. Ele fez o que não tinha competência para fazer", disse.

Para o peemedebista, Janot, está seguindo orientações do governo porque quer ser reconduzido ao cargo – seu mandato acaba em setembro, e depende de indicação de Dilma para ser reconduzido– e reclamou que os procedimentos adotados pelo Ministério Público não são iguais para todos os investigados.

Segundo o parlamentar, a Procuradoria está protegendo o PT porque não pediu a abertura de inquérito contra Dilma e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. "Se o procedimento de investigar é igual para todos, deveria ter aberto para todos. Estão selecionando", disse.

Cunha afirmou também que não será arrastado "para a lama" em que o governo se envolveu em atos de corrupção na Petrobras. "Essa lama em que está envolvida a corrupção da Petrobras, cujos tesoureiros do PT estão presos, eu não vou aceitar estar junto dela".

O parlamentar declarou ter provas da atuação do governo contra ele e informou que a Receita Federal está fazendo uma devassa fiscal em suas constas desde 23 de junho.

"É um constrangimento a um chefe de poder", disse. O presidente da Câmara rejeitou qualquer possibilidade de se afastar do cargo durante as investigações.

PMDB

O presidente da Câmara disse, ainda, que defenderá o rompimento imediato do PMDB com o governo no próximo congresso do partido, que acontecerá em setembro.

Questionado sobre como ficaria o vice-presidente da República, Michel Temer – que é presidente nacional do PMDB – com a situação, Cunha afirmou não ver problema em o partido sair do governo e ainda assim Temer continuar como vice-presidente. O partido emitiu nota afirmando a decisão do parlamentar é pessoal e que a sigla continua na base do governo.

Desde que era líder do PMDB, na legislatura passada, Cunha já atuava contra os interesses do Planalto. Ele conseguiu reunir alguns partidos da base, no grupo que ficou conhecido como "blocão", para derrotar o governo em algumas matérias. Hoje, Cunha negou que ele tenha existido. "O governo sempre me viu como uma pedra no sapato. O governo não me engole", disse.

Apesar de ser da base aliada, o partido tem gerado tensão para o governo. O presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), – que não é de partir para o ataque ao Palácio do Planalto verbalmente – tem preferido retaliar a presidente Dilma Rousseff em votações e manobras na Casa. Nesta quinta, por exemplo, anunciou medidas para efetivar a criação de duas CPIs incômodas ao Planalto.

Suas críticas também estão no balanço semestral do Senado, publicado na internet nesta sexta – ele iria dar uma entrevista coletiva sobre assunto, que foi cancelada.

No documento, o senador volta a defender a rediscussão do modelo de coalizão em vigor no país. "O método atual, de aparelhamento e fisiologia, está exaurido e precisamos, sempre, qualificar programaticamente as coalizões afim de preservar a independência dos Poderes e a solidez democrática."

O peemedebista reitera, no documento, que o ajuste fiscal promovido pelo governo caminha para ser um "desajuste social" por unir a "explosiva combinação" de recessão, inflação alta, desemprego e "juros pornográficos", que somente o trabalhador "pagou a conta do ajuste" e que não há horizontes de melhorias para o país após as medidas tomadas pelo Executivo.

"Não é a política que contamina a economia. Quem alimenta a crise política é a crise econômica", afirma.

O peemedebista diz que há uma "crise recorrente" no país, sem espaço para soluções "fora da lei". A colaboração do Congresso com o governo, segundo Renan, não pode ser confundida com "submissão ou leniência".

Renan, também investigado pela Lava Jato, criticou duramente nesta terça-feira (14) uma operação da Polícia Federal que vasculhou imóveis de senadores.

Por conta própria

Minutos após a oficialização do rompimento do presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), com o Planalto, o PMDB saiu a público para afirmar que a sigla continua na base do governo.

Em nota, o partido diz que a decisão de Cunha é "a expressão de uma posição pessoal, que se respeita pela tradição democrática do PMDB", mas enfatiza que qualquer decisão sobre deixar a base aliada só pode ser tomada "após consulta às instâncias decisórias do partido: comissão executiva nacional, conselho político e diretório nacional".

O vice-presidente da República, Michel Temer, é também presidente nacional do PMDB. Questionado como ficaria a situação de Temer caso o partido decidisse sair da base aliada, Cunha afirmou que não haveria mudanças porque ele não vê problemas em Temer continuar no cargo.

Cunha garantiu que defenderá a saída da base governista durante convenção nacional do partido, em setembro.

Nesta sexta, o governador do Rio, Luiz Fernando Pezão (PMDB), escolheu ficar do lado do governo, disse que é "solidário à presidente" e defendeu as apurações da Lava Jato.

O governador – que esteve com Cunha e Temer em jantar oferecido pelo prefeito do Rio, Eduardo Paes (PMDB), na última sexta– afirmou que as apurações da Lava Jato não podem "parar o país".

"Eu sou solidário à presidenta Dilma. Não estou aqui para falar pelo PMDB, falo em meu nome. A gente só consegue as coisas com muita união. A briga, a divergência, têm que ser deixadas para a hora propícia, dos palanques. A gente já passou desse momento. Temos agora que governar", disse, após discursar no encerramento do Confaz (Conselho Nacional de Política Fazendária), no Rio.

O governador, que já teve seu nome citado na Lava Jato, defendeu as investigações e afirmou que quem for culpado tem que ser punido.


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