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Terça-Feira 02.mar.2021

Ano IX - Nº 432

Coluna

Os piores cegos

Uma solução prática e testada para o problema da violência urbana.

Postado em 17 de Julho de 2015 - Rodrigo Amém

Não queremos vê-los. Não queremos vê-los.

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Existe um grande equívoco no debate sobre a redução da maioridade penal. Os contrários à medida alegam que ela não resolve o problema da criminalidade, o que é uma meia verdade. O que os defensores do bordão “redução não é a solução” teimam em não perceber é que o problema a ser resolvido é outro. O que os cidadãos de bem querem é uma solução imediata para o problema do pivete. 

O problema do pivete não é invenção do governo da Dilma, nem do Lula, nem do FHC. Não é invenção nem de Dom Pedro I. É um problema antigo, mas pode ser definido de uma forma relativamente simples: É o acúmulo de jovens pobres nas regiões de concentração de renda. Uma das primeiras instituições que se empenhou em resolver esse dilema foi a Igreja Católica. Os senhores feudais achavam desagradável aquele monte de pivetes acampados no entorno de suas terras, vendendo porcarias e cometendo pequenos furtos para sobreviver. Esses pobres, que se dedicavam à degradante atividade do comércio para não morrer de fome, acabavam criando pequenos mercados mambembes ao redor dos feudos, chamados burgos. E todo mundo sabe como um camelódromo desvaloriza um imóvel. Acionada a igreja católica, inventou-se uma guerra para levar aquela pivetada para outro canto. Nobres falidos, comerciantes endividados, pobres, crianças. Todos foram convocados para libertar a terra santa da presença dos infiéis. As cruzadas foram uma das primeiras tentativas de tirar os pivetes do campo de visão da pobreza. 

E desde a igreja católica, as potências mundiais usam de criatividade, violência e propaganda para resolver o problema dos pivetes. Aí você me pergunta: por que não investir em educação para dar uma chance para os pivetes deixarem de ser pivetes. Bom, por várias razões. A primeira é que a educação é solução a longo prazo e os pivetes estão na frente da propriedade agora. A segunda é que não basta tirá-los da frente. O investimento na remoção de pivetes tem que trazer retorno financeiro imediato. Caso contrário, você está só gastando dinheiro com pivete. Isso é contraproducente. Países que apostaram na educação para resolver o problema do pivete o fizeram por falta de opção. Um Japão destruído por duas bombas atômicas, uma Coréia soterrada nos escombros da guerra. Se não sobraram mansões e muros para afastar pivetes e gente de bem, quando é preciso reconstruir todo um país das cinzas, as prioridades mudam um pouco. A sociedade ano zero não pode se dar ao luxo de escolher de onde vem seus médicos e engenheiros. Mas é um processo de décadas para terras arrasadas. 

O problema dos pivetes não é que eles existam. É que não queremos vê-los. E você sabe o que dizem daqueles que não querem ver.

Os Estados Unidos, inovadores e arrojados, têm várias estratégias para resolver o problema do pivete. Um sistema carcerário gerido pela iniciativa privada, provido por uma ostensiva repressão ao consumo de drogas especificas, consumidas em sua grande maioria por pivetes, garante celas cheias e presídios construídos em escala industrial. Não por acaso, é a maior população carcerária do mundo. 

Outra estratégia é a indústria bélica. A estratégia mais acessível para o pivete americano sair da mira da polícia e tentar algum tipo de mobilidade social é a carreira militar. Em menos de um ano, o pivete pode sair da frente das casas dos cidadãos de bem diretamente para o Afeganistão. A promessa de um soldo para a família e acesso a cursos universitários no seu eventual retorno movem uma máquina de fazer trilhões de dólares. De pivete a veterano, o processo pode levar menos de dois anos. Pode também traumatizar, aleijar e matar. Mas só os pivetes e os terroristas. E eles, que são pardos, que se entendam.

O Brasil precisa ter a coragem de dar esse próximo passo. Usar nossa superioridade militar para resolver o problema do pivete. Quando os cidadãos de bem exigiam a presença do Exército nos morros, no fundo o que se pedia era a presença do morro no Exército. Precisamos de uma guerra. Talvez contra o Uruguai, que agora é maconheiro. Melhor ainda, contra a Venezuela, que parece ser comunista e amiga de Fidel. Vamos invadir a Venezuela, dizer que é pra combater as Farc, derrubar o Maduro, sei lá. Imagina o sorriso de orelha a orelha do Bolsonaro. 

O importante é que criaríamos uma demanda para jovens soldados se alistarem e defenderem o país. Aí poderíamos exportar nossos pivetes, devidamente armados e fardados, para atirar em alguém lá longe. Longe dos nossos olhos. Longe das portas dos nossos condomínios e das nossas ciclovias de cartão postal. O problema dos pivetes não é que eles existam. É que não queremos vê-los. E você sabe o que dizem daqueles que não querem ver. 


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