Semana On

Quarta-Feira 14.abr.2021

Ano IX - Nº 438

Especial

Ódio na rede

Sites de notícias e redes sociais são infestados de comentários cheios de ódio, rancor e extremismo. Qual o motivo disso?

Postado em 16 de Julho de 2015 - Redação Semana On

Qual o motivo de tanto ódio? Qual o motivo de tanto ódio?

Clique aqui e contribua para um jornalismo livre e financiado pelos seus próprios leitores.

As mensagens violentas ganharam espaço na internet no Brasil. Nos últimos cinco anos, aumentou 203% o número de páginas (URLs) denunciadas à ONG Safernet por divulgar conteúdos de intolerância racial, religiosa, neonazistas, xenofobia e homofobia ou por fazer apologia e incitação a crimes contra a vida. Em 2010, os internautas identificaram e denunciaram 6.990 destas páginas. Em 2013, foram 21.205, das quais 11.004 estavam no Facebook, a rede social mais usada pelos brasileiros.

Se considerado apenas o Facebook, o aumento no número de perfis com mensagens violentas alcança 265% em três anos. Em 2011, os internautas identificaram e denunciaram 3.011 páginas com este tipo de conteúdo. Em 2013 foram 11.004. Mensagens racistas predominam entre as denúncias, com 6.811 páginas identificadas no Facebook, seguidas por apologia e incitação a crimes contra as pessoas (2.398), como assassinatos, tortura, suicídio e linchamentos — justamente o tipo de mensagem que pode provocar tragédias como a que tirou a vida da dona de casa Fabiane Maria de Jesus, em maio de 2014, no Guarujá (SP).

“Infelizmente, temos visto uma escalada da propagação do ódio na internet. Não é só um crescimento na quantidade de mensagens de ódio, mas um recrudescimento do conteúdo, com um nível de violência cada vez maior”, afirma Thiago Tavares Nunes de Oliveira, presidente da Safernet.

O que mais preocupa nesta escalada de violência não é só a manifestação de um brasileiro descrente nas leis, na polícia e na Justiça: proliferam também os grupos de ódio, como os de neonazistas, e de misoginia, que pregam ódio, desprezo e repulsa às mulheres e suas características.

Imagem da sociedade

Na avaliação de Tavares, as mensagens cada vez mais virulentas do internauta que age isolado e contagia sua roda de amigos se misturam e legitimam o surgimento de grupos organizados que querem, no vácuo deixado pela ineficiência das instituições, usurpar o poder do Estado.

“A internet é a imagem da sociedade refletida no espelho. Com a mobilidade da internet, estamos permanentemente conectados, e a tendência é que esse mundo on-line se aproxime cada vez mais do off-line. No caso dos grupos de ódio, há um núcleo duro que espalha conteúdo, se envolve e cria polêmicas, e tenta se organizar fora da rede. O que está em jogo é a própria democracia”, diz Tavares.

Além dos grupos de ódio, há a violência difusa que espalha preconceito racial, religioso, xenófobo e homofóbico — ainda mais difícil de ser identificada e controlada. Na opinião do psicólogo Rodrigo Nejm, da Safernet, é preciso educar o brasileiro para a cidadania digital. Há uma diferença entre o que o cidadão fala dentro das redes sociais e fora dela. Uma pesquisa com usuários de internet com idade entre 9 e 23 anos, entre 2012 e 2013, mostrou que 61% deles se comportam nas redes de forma diferente, 34% se sentem mais livres e 10% acham normal “zoar e xingar”.

Pesquisa com usuários de internet com idade entre 9 e 23 anos, entre 2012 e 2013, mostrou que 61% deles se comportam nas redes de forma diferente, 34% se sentem mais livres e 10% acham normal “zoar e xingar.

O fato é que, nos ambientes não virtuais, ninguém é visivelmente tão agressivo ou violento quanto aparenta ser ao disparar críticas a terceiros, sejam pessoas públicas ou não. Ninguém, por exemplo, xinga o chefe cara a cara. Mas, nas redes sociais, o cidadão é capaz de criar grupos como “Eu odeio meu chefe”, xingar empresas e promover guerras de torcidas.

“Há uma sensação de potência e impunidade das pessoas nas redes sociais, como se a internet fosse um mundo sem lei, em que humilhações e ofensas são permitidas”, diz Nejm.

Ele ressalta que a escala de mensagens violentas ou agressões pessoais na internet é assustadora. No mundo real, ressalta, uma discussão tem começo e fim. No ambiente digital, o conteúdo dificilmente é completamente eliminado, mesmo que seja apagado pelo autor.

“Se o conteúdo foi compartilhado, daqui a dez anos pode voltar a causar dano real. É um efeito muito maior do que se imagina”, diz ele.

Presidente da Comissão de Direito Eletrônico da OAB-SP, Coriolano Camargo afirma que há uma confusão das pessoas em relação à liberdade de expressão e elas precisam ser educadas para exercer a cidadania também na internet.

“A intolerância é algo muito sério na humanidade. Casos como este de Guarujá mostram que as pessoas têm de pensar antes de agir. E agir com tolerância. Só educação e respeito ao outro mudam essa situação”, diz ele.

Estudo

Os psicólogos Justin Hepler e Dolores Albarracín, das universidades americanas de Illinois e da Pensilvânia, respectivamente, publicaram um estudo em 2013 que ajuda a explicar o ódio online. Eles pediram para voluntários indicarem, em uma escala, como se sentiam em relação a estímulos variados. O resultado dividiu as pessoas em dois grupos: abertas ao desconhecido e fechadas. O primeiro grupo tende a ser mais curioso. O segundo não gosta de nada. Isso cria um padrão de comportamento em que o que é avaliado é menos importante do que quem avalia. Os haters pertencem ao segundo grupo, pois odeiam o desconhecido - que permanece desconhecido por causa de outro fenômeno, o viés de confirmação. Esse conceito da psicologia cognitiva diz que tendemos a ignorar ou desprezar fatos que contradigam algo em que acreditamos.

Outro estudo, da Universidade do Estado de Ohio, mostrou que as pessoas passam 36% mais tempo lendo um texto se ele se alinha com sua opinião. "Você fica tão confiante na sua visão de mundo que ninguém consegue dissuadi-lo", explica o jornalista americano David McCraney no livro Você Não é Tão Esperto Quanto Pensa. O conformismo de bater nas mesmas teclas alimenta o medo de absorver ideias novas - e vice-versa. No anonimato da internet, esse é o combustível para comentários inflamados de ódio e a razão da existência e proliferação dos haters. Para piorar, isso sustenta outra praga da internet, as teorias da conspiração. Se você procurar no Google apenas provas de que o homem não foi à Lua, vai encontrar várias - e se sentir aliviado por achar que está certo.

Mas e quando o anonimato recua e as pessoas mostram a cara? Uma TV americana, em parceria com a Universidade do Texas, fez o seguinte estudo: por 70 dias, ela lidou com 2,5 mil comentários postados em sua página no Facebook de diversas maneiras. Algumas vezes, um repórter famoso do canal interagia com as pessoas. Em outras, o perfil oficial da emissora respondia. Quando o repórter comentava, houve 15% menos insultos do que nos tópicos sem interação. O estudo concluiu que quando o lado de lá participa, como, por exemplo, ao elogiar comentários que acrescentam algo à discussão, as pessoas veem que atitudes têm consequências e que a internet, no fim das contas, é feita de pessoas. Só que tem um problema: existem pessoas e pessoas. E algumas delas são trolls.

Trollagem

Os trolls apareceram na rede de fóruns Usenet nos anos 80. O termo vem da expressão trolling for suckers. Trolling é uma técnica de pesca em que linhas com iscas são deixadas na água e arrastadas a partir de um barco em movimento, à espera de peixes que as abocanhem. É isso o que o troll faz na internet, provocar e esperar alguém que se irrite. Hoje, o termo abrange diversos tipos de comportamento.

Tom Postmes, professor das universidades de Exeter (Inglaterra) e Groningen (Holanda), pesquisa o comportamento online das pessoas há 20 anos e notou que o estilo troll está cada vez mais bem definido. "Eles querem promover emoções antipáticas de nojo e indignação", diz. Segundo um estudo de 2013 do Centro de Pesquisa em Comunidades Online e Sistemas de E-Learning do Parlamento Europeu, na Bélgica, trolls têm muitas características em comum com pessoas que sofrem de um transtorno de personalidade antissocial. A causa seriam problemas de autoconfiança.

A internet é uma adolescente. Ela existe há 44 anos, mas começou a fazer parte da nossa vida para valer há no máximo 20. Então, estamos todos amadurecendo nosso comportamento. Lembra seus primeiros posts no Orkut, em blogs antigos ou logo que entrou no Facebook? Bateu uma vergonha? É normal. A web cresce assim. Aos poucos, a noção falsa de que há uma fronteira entre comportamento online e offline enfraquece. A internet não é uma terra amoral, onde vale tudo. Ela é uma extensão da sociedade. Para o bem e para o mal.

Relações rápidas, punição lenta

Considerados de pequeno potencial ofensivo, com penas de no máximo dois anos de reclusão e, portanto, passíveis de serem transformadas em multa ou prestação de serviços comunitários, alguns crimes podem causar tragédias sociais e danos pessoais irreversíveis na internet. A diferença está na velocidade e na escala de propagação. Incitar, publicamente, a prática de crime, por exemplo, tem pena prevista de três a seis meses de prisão. Ameaça, difamação, injúria e calúnia, outro exemplo, têm penas que variam de um mês a dois anos de reclusão. Se antes alguém incitava crime ou difamava, a ação era restrita ao boca a boca. Com as redes sociais, no entanto, esses crimes passaram a ter grande alcance e nem mesmo o autor é capaz de prever as consequências.

Ao mesmo tempo em que começa a ter acesso à internet 4G, o brasileiro convive com um Código Penal de 1940 e uma Justiça lenta, que contrasta com a velocidade das relações na rede. Com o novo Marco Civil da Internet, já não basta notificar o provedor para que o conteúdo com agressão pessoal seja retirado do ar. Agora, é preciso recorrer ao Juizado Especial e, só com ordem de um juiz, o provedor é obrigado a agir.

“Na internet, as pessoas confundem liberdade de informação com liberdade de expressão, e a Justiça está cheia de casos deste tipo. O proprietário de um imóvel, por exemplo, postou mensagens contra um engenheiro porque ele não o atendeu na hora marcada. O engenheiro entendeu como ofensa e recorreu à Justiça, numa ação por perdas e danos”, afirma o advogado Vitor Hugo de Freitas, da Comissão de Ciência e Tecnologia da OAB-SP, que defende a revisão de leis e penas ou, pelo menos, a atribuição de agravantes aos crimes cometidos na internet.

O juiz José Zoega Coelho, do Juizado Especial Criminal Central de São Paulo, diz que há inúmeros casos de injúria e difamação em redes sociais e que é comum este tipo de ação entre casais em litígio, vizinhos, condôminos de prédios e colegas de trabalho. O juiz lembra do caso de uma moça que recorreu à Justiça contra alguém que postou uma colagem, com a foto do rosto dela ocupando o lugar da cabeça de uma girafa.

“Para quem olha de fora, é um caso light. Só quando vi a altura da jovem, é que pude perceber o quanto aquilo a ofendeu. Ela era extremamente alta e, para ela, a montagem não era light. Na Justiça, há o trabalho de ouvir as partes. Um pedido de desculpas pode bastar ou não”, explica o juiz.

Segundo ele, as mensagens de agressão pessoal não são nada leves: “As pessoas sabem o que dói mais na possível vítima”.


Voltar


Comente sobre essa publicação...