Semana On

Sábado 21.set.2019

Ano VIII - Nº 364

Especial

As várias faces da classe média

Estudo aponta hábitos de 77 milhões de brasileiros situados na nova classe média brasileira. Mas há quem discorde dos critérios que definem quem pertence a este patamar econômico.

Postado em 20 de Fevereiro de 2014 - Victor Barone com agências

Pesquisas apontam características da nova classe média brasileira. Mas afinal, quem esta nesta fatia econômica? Pesquisas apontam características da nova classe média brasileira. Mas afinal, quem esta nesta fatia econômica?

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O Instituto Data Popular e a Serasa Experian divulgaram nesta semana o estudo "Faces da Classe Média", que divide a nova classe média brasileira em quatro perfis: promissores, batalhadores, experientes e empreendedores.

Estão nessa faixa famílias com renda per capita de R$ 320 a R$ 1.120, segundo critérios estabelecidos pelo Governo Federal no ano passado a partir do estudo “Vozes da Classe Media” (leia aqui), da Secretaria de Assuntos Estratégicos (SAE) da Presidência da República. Considerando quatro pessoas em cada família, a renda média giraria em torno de R$ 3.000 mensais.

Cerca de 108 milhões de brasileiros, ou 54% da população, fazem parte desse grupo atualmente. Se formasse um país, esta nova classe média ocuparia a 12ª posição em número de habitantes, à frente, por exemplo, de Alemanha, Egito e França.

Para dividir esses consumidores em quatro perfis, o Data Popular e a Serasa Experian consideraram apenas aqueles que têm mais de 16 anos: quase 77 milhões de pessoas. A expectativa é que, até 2028, 58% dos brasileiros façam parte dessa camada da população, o que vai significar 125 milhões de pessoas dentro de uma população total estimada de 216 milhões de habitantes.

O estudo apontou que a nova classe média brasileira gastou, no ano passado, R$ 1,17 trilhão, sendo responsável por movimentar 58% do crédito concedido no país em 2013.

De cada R$ 100 gastos pela nova classe média, R$ 46 foram desembolsados na região Sudeste do país, onde estão mais concentrados esses consumidores. Em seguida, aparecem as regiões Nordeste, responsável por 22% do consumo dessa classe, Sul (16%), Centro-Oeste (8%) e Norte (7%).

Jovens, solteiros e empregados

Os que o estudo classifica como "promissores" são, em sua maioria, solteiros, com ensino médio completo, idade média de 22,2 anos e emprego com carteira assinada. Eles totalizam 14,7 milhões de pessoas e gastaram, juntos, R$ 230,8 bilhões em 2013, principalmente com beleza, veículos, educação, entretenimento, itens para casa e tecnologia.

Para eles, a vida é feita de oportunidades e o acesso a crédito ajuda a melhorar a condição financeira. Segundo o estudo, porém, mais da metade, ou 51% das pessoas que se encaixaram nesse perfil, já tiveram algum descontrole financeiro.

Os "batalhadores" são, segundo o Data Popular e a Serasa Experian, 30,3 milhões de pessoas (39%). É o maior grupo e o que mais consumiu no ano passado: suas despesas chegaram a R$ 388,93 bilhões. Eles têm idade média de 40,4 anos.

A expectativa é que, até 2028, 58% dos brasileiros façam parte da nova classe média, o que vai significar 125 milhões de pessoas dentro de uma população total estimada de 216 milhões de habitantes.

São pessoas que veem, no emprego, o caminho para a estabilidade e para a realização de sonhos e desejos. Integrantes desse grupo gastam seu dinheiro, sobretudo, em turismo nacional, veículos, eletroeletrônicos, imóveis, móveis, eletrodomésticos e seguros.

Aposentados e no mercado

Outro perfil detalhado pelo estudo tem 20,5 milhões de pessoas (26%): são os "experientes". O grupo é formado por pessoas com idade média de 65,8 anos, muitas delas aposentadas. Para estes brasileiros, o momento pós-aposentadoria pode ser sinônimo de depressão e preconceito por parte dos mais jovens. Por isso, muitos se mantêm no mercado de trabalho.

O seu consumo anual é de R$ 274 bilhões e está relacionado a turismo nacional, eletroeletrônicos, serviços de saúde, móveis e eletrodomésticos.

Já os "empreendedores" são 11,6 milhões de pessoas (16%) com idade média de 43 anos e maior escolaridade do que os demais. Elas valorizam a liberdade e consideram que o trabalho deve ser responsável pelo sustento, mas é importante fazerem uma atividade de que gostam.

É o grupo com maior renda per capita e seu consumo total chegou a R$ 276 bilhões no ano passado. Os principais gastos foram com educação, eletroeletrônicos, turismo internacional, tecnologia, veículos e entretenimento.

Gastando em 2014

O levantamento fez também uma projeção dos gastos desta “nação” de consumidores em 2014. Segundo a pesquisa, nos próximos 12 meses, a classe média pretende consumir 8,5 milhões de viagens nacionais, 6,7 milhões de aparelhos de TV, 4,8 milhões de geladeiras, 4,5 milhões de tabletes, 3,9 milhões de smartphones, 3,2 milhões de viagens internacionais, 3 milhões de carros e 2,5 milhões de casas ou apartamentos.

Os gastos com alimentação lideram o consumo, tendo movimentado R$ 223,3 bilhões no ano passado. Em seguida, segundo o estudo, vêm os gastos com saúde (R$ 71,8 bilhões) e vestuário (R$ 61,6 bilhões).

“Observamos uma tendência de crescimento dos gastos com serviços de educação, de beleza e produtos e serviços relacionados com tecnologia”, afirmou Renato Meirelles, presidente do Data Popular.

Que classe media?

A pesquisa “Vozes da Classe Media” usou apenas o critério de renda para definir a classe média brasileira, situando-a em famílias com renda per capita de R$ 320 a R$ 1.120. Nos Estados Unidos (onde não há consenso para definir classe média) a renda da classe média vai de 39 a 118 mil dólares anuais por família, o que seria equivalente a R$ 6.580 a R$ 19.908 mensais - segundo o instituto de pesquisa Pew Research Center.

No Brasil também não há consenso sobre o conceito. Um levantamento informal feito pela Semana On entre seus leitores no Facebook, por exemplo, mostrou a disparidade de percepção entre o que pensa a população e o Governo Federal na definição de classe média.

Foi perguntado aos leitores qual deveria ser a renda mensal de um brasileiro para ser considerado integrante da classe média. Participaram 738 leitores dos quais 36 (4.88%) disseram que, com uma renda a partir de 1/2 salário mínimo por mês (R$ 339) um brasileiro poderia ser considerado de classe média. Dez leitores (1.35%) optaram por uma renda per capita de um salário mínimo e 399 participantes (54.06%) cravaram a opção de 2 a 3 salários mínimos mensais. Outros 118 internautas (16%) escolheram a opção de 4 a 5 salários por mês e, finalmente, 175 pessoas (23.71%) disseram que a renda mínima para que um trabalhador fosse inserido na classe média deveria ser de 6 salários mínimos por mês.

Disparidades

Para o Governo Federal, esta disparidade de opiniões ocorre com base em valores, preconceitos e autopercepção: “No Brasil, fazem parte dos 5% mais ricos todos aqueles cidadãos em famílias com renda per capita acima de R$ 2.400 ao mês e muitos membros desse grupo se consideram parte da classe média”, diz a pesquisa da SAE.

O governo usa a estatística para rebater os críticos e defender que não se pode subir o limite atual do que é considerado classe média. “Seria impossível conceber qualquer divisão da população em três classes de renda (baixa, média e alta) em que os 5% mais ricos estivessem fora da classe alta”.

No Brasil, fazem parte dos 5% mais ricos todos aqueles cidadãos em famílias com renda per capita acima de R$ 2.400 ao mês e muitos membros desse grupo se consideram parte da classe média, diz o Governo Federal.

Outra razão para a disparidade, segundo a SAE, é que o uso dos dados do IBGE, através da Pesquisa Nacional por Amosta de Domicílios (Pnad), são autodeclarados. Assim, eles “não retratam a verdadeira renda de cada um”. Ou seja, uma família de classe média formada por três pessoas ganharia, na verdade, mais que os valores entre R$ 873 e R$ 3.057 considerados hoje. Nestes casos, rendimentos vindos de diversas fontes, como ativos financeiros e transferências entre famílias, acabam subdeclarados.

Para provar isso, o relatório apresenta um novo cálculo usando dados tidos como mais confiáveis quando se trata de renda, da Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF), do próprio IBGE. Com isso, a mesma família de três pessoas de classe média estaria ganhando de fato algo entre R$ 1.300 e R$ 3.700. O governo usa o Pnad e não o POF, porém, porque ele é calculado apenas a cada cinco anos.

A terceira razão para a percepção geral equivocada, segundo a SAE, é que se tende a pensar na renda do indivíduo isolado da família. “A família brasileira tem, em média, cerca de três membros, o que faz com que a renda per capita tenda a ser 1/3 da renda familiar total. Aqueles que inadvertidamente acham que os pontos de corte propostos são valores para a renda familiar total terão a sensação que eles estão muito abaixo do que deveriam”, justifica o governo.

Outras Leituras

As pesquisas do professor José Afonso Mazzon, da Faculdade de Economia e Administração da Universidade de São Paulo (USP) apontam 40 milhões de domicílios de classe média no Brasil. Embora não seja possível comparar com os dados do governo, os parâmetros utilizados são bem mais abrangentes.

“Nossa pesquisa se baseia em 38 critérios diferentes, que vão desde o tipo de residência da pessoa, acesso à água, esgoto, grau de instrução, tipo de trabalho a quantos contribuem para a renda da casa. Nosso critério de renda também é diferente. O governo usa renda corrente (salário) declarada e as pessoas mentem. Nós usamos renda permanente, que envolve bens, patrimônio e investimentos”, explica.

Mazzon critica o conceito oficial, que considera vantajoso para os governantes. “Esse critério é baseado só em renda e corrigido apenas pelo INPC, enquanto que o salário é corrigido pelo INPC e um índice de produtividade que cada sindicato negocia. Isso significa que é uma questão puramente matemática: a renda vai subir e superar esse corte arbitrário que fizeram. Em poucos anos, não vai mais ter pobres no Brasil, segundo esse critério”, argumenta.

As pesquisas do professor José Afonso Mazzon, da Faculdade de Economia e Administração da Universidade de São Paulo (USP) apontam 40 milhões de domicílios de classe média no Brasil.

Para o professor Rogério Sobreira, economista da Escola Brasileira de Administração Pública e Economia (EBAPE) da FGV-Rio, qualquer definição de classe média vai ser sempre passível de ser criticada. “Definir o que é uma classe média é complicado, tem um grande impacto ideológico”, afirma.

Sobreira defende que um modo mais justo de se definir quem é a classe média no país é avaliando um padrão de consumo: “Algo do tipo ‘ser classe média significa você consumir essa cesta de bens aqui’”, explica.

“O critério do governo é mais fácil porque sugere que a partir da faixa de renda (que é bem abrangente) a pessoa teria acesso a um padrão de consumo típico. Mas falta explicitar de maneira mais transparente o que é esse padrão e aí você tem diferentes dimensões: acesso à educação, à saúde, à cultura, viagens. O ideal seria criar uma espécie de IDH da classe média”, diz Sobreira.

A economista Célia Lessa Kerstenetzky, diretora do Centro de Estudos sobre Desigualdade e Desenvolvimento da Universidade Federal Fluminense (UFF) constata: “O que se observa com clareza é uma evolução dos rendimentos. Mas em muitos casos o mercado de trabalho é precário, a proteção social é incipiente e o acesso aos serviços sociais essenciais é muito limitado. Acho equivocado falarmos em classe média no sentido sociológico do termo. Pesquisa que fiz revela padrões de consumo muito deficientes entre as famílias da classe média brasileira: moradias inadequadas, baixa escolari- dade dos chefes de família, perspectivas desalentadoras para as crianças e jovens. Mobilidade social e redução das desigualdades não se fazem apenas com ganhos de renda.”

Estudando as classes sociais no Brasil nos últimos vinte anos, o professor Jessé José Freire de Souza, do Centro de Pesquisa sobre Desigualdade da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), também contesta a valoração da renda como único componente da chamada nova classe média do governo federal: “Além do capital econômico, é necessário uma formação de capital cultural e social. É uma mentira dizer que essas pessoas (beneficiadas por programas sociais ou incluídas pelo consumo) são de classe média no Brasil. É irresponsável chamar de classe média esses novos consumidores. O que tem surgido é uma nova classe trabalhadora precarizada, que vai ser utilizada nas áreas de serviço, comércio e pequenas indústrias”.


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