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Domingo 25.ago.2019

Ano VII - Nº 360

Comportamento

Traição no celular

Homens e mulheres vasculham aparelhos do parceiro sempre que podem.

Postado em 03 de Junho de 2015 - Marcella Franco

O homem ainda carregar os maiores índices de infidelidade, segundo a pesquisa. O homem ainda carregar os maiores índices de infidelidade, segundo a pesquisa.

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Se você só mantém à mão o sabonete, o xampu e o condicionador na hora do banho, saiba que está correndo riscos. Nada a ver com sua higiene, que está garantida com estes itens básicos, mas, sim, com seu relacionamento. Isto porque, garantem os especialistas, é exatamente neste momento que os parceiros mais aproveitam para xeretar as mensagens privadas uns dos outros. 

A recomendação, para evitar sair do chuveiro solteiro, é da psiquiatra e sexóloga Carmita Abdo, do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP, que sugere que confiar na privacidade teoricamente garantida pelas senhas é arriscado — até porque, assegura ela, sua namorada já conhece exatamente a combinação que destrava seu celular.

“Não é que exista uma permissão para se violar a intimidade do outro, a realidade é que ela será violada, sendo isso errado ou não”, afirma.

A psiquiatra, no entanto, diz que o ideal é manter o autocontrole para não cair em tentação, evitando mexer nas coisas do ser amado. Justamente porque, como diz o ditado, quem procura acha.

“Se mexer, vai acabar encontrando algo de que não vai gostar. Ainda que não haja qualquer comprovação de infidelidade, como uma mensagem explícita, uma foto de um ato sexual ou uma situação íntima, mesmo uma conversa mantida com alguém diferente pode ser mal interpretada e já considerada uma traição. Quando isso acontece, a dor é por ter sido excluído de um segredo, você não faz parte daquela história.”

Carmita explica que, diante de uma situação como esta, é preciso sempre tomar uma providência — e isto vai um pouco mais além de decidir se a explicação do parceiro é suficiente e dá para seguir em frente, confiando.

Segundo ela, a grande dúvida gira em torno da possibilidade de se abrir ou não um precedente e determinar, com isso, quais os limites da relação dali em diante.

“Se eu digo que tudo bem uma foto como essa, ou mesmo se digo que tudo bem meu parceiro conversar e se envolver secretamente com outras pessoas, é como se eu não me importasse com isso, e desse o aval para que o comportamento se repita.”

A psiquiatra foi uma das palestrantes do World Congress on Brain, Behavior and Emotions, que aconteceu em Porto Alegre, entre 29 de abril e 2 de maio. Carmita participou, entre outros momentos, de uma mesa-redonda sobre amor, ódio e paixão ao lado de Antoine Bechara, professor de psicologia e neurociência da Universidade da Califórnia, e da doutora em genética e biologia molecular Ivana da Cruz.

De acordo com a bióloga, é um “paradoxo” o homem ainda carregar os maiores índices de infidelidade (ver gráfico abaixo) e ser, de acordo com estudos, o parceiro que se importa mais com a traição do outro.

“A mulher trai, no geral, porque vai buscar afeto, enquanto que o homem trai em busca de novos estímulos sexuais. A infidelidade masculina é baseada em sua grande maioria no interesse por sexo. É um resquício da necessidade masculina de espalhar seus genes.”

Tanto para Ivana quanto para Carmita, a traição seria definida pela “quebra de contrato entre os parceiros”. Ou seja, quando um mantém um “segredo” fora do namoro ou casamento — seja ele um relacionamento extraconjugal de fato, ou só mesmo uma amizade com alguém alheio à vida do casal.

Mas e quando a relação com outro é com uma mulher ou um homem, digamos, virtual? Tanto quando o parceiro utiliza imagens pornográficas para se excitar e se masturbar, quanto quando ele imagina estar transando com alguém que não seja aquela pessoa que está fisicamente ali com ele naquele momento, será que isso pode ser considerado traição também?

Para Carmita Abdo e Ivana da Cruz, não. A psiquiatra explica o por quê.

“As mulheres costumam ficar ofendidas com este tipo de comportamento dos parceiros. No entanto, é importante lembrar que ele é inevitável, e que, por mais que possa ser visto como uma traição mental, não conseguiremos passar pela vida sem que isso ocorra.”

Há também um motivo biológico para isso. De acordo com Ivana, a mentalização na hora do sexo estimula o córtex cerebral de formas diversas nos homens e nas mulheres. Enquanto elas são mais ativadas pelo lado verbal do cérebro, eles recebem mais estímulos visuais, o que significa que, provavelmente, eles pensem mais em outras mulheres na cama.

“Isto pode servir como um mecanismo de representação daquele momento do passado que não há como perpetuar, o da excitação, e que você não tem mais com seu parceiro. Aquilo vira uma representação momentânea do que se perdeu e não há como reaver. Só começa a virar um problema quando a fantasia é persistentemente com a mesma pessoa, um personagem recorrente. Daí vira patológico.”


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