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Sábado 27.fev.2021

Ano IX - Nº 432

Coluna

É sempre bom relembrar

A princípio, lidar com a homossexualidade dos filhos pode não ser fácil para muitas mães. Mas a superação desta etapa requer trabalho em equipe: mães e filhos reunidos pela diversidade.

Postado em 08 de Maio de 2015 - Guilherme Cavalcante

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Tem muito tempo que escrevi uma nota sobre o curta/documentário “O Segredo dos Lírios” aqui na coluna. Lembro que na época ele já tinha chegado atrasado, mas é uma produção tão sensível e apropriada que considero-a atemporal (tal qual escrever sobre Stonewall no 28 de junho). Acho que para este dia das mães, seria oportuno relembrá-lo, ainda mais porque muita gente ainda não o assistiu e porque há algumas semanas recomendei aqui o documentário como forma de compreender uma outra perspectiva da vida fora do armário.

Dirigido por Brunna Kirsch e Cris Aldreyn, “O Segredo dos Lírios” foi lançado há três anos e celebra o dia das mães com o depoimento de três mulheres (Estela, Christiane e Vera), que nos 16 minutos da peça compartilham com o espectador as histórias do processo de aceitação de suas filhas lésbicas. No documentário, podemos perceber que a “descoberta” da homossexualidade das filhas transforma o relacionamento familiar e que em certo momento, a três histórias se confundem, principalmente quando as reações das mães parecem convergir num eixo de perda e impotência.

O documentário alcança um patamar bastante superior no empoderamento LGBT quando as mães relatam que o amor pelas filhas é incondicional. Afinal, até mesmo quando falamos de emoção, às vezes é preciso dar tempo ao tempo, para que os sentimentos sejam assimilados e para que as coisas fiquem claras.

Confira o documentário logo abaixo:

 

A inviabilização existe e está até na melhor das intenções

E isto está muito claro na campanha de Dia das Mães da empresa de transporte aéreo Gol.



Eu não quero entrar numa polêmica que mais parece um saco sem fundo que é esse lance de “Dia das Mães” e “Dia dos Pais”. Para que servem? Quando devem ser comemorados? Devemos dar presentes? Melhor não tê-los? Não, não vou entrar. Até onde eu vi estamos num país livre e cada um faz da vida o que quer, comemora como quer.

Só que tem uma coisa. Dia das Mães é para pessoas do gênero feminino. Seja cis ou trans. Se a pessoa se identifica como mulher e teve possibilidade de ter/adotar filhos, então é mãe, independente de ter nascido com pênis. Da mesmo forma, se é um homem cis ou trans, não será mãe, será pai. Porque o que importa aqui não é ter pênis ou útero, mas a identidade de gênero.

Aí vem a GOL, a companhia aérea, com uma campanha super fofa, querendo falar de adoção, de amor incondicional, de doação e dedicação à família, e nos traz um casal gay numa peça publicitária voltada ao dia das mães.

(Pausa dramática)

Vamos lembrar mais uma vez da historinha que todo mundo já sabe: o movimento social pela diversidade sexual se chamava GLBT. Daí entenderam que para promover a visibilidade das mulheres dentro da comunidade, trouxeram o “L” pra frente e daí o bagulho se torna LGBT, o que é cansativamente utilizado até hoje. E te também a comunidade T, que briga pelo respeito e reconhecimento da identidade de gênero.

Mas mesmo com toda essa informação à disposição da wikipedia, dali a uns anos, vem a GOL e traz dois pais num vídeo de “Dia das Mães”. Uma história linda e emocionante, mas como achar ao menos coerente com a data?

Quer dizer, se você tem uma empresa, uma puta empresa, e aciona e paga caro uma agência de publicidade para fazer uma campanha comemorativa ao Dia das Mães, o mínimo que poderia se esperar era uma publicidade que, de fato, homenageasse as mães. Mas sai justamente o contrário. E a triste constatação de que até nesta data tão simbólica no Brasil, os homens saem na frente.

E é aí que eu me pergunto onde e como estão pensando os LGBT que trabalham na GOL, nas agências de publicidade - que aparentemente não falaram nada sobre algo que OBVIAMENTE a gente ia identificar como inoportuno, insensível e errado. Essas pessoas estão fazendo a tarefa de casa direitinho? Estão minimamente preocupados em conhecer o público para o qual estão direcionando seus produtos? Ou o objetivo é apenas conseguir um pouco do pink money?

E os publicitários que estão na academia, em seus mestrados e doutorados, abordando em suas pesquisas a superficialidade das campanhas, que estudam a representação social, a reprodução da realidade por meio das peças? Como esse pessoal está dialogando com o mercado de trabalho? Como a pesquisa brasileira está conseguindo alcançar e transformar a nossa realidade?

É triste o rumo que as coisas tomam, meio que sem o compromisso de acertar, meio que sem direcionamento. Para o público geral, o resultado da campanha pode ter sido sensacional, mas para as mulheres e LGBTs que problematizam o dia a dia, esse vídeo é um tiro que saiu pela culatra, que pareceu muito mais insensível e indiferente com a nossa realidade que heróico por empunhar, de forma errada, a bandeira da diversidade.

Não custa repetir

Acertar na utilização de termos como “A travesti”, “homossexualidade”, “identidade de gênero”, “orientação sexual” parecem os doze trabalhos de Hércules para jornalistas. É com frequência que não vemos respeito à identidade de gênero de pessoas trans por meio da utilização dos artigos ou que vemos jornalista chamando “orientação sexual” de “opção”.

Eu acredito que a esta altura do campeonato era pra todo mundo ter isso na ponta da língua. Referenciar corretamente os termos que designam a comunidade LGBT não é nenhum favor ou gentileza, é obrigação se você se considera um profissional minimamente sério.

Porém, sempre é tempo de mudar. Neste link tem mais um guia que ensina a utilizar a maioria dos termos de forma correta, para você sair arrasando nas suas matérias, seja na rua, na chuva ou na fazenda. Dicona: salva o link nos favoritos do seu navegador e dê sempre uma olhada quando tiver uns 5 minutos de descanso. E se você não for jornalista, leia também.


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