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Ano IX - Nº 421

Mundo

Genocídio armênio completa cem anos

Cerca de 1,5 milhão de pessoas foram assassinadas.

Postado em 24 de Abril de 2015 - Redação Semana On

 Para as autoridades armênias - e muitos países - o massacre foi resultado da intenção turca de exterminar seu povo. Para as autoridades armênias - e muitos países - o massacre foi resultado da intenção turca de exterminar seu povo.

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Armênios recordam nesta sexta-feira (24) o genocídio que há cem anos dizimou grande parte de sua população, por obra do antigo Império Turco Otomano. Para as autoridades armênias - e muitos países - o massacre foi resultado da intenção turca de exterminar seu povo, o que se encaixa na definição da ONU em convenção sobre o tema, de 1948. Cerca de 1,5 milhão de pessoas morreram.

Com a firme negação da Turquia de que as mortes tenham sido causadas por uma política deliberada de extermínio – não sendo, portanto, um genocídio–, essa questão tem se mantido como um acalorado debate. Os turcos aceitam que houve massacres, mas no contexto da Primeira Guerra, quando os armênios apoiavam os inimigos russos. Teriam morrido de 300 a 400 mil pessoas.

A maioria dos historiadores reconhece que houve uma política de Estado nas mortes, opinião reforçada pela Associação Internacional de Acadêmicos do Genocídio. Há especialistas turcos que concordam com a posição.

Debate

Diversos países, entre eles Brasil e EUA, não reconhecem o genocídio. Detratores atribuem a posição à pressão turca e a interesses econômicos, em linha com os historiadores que negam ter havido projeto oficial otomano de exterminar os armênios.

É a opinião, por exemplo, do britânico Norman Stone, professor na Universidade Bilkent, em Ancara (capital turca). "Não há documentos que mostrem que houve uma intenção genocida", afirma.

O britânico diz que as fontes apresentadas por historiadores para provar o projeto otomano de exterminar armênios, como telegramas e relatos de diplomatas, foram em vários casos forjadas. "São documentos que servem para jogar areia nos olhos."

Stone reconhece a morte de armênios no início do século 20 e insiste em que os acontecimentos foram "horríveis". "Mas não concordo com a ideia de que os armênios são um caso único. Eles deveriam reconhecer o sofrimento dos outros. As condições eram horríveis, naquela época, com doenças e pragas. Morreram turcos e curdos também", diz.

Para especialistas como o americano de origem armênia Peter Balakian, argumentos como o de Stone e outros que chama de "negacionistas" não deveriam encontrar espaço no debate público. "Você apresenta fatos, e eles falsificam a realidade para defender o Estado turco."

Balakian diz que "centenas de milhares de documentos", vários deles citados em seu livro "The Burning Tigris" e em obras de acadêmicos, registram a intenção otomana.

Essa intenção era motivada, segundo o autor, por fatores que incluíam as reivindicações dos armênios por reformas constitucionais. "Pediam direitos iguais para cristãos –impensável na época."

Além disso, "armênios eram vistos como aliados dos países cristãos europeus, o que irritava o Império Otomano", afirma. O massacre, afinal, ocorre num contexto de grave crise regional, com o fim do domínio otomano na região dos Bálcãs.

Intenção

Para o americano Justin McCarthy, da Universidade de Louisville (EUA), o problema no reconhecimento do genocídio está justamente no contexto. "Se você analisar o período, verá que não foi um extermínio de armênios. Foram tempos terríveis. Há massacres dos dois lados", diz.

McCarthy - que tem doutorado honorário pela universidade turca de Bogaziçi - aponta inúmeras revoltas de armênios e alianças com russos para desestabilizar o Império Otomano e diz que, "pelos critérios desses historiadores, houve genocídio também contra curdos e turcos".

Para o historiador brasileiro Heitor Loureiro, doutorando na Unesp, dizer que não houve genocídio "é como se ele ainda acontecesse, há cem anos. A Turquia de certo modo continua a cometê-lo."

Segundo Loureiro, o fator "intenção" não pode ser o único elemento na discussão.

"'Intenção' é peça jurídica. É importante para a lei, na hora de determinar se houve ou não genocídio", diz.


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