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Domingo 29.nov.2020

Ano IX - Nº 421

Coluna

Tiro na Cara

Um conto sobre intolerâncias e congestionamentos.

Postado em 24 de Abril de 2015 - Rodrigo Amém

Um passeio pela intolerância nossa de cada dia. Um passeio pela intolerância nossa de cada dia.

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Eu estava com paciência zero e pressa mil. Precisei pegar um táxi. Túnel engarrafado, fiquei à mercê do piloto. E ele parecia saído de um filme do Leandro Hassum. Rayban, bigodão e palito no canto da boca.

- Tá complicado hoje, doutor – falou o motorista, me encarando pelo retrovisor.

Eu fiz um muxoxo positivo. Não vejo muito sentido em falar sobre o trânsito, sobre o tempo, sobre o vento. Mas o taxista estava disposto.

- Isso é uma pouca vergonha, né não?

Levei alguns segundos para entender que o assunto já era outro.

- Essa coisa desse traveco que arrancou a orelha do guarda. Pouca vergonha. Viu a foto?

- Não... – tentei desconversar.

- Rapá, escracharam o viadinho. Rasparam a cabeça, quebraram a cara todinha dela. Deixaram ela jogada, com as teta de fora. Foi pouco.

Não consegui responder.

- Ah, bichinha sem noção. O cara tá lá trabalhando e ele arranca a orelha do cara. Pô! E tu sabe por que ela tava presa? Por que bateu numa velhinha. Encheu a velhinha de porrada. Mandou pro hospital!

Não sei se é influência das crendices e superstições que fazem parte da identidade cultural do brasileiro. Mas sempre que um caso de violência é justificado pelo “merecimento” da vítima, o cheiro de farinha frita, catupiry e frango desfiado preenche minhas narinas. Mas eu já aprendi que argumentos não interessam a quem só tem certezas. Peguei um desvio.

- Rapaz, nem me fala – me joguei – só matando um elemento desses.

- Não é? Eu não sei como essa praga tá viva! – meu piloto mordia a isca lindamente.

- Esse é o problema desse país. Por isso que tá tudo assim. Ninguém se dá ao respeito. Se eu fosse presidente, não essa “presidanta”, não seria assim.

- Com certeza! Esse PT só quer saber de roubar! Ninguém tá nem aí pro povo.

- Ah, eu resolvia fácil. Pelotão de fuzilamento.

- Claro! – vibrou o motorista.

- Matou policial? Tiro na cara!

- Tá certo!

- Abusou de criança? Tiro na cara! Ficou de viadagem em lugar de família? Tiro na cara!

- Tenho nojo dessas bicha, dotor!

- Isso é falta de pai nessas famílias, meu amigo. Filho meu não vira veado: vira defunto.

- Eu, graças a Deus, nunca vou passar por isso! – o motorista levou às mãos pro céu.

- Filho meu é comedor, não é boiola!

- Ah, com certeza! Filho tem que ser macho!

- É o que eu falo pro meu filho. “Muleque, menininha de vestido curto na rua tá querendo. Não perdoa. Chega chegando.”

O motorista só balançou a cabeça, menos enfático.

- Aí agora tem essa frescura de assédio sexual, de estupro. Se não quisesse tomar rola, não tava quase pelada na rua, não é? É que nem o traveco. Tomou porrada porque mereceu. Não é?

- Pô, mas aí...

- É claro, parceiro! Se apanhou é porque mereceu. Se foi currada é porque fez por onde. Direitos humanos pros humanos direitos. Boiola e biscate não é gente de bem. Não tem que ter direito, não. Tem mais é que apanhar, mesmo. Tamo junto!

O motorista não respondeu. Esticou o braço para aumentar o som do rádio. A tatuagem de nome de menina em letra cursiva apareceu debaixo da manga da camisa. Eu, mau caráter caviar, desviei meus olhos e meu discreto sorriso para a Lagoa, ao som de Paulinho da Viola.


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