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Quarta-Feira 02.dez.2020

Ano IX - Nº 421

Coluna

A dor e a delícia do outing

Sair do armário é libertador, mas quase sempre implica um processo de luto para a família

Postado em 24 de Abril de 2015 - Guilherme Cavalcante

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Assumi-me para minha família aos 18 anos. Já estava no primeiro ano de faculdade e tinha passado por uma situação em que, na minha cabeça, ou eu abria o jogo geral ou continuaria passível daquela angústia inexplicável de mentir compulsivamente até morrer. Um dia finalmente vomitei a “grande verdade” em cima daqueles que amo. A partir de então, passei por um longo processo de maturação da minha identidade, já que uma vez fora do armário, não tinha mais que fingir ser algo que não sou, e isso afetou sobremaneira a minha performance identitária. Ser gay não é ser um homossexual com postura de éter. Levei seis anos para compreender isso adequadamente.

De forma geral, posso afirmar que pressa e ansiedade não ajudam, pois as coisas foram acontecendo lentamente. Hoje posso dizer que sou um privilegiado por ter uma família que não apenas me aceita, mas que me apoia nesta luta pela diversidade. E escrever esta coluna fez parte deste processo. Aqui ocorreu a maior parte da maturação e do aperfeiçoamento da minha consciência enquanto homossexual, enquanto um militante dos direitos humanos. Foi como pesquisador deste campo, que é a sexualidade e o gênero do ser humano, que pela primeira vez me senti apto a usar a frase “desde que me conheço como gente”.

Sair do armário, portanto, foi maravilhoso no final. Mas isso não significa que não tenha trazido sofrimento para mim e para a minha família, sobretudo a minha mãe. Aos 18 anos, eu já tinha um namorado e mesmo assim, numa viagem com meu irmão, me senti pressionado a ficar com uma menina. Foi o fim. Eu quis morrer, figurativamente, por não ter tido coragem e postura para me posicionar diante da minha vontade, que certamente era de não ficar com ninguém, muito menos com uma mulher. E por conta da culpa que alimentei, abri o jogo com meu namorado.

Naturalmente, nós terminamos. E por conta do sofrimento que vivi, resolvi dar um basta. Estava na cama com minha mãe conversando amenidades quando senti que aquele era o momento. E quando afirmei que era gay, ela não chorou. Só me abraçou, embora sem voz por alguns minutos, que foram de uma eternidade angustiante. E tentou me convencer do contrário, me ofereceu ajuda psicológica para desfazer a “confusão”. Eu fiquei firme, daquele dia até duas semanas, quando ela tocou no assunto de novo sugerindo que eu me abstivesse de sexo. Naquele dia, pela primeira vez, eu chorei, porque pela primeira vez, enquanto homossexual assumido, senti que haveria dois pesos e duas medidas aonde quer que eu fosse.

Preciso dizer aqui que atualmente minha mãe é minha maior defensora. Mas levamos alguns anos até que ela também saísse do armário e comentasse em seu ambiente de trabalho que tem um filho gay, com a mesma naturalidade de quem comenta o capítulo da novela de ontem. E para chegar a este ponto, precisei me manter irredutível na minha postura e promover uma grande revolução em relação ao entendimento da minha família sobre as sexualidades. E para isso, claro, precisei estudar.

Não bastava dizer que a OMS retirou a homossexualidade do Cadastro Internacional de Doenças (CID) em 1990. Não bastava dizer que éramos todos iguais. Foi preciso fundamentar cada argumento. Nesse ponto sou mais que um privilegiado, pois tive acesso à educação de qualidade e soube abrir um fórum da Internet na época e pesquisar a história do movimento LGBT. Mas também foi preciso sensibilidade para saber tratar o assunto sem ofender ninguém. É sobre isso que escrevo hoje.

Essa semana um querido amigo me procurou. Com cerca de 28 anos, ele finalmente abriu o jogo com os pais. A irmã, parceira e amiga, já sabia e o incentivou o outing, com a expectativa de que seria bem-acolhido. Mas infelizmente a recepção da notícia não foi tão boa quanto ele previu. Os pais estão reticentes: a mãe o abraçou, reafirmou seu amor incondicional, mas jogou para Deus a responsabilidade de julgá-lo. O pai está reservado, evitando contato. E aparentemente isso é o que mais causa tristeza a meu amigo.

Querido amigo, que pena que você evitou me procurar depois de confidenciar isso. Primeiro, queria te abraçar e te dizer que você tem em mim um suporte para os momentos difíceis (e não só para ensinar a não descer o carro quando parar numa ladeira). E sobre este momento especial, tenho tanto a te dizer!

Primeiramente, entenda que você está na vantagem. Ninguém te expulsou de casa, te trancou num hospício ou jogou uma bíblia sagrada na sua cara. Isso significa que você tem mil possibilidades de reverter a tristeza que eles podem estar sentindo. Fique esperto às oportunidades (mais à frente comento sobre elas).

E a segunda coisa a dizer é que o sofrimento infelizmente faz parte, na maioria dos casos.

É bem provável que seus pais estejam vivendo uma espécie de luto. Por mais que ao longo da vida a gente dê pistas, nossos pais vivem em negação até que não se tenha mais jeito. O mais importante você já fez, que foi se posicionar. Mas agora tem que ir até o final e entender que neste momento são seus pais que precisam mais de você que você deles.

Hoje eu tenho a mais nítida certeza de que minha mãe sempre soube da minha orientação sexual, desde muito cedo, inclusive. Desde que eu armei aquele escândalo numa loja de departamentos do interior do Ceará querendo a Maletuxa (a maleta de maquiagens da Xuxa), desde que, aos cinco anos, quebrei um colar caríssimo dela que tentei usar enquanto dublava em casa a… Xuxa. Desde que precisei mudar de escola aos oito anos porque meus colegas me chamavam de veado e eu não segurei a barra. Desde que chegou a ela a informação de que algumas falsas amigas conversavam entre sim sobre a minha “delicadeza”. Querido, é indubitável que minha mãe sabia. Só não esperava ter que lidar com a minha franqueza. Não seria isso com você?

Tente entender o que se passa na cabeça deles. Entendam que são pessoas que nasceram há pelo menos 50 anos atrás e que sabem de alguma forma que um filho que se assume para os pais liga o “foda-se” para o mundo, uma vez que as pessoas que mais importam já sabem da verdade. E o “resto” é nada mais que o resto. Com isso, o medo da minha mãe era da violência e da discriminação. Hoje isso está claro. Aos 18, já tinha autonomia para muitas coisas, inclusive para onde ir e a que horas voltar. E nem sempre ela poderia me defender como fez na escola. Não dá para mudar de rua, de bairro, de cidade como mudei de colégio em 1992. E isso foi uma grande frustração para ela.

E é natural que eles se perguntem onde erraram. É aí que você entra. Aos poucos, fui introduzindo o conhecimento que eu conquistei. Falei sobre biologia, possibilidades genéticas, DNA. Sobre hormônios, sobre comportamento e, principalmente, sobre a não-escolha. Muita gente acha que gays, especificamente, são masoquistas que se relacionam com pessoas do mesmo gênero para sofrer violência. E fazer minha mãe entender que não houve escolha foi o primeiro desafio a vencer.

A partir daí, tive coragem de apresentá-la a meu namorado. Na verdade, foi mais como um “amigo”. Mas um amigo que dorme na sua casa, com quem não se dá um passo sem. Ninguém é bobo. As coisas só se escancararam quando, quase três anos depois, terminamos definitivamente, de forma muito agressiva, um com o outro. E quando eu desabei, adivinha quem veio juntar os cacos? Eu te pergunto se isso teria acontecido se em vez de chorar no escuro do quarto no pós-outing, eu não tivesse me aproximado mais ainda da minha família. Certamente não.

Eu não vou mentir que, na minha opinião, minha mãe se tranquilizava de eu ter um namorado por isso me afastar da “promiscuidade” que o “mundo gay” tem. Mas daí foi explicar que promiscuidade não é coisa de gay (mas do homem criado de forma machista, que objetifica pessoas) e que também ninguém tem nada a ver com isso quando ter liberdade sexual e fazer o que quiser com ela for uma opção. O que interessa, obviamente, é caráter e responsabilidade. E talvez ter todas as contas pagas no dia 10.

Ao longo dos anos, você vai saber como educar seus pais sobre as outras coisas que vêm no pacote, como os elementos identitários que costumamos utilizar ao nos assumirmos gays (sim, esta é uma forma leve de me referir à pinta e efeminação que de vez em quando ou de vez em sempre deixamos escapar). Mas tudo tem seu tempo e isso talvez seja assunto para uma conversa tête-à-tête.

Talvez até este momento eu não esteja te contando nenhuma novidade. Mas se você quer realmente ser aceito e amado do jeito que é, precisa interferir na sucessão dos fatos desde que se assumiu. Recolher-se é o maior erro que se comete, pois sair do armário é mais que escancarar o que, no fundo, eles já sabem. Assumir-se é ter postura para intervir e segurar a barra das pessoas que mais se importam com você. Fique bem, seja forte, seja ativo, mantenha a sua postura. Respeite os momentos, mas não deixe de intervir.

E principalmente: tenha consciência do que você é e de que iguais a você tem tantos outros, que podem, futuramente, precisar da sua ajuda. Assumir-se gay é mais que uma questão familiar, é o despertar de uma consciência de coletividade onde só podemos seguir em frente se ajudarmos uns aos outros.

OBS: Nós nascemos numa época em que o movimento LGBT já estava fortalecido, graças a Cher. Por conta disso, temos coisas muito bacanas para assistir que ajudam a iluminar a nossa mente, desde as mais antigas às atualíssimas. Vou te indicar alguns filmes, mas não são para você assistir sozinho, se possível. Ok?

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