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Sábado 31.out.2020

Ano IX - Nº 417

Coluna

Tem Gente

A abissal distância entre as pessoas e os fatos

Postado em 03 de Abril de 2015 - Rodrigo Amém

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A chance de morrer em um acidente de avião é de 1 em 2.067.000.

Para se ter uma ideia, a chance de morrer caindo da cama é de uma e 423.548 mil. Mas tem gente exigindo que as companhias aéreas revejam suas políticas de segurança para evitar a presença de copilotos deprimidos na cabine.

Mais de 25 milhões de pessoas no mundo estão vivendo em condições de escravidão. Isso é mais que as populações de São Paulo, Flórida e Austrália. Também é mais do que toda a quantidade de escravos africanos enviados às Américas em toda a história do comércio escravagista transatlântico. Mas tem gente que acha que a queda de preços nos bens de consumo é uma conquista do livre mercado.

As drogas que mais causam overdose nos EUA são analgésicos vendidos com prescrição médica, que matam mais do que cocaína e heroína juntas. Mas tem gente que acha que maconha é uma ameaça à sociedade.

Quem quer a redução da maioridade não quer discutir eficácia. Não quer falar em porcentagens de crimes violentos praticados por menores. Querem é o conforto de sentir que algo mudou. Mesmo que nada mude.

Uma em cada quatro crianças americanas vai crescer analfabeta funcional e, na idade em que deveria terminar o segundo grau, estará na cadeia ou dependente de “welfare”, a “bolsa-família” gringa. Mas tem gente acredita no conceito da meritocracia.

Tubarões matam uma média de 5 pessoas por ano. Hipopótamos? 3 mil pessoas por ano. Mas tem gente que morre de medo de ir à praia.

Desde 1989, 303 condenados foram inocentados pelo uso de exame de DNA. 18 esperavam no corredor da morte. 25 tinham confessado o crime. Mas tem gente que acha que pena de morte é a solução para essa violência toda.

Pensar estatísticas é uma novidade na história da humanidade. Não foi desse jeito que chegamos aonde chegamos. O homem evoluiu aprendendo com o exemplo alheio, traçando relações entre os fenômenos que vemos, com o que podemos contemplar. Números, por mais que representem fatos, são abstrações. Não têm cara, apelo, não choram, não aparecem na TV pedindo justiça. Números podem até falar a verdade, mas não convencem o instinto primata que ainda nos move.

Também é assim na discussão sobre a maioridade penal. Uma famosa jornalista, alinhada ao pensamento da direita, ao defender a redução, limitou-se a citar dez vítimas de crimes atrozes cometidos por menores, numa paródia de mau gosto dos textos que pretendiam discutir razões para a manutenção da maioridade penal. Sintomático. Quem quer a redução da maioridade não quer discutir eficácia. Não quer falar em porcentagens de crimes violentos praticados por menores. Querem é o conforto de sentir que algo mudou. Mesmo que nada mude.


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