Semana On

Terça-Feira 07.jul.2020

Ano VIII - Nº 400

Entrevista

O PT não existe mais, é um partido de um homem só

Sociólogo Chico de Oliveira faz uma análise do cenário político no Brasil.

Postado em 01 de Abril de 2015 - Patricia Fachin

Sociólogo Chico de Oliveira faz uma análise do cenário político no Brasil. Sociólogo Chico de Oliveira faz uma análise do cenário político no Brasil.

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A atual crise brasileira “não é uma surpresa” e tampouco diz respeito a uma crise política ampla. Ao contrário, é uma crise causada por uma presidente fraca. A análise é do sociólogo Chico de Oliveira, um dos fundadores do PT que, hoje, não poupa críticas aos rumos tomados pela legenda. Para ele, o “PT já não existe mais, assim como o PSDB também não”. E explica: “O PT não existe justamente porque é um partido de um homem só: tudo começa e termina no Lula. Um partido assim não tem condições de ficar muito tempo na política nacional”. Professor aposentado do Departamento de Sociologia da Universidade de São Paulo (USP) o sociólogo falou à Semana On.

 

Como o senhor avalia o segundo mandato do governo Dilma?

É um mandato fraco e isso deveria alertar o país a não confiar nos conselhos do Lula, porque ele “tira os candidatos do bolso” e depois os deixa a ver navios; ou seja, deixa uma candidata como a presidente Dilma à deriva, sem conseguir harmonizar as forças políticas que a apoiam.

Qual cenário político o senhor prevê para Lula?

Ele tem intenção de voltar, provavelmente voltará.

O retorno dele em 2018 seria viável?

É viável, mas terá problemas, porque se o governo Dilma se configurar como um governo fracassado, ele terá problemas.

Diante da crise, qual seria o significado do PT na presidência por mais quatro anos, com o retorno do ex-presidente Lula em 2018, por exemplo?

É que o outro lado é muito ruim, os tucanos são ruins de candidatos e não têm o que dizer ao povo. O que Aécio dizia? Nada. Ele não tem mensagem. O PSDB está cheio de políticos sem mandato.

E o que o PT ainda tem a dizer ao povo?

Ainda tem o que dizer, mas isso não significa que vamos concordar com o que é dito. O PT tem uma larga base popular e por conta disso poderia encontrar novas mensagens para o povão. A diferença é que os tucanos não têm uma larga base popular. Contudo, na prática os programas se parecem muito, não têm grandes diferenças. Mas quem sabe na hora certa o PT ainda encontre uma mensagem. Mas isso não dá para prever.

Na sua avaliação há uma crise do governo Dilma ou uma crise política mais ampla?

A crise não é uma surpresa — e é bom que a sociedade aprenda. O Lula fez uma indicação fraca e maldosa, porque a Dilma não tem cacife próprio, nem base própria e é dependente dele. Ela está pagando o preço de ser uma candidata fraca e dependente do Lula. Com isso, nós deveríamos aprender para nunca mais repetirmos esse estilo mexicano de que um candidato que está na presidência aponta seu sucessor. Isso não dá certo no Brasil e não devemos deixar o Lula ou qualquer outro repetir essa situação. Não tem uma crise política de modo geral. Tem uma crise devido ao fato de que a Dilma é uma presidente fraca. Mas também não se trata de uma crise mortal. Crise forte foi a do Collor. Estas são as crises de um governo que não consegue arrumar uma estratégia.

O Lula tira os candidatos do bolso e depois os deixa a ver navios. Deixou a presidente Dilma à deriva, sem conseguir harmonizar as forças políticas que a apoiam.

Alguns dizem que a crise do governo é a crise do lulismo. Concorda?

É também, mas não se deve apostar muito numa derivação direta, porque o lulismo ainda tem força, porque entre os que aparecem hoje como possíveis candidatos, Lula ainda é o que tem mais força, embora esteja desgastado.

Ao invés da Dilma, o PT deveria ter lançado outro candidato à presidência?

Mas o PT não tem outro candidato. O problema do lulismo é que é uma candidatura de um homem só. A Dilma não é propriamente um desastre e a crise da Petrobras não é uma responsabilidade apenas dela diretamente. A Petrobras é uma empresa brasileira e mundial, e corrupção e petróleo sempre foram sinônimos; a corrupção da Petrobras demorou a aparecer. A Dilma também está pegando efeitos da crise da Petrobras, com a qual ela tem algo a ver, mas não diretamente.

Quais as implicações políticas de o PT ser um partido de um homem só? 

O PT já não existe mais, assim como o PSDB também não. O PT não existe justamente porque é um partido de um homem só: tudo começa e termina no Lula. Um partido assim não tem condições de ficar muito tempo na política nacional. Nós tivemos medo, por algum momento, de que o PT fosse uma espécie de Partido Revolucionário Institucional - PRI mexicano, mas não é, porque o PRI mexicano controlou a política por 80 anos. Mas no Brasil não tem nada parecido no sentido de haver algum presidente que tivesse feito um sucessor. Vargas não fez sucessor porque se suicidou, Juscelino não fez sucessor, e Jânio, depois de três meses, renunciou. O Brasil não tem um sistema político, tem um sistema de personalidades, as quais têm força por um período. Por isso não é bom que Lula continue indicando presidentes.

Há quem diga sobre um pacto entre PT e PSDB, com Levy na Fazenda...

Não existe pacto nenhum, isso é coisa da imprensa. O fato é que eles não são diferentes em programas a propor. Como não são diferentes, chamam uma personalidade, como Levy, que ninguém sabe de onde veio, para chefiar o governo.

Diante da crise, como desenvolver políticas sociais daqui para frente?

Não vai se mexer em nada fundamental em relação às políticas públicas e vão fazer ajustes como Dilma está dizendo. Nenhum governo hoje é maluco de tirar as políticas sociais da pauta e dos investimentos do governo. Os governos hoje subsistem por causa das políticas sociais; não há mais uma diferença de política monetária como antes havia e dividia os partidos, como no governo Juscelino, que teve uma política de desenvolvimento boa, mas não teve política monetária. Mas não existe mais esse tipo de divergência. De modo que o que resta para os governos nacionais são as políticas sociais. O governo tentou avançar, porque Dilma quer se desmarcar do Lula e ter alguma coisa em que ela possa avançar e marcar seu governo. Mas ela terá dificuldades para se manter. Os tucanos também precisam aprender a lição para ver se colocam um candidato mais contundente; Aécio é muito educado.

O PT já não existe mais, assim como o PSDB. Mas o PT não existe justamente porque é um partido de um homem só: tudo começa e termina no Lula.

Ele foi um candidato errado para o PSDB?

Sim, ele é muito educado, tem a herança de O candidato forte do PSDB é o Serra.

Que também não teve sucesso ao concorrer à presidência.

Não teve, mas contra uma Dilma fraca, quem sabe ele tenha sucesso na próxima eleição. Ele tem muito conhecimento em economia, é duro, e usa esse conhecimento até para enganar os bobos.

Como o senhor vê as críticas ao fato de que as políticas sociais foram desenvolvidas para sustentar a economia e o mercado financeiro?

As políticas sociais injetam poder na economia, principalmente se forem políticas sociais com um foco nas classes mais pobres da sociedade. Isso tem um efeito econômico não desprezível, de modo que se as políticas sociais têm efeito na economia, isso é bom, não é ruim.

Mas diante de uma crise de baixo crescimento, há um impacto direto nas políticas e nas pessoas assistidas por essas políticas.

Sim, há um impacto, mas não se trata de uma crise catastrófica. É uma crise cíclica, porque a economia capitalista move-se em ciclos e isso é normal. Enquanto um empresário está tomando decisões, outros podem não estar. Governos e empresários tentam tomar decisões que vão numa mesma direção e isso gera crescimento para o país, mas quando afrouxam as decisões, o ciclo baixa, mas isso não é uma tragédia.

Como o senhor viu as manifestações dos dias 13 e 15 de março?

Não acompanhei tanto, mas posso dizer que até me surpreendi pelo vigor delas. Louvo as manifestações porque provam que a sociedade não está parada, pode reagir, e tomara que isso se repita. Os partidos logo querem capturar esses movimentos e, ao fazer isso, eles geralmente estrangulam os movimentos. Tomara que novas manifestações empurrem os políticos contra a parede.

As manifestações foram legítimas? Alguns as criticam, dizendo que foram de direita. Isso corresponde à realidade?

Não sei se isso corresponde à realidade e se a manifestação foi manipulada pela direita. A direita faz seus movimentos também. A direita tem força e em períodos como esse, de um governo fraco, ela cresce. Não gosto dessas manifestações, mas elas são legítimas e são parte da política.

Louvo as manifestações porque provam que a sociedade não está parada, pode reagir, e tomara que isso se repita.

Essas manifestações podem resultar em alguma mudança política?

Não, porque as manifestações são sempre manifestações e a política efetiva corre por outros trilhos. Claro que a política muda um pouco por causa dos protestos, mas ela não se guia por eles. A política é muito mais previsível do que pensamos. Alguém dizia que a política é como as nuvens. Mas essa frase é falsa. A política é mais previsível do que a maior parte das atividades. Talvez a gente não saiba ler muito bem, mas veja, você não vê o Renan Calheiros nem à direita nem à esquerda, porque o Senado é uma casa importante e ali a opinião pessoal de cada senador vale muito pouco. Eles estão tentando entender o movimento das ruas, o movimento da política para não fazerem besteira. Na Câmara é ainda mais complicado porque tem mais de 500 deputados. Então, não há nada de imprevisível na política.

O que o senhor vislumbra para a política brasileira nos próximos anos?

Nada de mais. Como se observa também em outros países desenvolvidos, nenhum partido entra no governo e muda a política. Isso não existe mais e é coisa do passado, porque as estruturas capitalistas vão se consolidando muito. E são essas estruturas que governam. O bom governante está prestando atenção aí. Obviamente não é exatamente isso que traz benefício ao povo, mas é isso que move a política.

Depois das manifestações, a proposta do governo Dilma foi sugerir uma reforma política. O que acha disso?

É uma bobagem. Reforma política se faz todos os dias. Dilma enviou Rossetto para falar depois das manifestações porque é um ministro expressivo. Dilma está tentando retomar a popularidade com o Rossetto, até porque ele é gaúcho e os gaúchos sempre tiveram espaço importante na política brasileira nos últimos 50 anos.

Ainda há um partido de esquerda no Brasil que possa ter algum papel político?

Não. E isso é uma tragédia dos países que vão alcançando certos níveis de desenvolvimento econômico, porque as políticas radicais perdem espaço. Veja que a Europa tem tensões políticas fortes, mas nos EUA os democratas e republicanos são cada vez mais parecidos, portanto, pela política não se fazem mais grandes modificações. De modo que o Brasil também já atingiu um certo grau de desenvolvimento, e agora interesses econômicos são muito poderosos e são eles que monitoram o governo o tempo todo. Quando há qualquer sinal de iniciativas que são contra esses interesses, se faz com que a presidência corrija os rumos. Em síntese, a política virou algo muito medíocre.


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