Semana On

Sábado 31.out.2020

Ano IX - Nº 417

Coluna

Não vai pegar mal?

A publicidade e morte dos preconceitos.

Postado em 27 de Março de 2015 - Rodrigo Amém

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A publicidade brasileira se orgulha de ser “uma das mais criativas do mundo”. Temos o humor, a ironia, o apuro técnico nos nossos reclames. De prêmio em prêmio, nossos profissionais do ano se parabenizam e acendem seus charutos. Somos fodas.

De uns tempos para cá, ficou comum ver nossos criativos recolhendo seus trabalhos diante da reação negativa do público. A Skol retirou sua campanha de carnaval na calada da noite depois de ser acusada de apologia à violência sexual. Depois foi a Risqué, batizando sua linha de esmalte com nomes de homens de atitudes pretensamente desejáveis.

Não acredito que nenhum dos profissionais que participaram dessas campanhas fora capaz de detectar esses equívocos de concepção. Em algum momento, algum estagiário deve ter levantado a mão: “Mas não vai pegar mal?” Desafiados a pensar suas criações sob diferentes pontos de vista, os criativos deram de ombros e, provavelmente, responderam: “Um saco isso de ser politicamente correto! Coisa mais sem graça! Não se pode falar mais nada!” E o pobre estagiário se calou.

Essa é a maior vantagem da democracia: os preconceitos choram e esperneiam, mas morrem com seus donos.

Alguns dias depois, os clientes dos criativos viram suas marcas crucificadas nas redes sociais. Que eu saiba, ninguém perdeu emprego. Um ou outro executivo foi remanejado para fora do país. Aquela popular técnica gerencial brasileira: “fracassar para cima”. Talvez tenham rescindido o contrato de nosso estagiário imaginário.  

Nas redes sociais, claro que teve gente que reclamou do “mimimi” feminista. Mas também teve gente que reclamou da Leila Diniz aparecer grávida de biquíni nas praias do Rio em 1970. Essa é a maior vantagem da democracia: os preconceitos choram e esperneiam, mas morrem com seus donos. No seu lugar, floresce o respeito às diferenças. E perceber essa transição em movimento é parte importante do processo criativo. Mais até que comprar charutos para Cannes.


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