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Terça-Feira 12.nov.2019

Ano VIII - Nº 371

Comportamento

Crianças que mamam por mais tempo têm renda maior quando adultos

Níveis de inteligência e escolaridade também são maiores.

Postado em 19 de Março de 2015 - Redação Semana On

Se o bebê mama no peito por mais tempo, maiores serão os níveis de inteligência, escolaridade e renda financeira quando adulto. Se o bebê mama no peito por mais tempo, maiores serão os níveis de inteligência, escolaridade e renda financeira quando adulto.

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Que o aleitamento materno traz inúmeros benefícios à saúde da criança não resta dúvida. Agora, pesquisadores brasileiros conseguiram demonstrar, pela primeira vez, que ele também garante mais renda na vida adulta.

O estudo, publicado na última quarta (18) na revista médica britânica "The Lancet", acompanhou por 30 anos um grupo de quase 3.500 bebês nascidos em 1982 no município de Pelotas (RS).

A conclusão é de que se o bebê mama no peito por mais tempo, maiores serão os níveis de inteligência, escolaridade e renda financeira quando adulto.

Por exemplo: uma criança amamentada por 12 meses obteve, aos 30 anos, quatro pontos a mais no escore de QI, quase um ano a mais de escolaridade e a renda aumentada em R$ 341, quando comparada a um bebê que mamou menos de um mês.

Outro aspecto inédito do estudo foi ter conseguido separar o efeito da amamentação das eventuais vantagens econômicas–ou seja, o bebê já ter nascido em família de maior renda e escolaridade.

"Foi muito importante isolar as variáveis. Havia dúvidas se o leite, sozinho, era o responsável pelo benefício e se isso alcançaria a vida adulta", explica o médico epidemiologista Cesar Victora, professor emérito da Universidade Federal de Pelotas e um dos líderes da pesquisa.

O provável mecanismo relacionado aos efeitos benéficos da amamentação sobre o desenvolvimento da inteligência é a presença de ácidos graxos saturados de cadeia longa no leite materno, essenciais para o desenvolvimento do cérebro.

"O leite humano é uma substância viva, com células-tronco e anticorpos. A biologia está só começando a desvendá-lo. A indústria alimentícia tenta copiá-lo, mas nunca vai copiar essa parte viva, que é insubstituível", diz Victora, que também é professor visitante nas universidades de Harvard e de Oxford.

A executiva Perla Zandona, 38, ainda amamenta Izabela, de um ano, e atribui ao leite materno o fato de a filha nunca ter tido sequer resfriado. "Ela vive no chão. É uma criança sem frescura e sem doença", afirma ela.

Segundo o médico e pesquisador Bernardo Horta, professor da Universidade Federal de Pelotas e também autor do estudo, o grupo estuda agora o papel dos genes na metabolização dos ácidos graxos saturados.

Metodologia

O estudo em Pelotas foi iniciado com cerca 6.000 bebês. Dados sobre o tempo de amamentação foram coletados nos primeiros anos de vida das crianças.

Quando estavam com 30 anos, em média, 3.493 participantes realizaram testes de QI (Escala de Inteligência Wechsler para Adultos). Informações sobre grau de escolaridade e nível de renda também foram coletadas.

Os pesquisadores dividiram esse universo em cinco grupos com base na duração do aleitamento quando bebês, fazendo o controle para dez variáveis sociais e biológicas que podem contribuir para o aumento de QI.

Entre elas, estão renda familiar ao nascimento, grau de escolaridade dos pais, ancestralidade genômica, tabagismo materno durante a gravidez, idade materna, peso ao nascer e tipo de parto.

Os autores ressaltam, no entanto, que, mesmo isolando as variáveis, por se tratar de um estudo observacional, pode haver outros fatores não mensurados (a relação emocional entre mãe e bebê, por exemplo) que podem influenciar no resultado.

Para Victoria, os resultados do estudo extrapolam o campo da saúde e deveriam ser abraçados pelos Ministérios do Planejamento e da Fazenda. "Investir na amamentação é investir no capital humano da próxima geração."


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