Semana On

Sexta-Feira 18.out.2019

Ano VIII - Nº 367

Especial

Do outro lado do balcão

Manifestações de domingo desafiam a capacidade do PT em lidar com a insatisfação popular.

Postado em 13 de Março de 2015 - Redação Semana On

PT vive seu momento mais duro depois de 13 anos de governo. PT vive seu momento mais duro depois de 13 anos de governo.

Clique aqui e contribua para um jornalismo livre e financiado pelos seus próprios leitores.

O PT se assustou nesta semana. As vaias que ecoaram nas principais capitais brasileiras durante o pronunciamento de rádio e TV da presidente Dilma Rousseff, no último dia 8, por ocasião do Dia Internacional da Mulher, acendeu o sinal vermelho no partido. Na última terça-feira (10), a presidente e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva tiveram uma conversa dura. Dilma não escondeu sua contrariedade com o vazamento constante das críticas de Lula ao seu governo. Já o ex-presidente, reclamou da condução política do Planalto.

Uma década depois de ter seus principais líderes envolvidos no escândalo do Mensalão, o partido volta a ver seus dirigentes acusados de envolvimento em outro caso de corrupção, a Operação Lava Jato. Para Lincoln Secco, professor de História da Universidade de São Paulo e autor do livro A história do PT, o grande problema do partido é a base cada vez maior do antipetismo, crescente principalmente entre as classes médias. “Esse sentimento está traduzido pelo discurso anticorrupção, ‘antiaparelhismo’ do Estado, por mais que sejam noções que se aplicam também a governo anteriores. Mas não basta o PT dizer isso porque o partido já está no poder há 13 anos”.

Secco afirma que o modelo de gestão petista, baseado em um pacto de conciliação de classes, deixou a classe média à deriva. "O modelo de governo do PT está calcado em uma conciliação de classes, especialmente entre os muito ricos e os muito pobres. Isso deixou uma margem de manobra crítica, enorme, para os setores médios, que não ganharam nada nos governos Lula e Dilma."

O resultado desta política tem sido observado nos últimos 20 anos. A transformação de um partido que detinha a prerrogativa ética em uma agremiação que protagonizou os maiores escândalos de corrupção do país. A colheita desta semeadura equivocada tem acirrado os ânimos de setores diversos da sociedade.

A tentativa petista de atribuir a insatisfação apenas a setores mais privilegiados não condiz com a realidade das ruas. O secretário nacional de comunicação do partido, o jornalista José Américo Dias, em texto publicado no site oficial do partido, afirmou que o “panelaço” de domingo “foi um movimento restrito que não se ampliou como queriam seus organizadores”. O vice-presidente do partido, Alberto Cantalice, anunciado pelo PT como seu “coordenador de redes sociais”, classificou as manifestações como “uma orquestração com viés golpista que parte principalmente dos setores da burguesia e da classe média alta”.

Uma análise do jornalista Lino Bocchini, da Carta Capital, lança por terra esta leitura equivocada. “O governador Geraldo Alckmin (PSDB) foi reeleito no primeiro turno em São Paulo com mais de 12 milhões de votos, saindo-se vitorioso em 644 das 645 cidades paulistas. Eram todos os votos da ‘burguesia’ de que fala o PT? O também tucano Aécio Neves (MG) teve mais de 51 milhões de votos no segundo turno. Só da elite? Se somarmos 100% dos votos de bairros como Leblon (RJ), Savassi (MG), Asa Sul (DF), Moinhos de Vento (RS) e Jardins (SP) não chegamos a 1% deste total”.

Mais uma consequência desta série de equívocos que tem colocado o Governo Dilma e o PT em uma sinuca de bico acontecerá neste domingo, 15 de março, quando grupos heterogêneos, dos quais fazem parte gente insatisfeita, jovens adeptos da cartilha liberal, empresários que pregam enxugamento radical do Estado e até defensores da intervenção militar prometem marchar juntos em mais de 200 cidades.

Clique no mapa e confira onde ocorrem as manifestações do dia 15.

Negação

A insatisfação da sociedade, se "negada ou mal administrada", pode enfraquecer a democracia no país e por isso é preciso estabelecer um diálogo que supere "os radicalismos e impede o ódio e a divisão". O tom cauteloso veio na nota divulgada na quinta-feira (12) pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB).

O presidente da entidade, cardeal Raymundo Damasceno, destacou ser legítimo o direito da população em "reivindicar seus direitos e manifestar seus desejos", mas ponderou que, até o momento, não há motivação concreta para um eventual impeachment da presidente Dilma Rousseff, como defende parte dos manifestantes.

"Não há nenhum indício de algum ato que possa justificar qualquer denúncia contra a presidente da República", disse Damasceno, arcebispo de Aparecida (SP). Ele ponderou que "os ânimos se exacerbaram durante a campanha política" de 2014 e que tal "tensão" continua. "Sobretudo através das redes sociais. Mas temos que superar esse momento."

"Existem normas, regras, para um pedido oficial de impeachment. Creio que não chegamos a esse nível", completou dom Leonardo Steiner, secretário geral da CNBB.

Na nota, a entidade pondera que as manifestações são "comuns em épocas de crise" e um "direito democrático que deve ser assegurado a todos". "Cobrar essa resposta é direito da população, desde que se preserve a ordem democrática e se respeitem as instituições da comunidade política", completa o texto.

15 de março

Alguns grupos organizados nas redes sociais têm aparecido em destaque no pano de fundo das manifestações programadas para este domingo. Eles fazem questão de salientar suas diferenças. "Os caras do Vem Pra Rua são mais velhos, mais ricos e têm o PSDB por trás", diz Renan Santos, 31, do Movimento Brasil Livre (MBL). "Eles vão pro protesto sem pedir impeachment. É como fumar maconha sem tragar."

O MBL quer impeachment mesmo que isso signifique o vice, Michel Temer, ou o presidente da Câmara, Eduardo Cunha (ambos do PMDB), na Presidência. "O PMDB é corrupto, mas o PT é totalitário", diz Kim Kataguiri, 19.

A tese de uma ligação com o PSDB incomoda o Vem Pra Rua, com 300 mil seguidores no Facebook. O núcleo são cerca de 20 pessoas, a maioria empresários que prefere o anonimato. O rosto público é Rogério Chequer, 46, sócio de uma agência de palestras.

"Não recebemos dinheiro e nem material de partido", ressalta. A ideia de vinculação com tucanos começou a ganhar força na eleição, quando o grupo fez passeatas por Aécio Neves. "Não defendíamos o Aécio, mas o não voto na Dilma", diz Chequer.

Para o Vem Pra Rua ainda não há base jurídica para impeachment. Ainda assim, o grupo engrossa o chamado ao dia 15. Alega que a pressão é importante para que as apurações sobre a Petrobras, por exemplo, prossigam.

Em outros protestos, o Vem Pra Rua se mobilizou para expulsar grupos que defendem a intervenção militar. "Dessa vez vai ser tão grande que será impossível", diz Chequer.

Grupos que defendem a tomada do poder pelos militares têm participado dos protestos contra Dilma. No Rio, por exemplo, o que se autodenomina Legalistas tem feito convocações. "A coisa está indo por um caminho que não vejo outra saída", diz o sargento da reserva da Aeronáutica Tôni Oliveira, 58.

A equiparação com intervencionistas irrita o Vem Pra Rua e o MBL. Eles criticam a imprensa e dizem que ela faz questão de jogar todo mundo no mesmo balaio.

De onde vem o dinheiro para organizar tudo isso? Cada um se financia de um jeito. O MBL aceita doações e recebe alguns centavos do YouTube a cada clique em seus vídeos. O Vem Pra Rua faz vaquinha entre seus integrantes.

Outra celebridade dos atos contra Dilma, Marcelo Reis, do Revoltados, arruma dinheiro de um jeito diferente. Dono da página com mais curtidas entre os mobilizadores (quase 700 mil curtidas no Facebook), ele vende o kit manifestação, com camisetinha, boné e adesivos pró-impeachment.

O Revoltados já defendeu a intervenção militar, mas Reis diz que, hoje, na cúpula do grupo, não há quem advogue por esse caminho. "Queremos as regras democráticas. Impeachment está na Constituição", diz.

Reis fez de um flat de 38 metros quadrados o QG de seu grupo. O imóvel fica no prédio em que o ministro José Eduardo Cardoso (Justiça) se hospeda em São Paulo.

Seu grupo promete levar a banda Os Reaças para a Paulista. "Ô, ô, ô... Todo mundo já sabe que a anta sabia. Ô, ô, ô... Que o molusco mandava e ela obedecia. Ô, ô, ô... Impeachment! Não tem como fugir. Impeachment! Pede pra sair...", diz o refrão.

Incógnita

As manifestações de domingo podem ser históricas, e podem ser um fiasco no que se refere a adesão. Todos os grupos evitam estimar a adesão ao ato do dia 15. Internamente, falam em levar 100 mil pessoas às ruas. No entanto, muito além dos números, a preocupação maior do Governo e do PT é pra com o caráter simbólico da ação.

O maior protesto está previsto para a av. Paulista, em São Paulo (região central da capital), em frente ao Masp. O mesmo local foi palco de manifestações em junho de 2013. Dirigentes petista temem que o ato repita as manifestações daquele mês.

A principal preocupação é com São Paulo, onde se concentraram os protestos e reações ao PT e à presidente. Nas palavras de um aliado de Dilma, desta vez, em vez de "20 centavos", o sentimento de mudança está agora centrado no poder central.

Tranquilidade, pero no mucho...

A presidente Dilma Rousseff disse não temer o acirramento dos ânimos nas manifestações previstas para o dia 15. "Eu sou de uma época – sempre repito isso – em que a gente não podia manifestar. Quem manifestasse era preso. O Brasil se fechou e caiu numa ditadura. A gente hoje tem que olhar para a manifestação com absoluta tranquilidade", disse a presidente.

Segundo Dilma, o que não se pode permitir são atos de violência. "Nós não podemos aceitar violência contra pessoas ou patrimônio..

Sobre se adversários políticos estariam por trás dos atos, a presidente disse que o trabalho de descobrir é da "imprensa investigativa".

Imagens da campanha do senador Aécio Neves (PSDB-MG) à Presidência no ano passado ilustram vídeos com chamados às manifestações. Colaboradores da área de propaganda do tucano constam entre os difusores do material.

Os tucanos apoiam os protestos, mas dizem que o impeachment não está na agenda do partido. O DEM também declarou apoio às manifestações, mas não informou se quer ou não a saída da presidente. O Solidariedade, de Paulinho da Força (SD-SP), lançou uma campanha pelo impeachment da presidente Dilma.

O presidente do PT, Rui Falcão, gravou uma mensagem destinada à militância do partido. No vídeo, ele recomenda que os petistas não aceitem provocações, mas que também não baixem a cabeça.

Na mensagem, Falcão afirma que o PT repudia "ato de violência, de ódio, intolerância, de golpismo ou qualquer tentativa de desrespeito à democracia".

"Sabemos que alguns grupos organizados têm se aproveitado de um momento de dificuldades passageiras para tentar espalhar seus métodos antidemocráticos, incitando ao ódio e ao medo, combustíveis com os quais querem incendiar corações e mentes. Esses grupos terão que esperar pelas eleições de 2018 para disputarem seus planos nas urnas", diz a mensagem.

No vídeo, ele afirma que os grupos organizados de oposição ao governo Dilma passarão.

"Neste momento o PT reforça a orientação à militância, aos seus apoiadores e simpatizantes que estão saindo às ruas a não aceitarem provocações de extremistas, mas tampouco abaixarem a cabeça", afirma. "Estamos mudando o Brasil e isto nunca foi fácil. As ferramentas do ódio e do medo que esses grupos estão usando não são as da luta democrática. Continuaremos fazendo a disputa com argumentos, diálogo e serenidade. Eles passarão. O nosso governo e o nosso partido continuarão a defender a democracia e um Brasil ainda melhor", acrescentou.


Voltar


Comente sobre essa publicação...