Semana On

Domingo 15.dez.2019

Ano VIII - Nº 375

Artigo da semana

Jornalismo e interesse público

Desde 2012, o ICIJ tem investigado os paraísos fiscais – que fazem parte do tema muito mais amplo da desigualdade econômica.

Postado em 04 de Março de 2015 - Marina Walker Guevara

O ICIJ diz poraticar O ICIJ diz poraticar "jornalismo lento", trabalhando durante meses com um exército de editores e checadores que questionam nossas hipóteses.

Clique aqui e contribua para um jornalismo livre e financiado pelos seus próprios leitores.

Quando o Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos iniciou a investigação do caso SwissLeaks, há dez meses, sabíamos que seria uma notícia importante – mas não imaginávamos que provocaria uma reação de choque em cadeia, levando executivos do HSBC a pedir desculpas, autoridades governamentais a abrirem inquéritos em vários países e cidadãos a exigir igualdade fiscal e transparência, seja pelo Twitter ou pelo Avaaz.

"Sou apenas uma cidadã francesa que precisa viver com parcos 450 euros por mês. É muito difícil", diz uma das centenas de e-mails que o ICIJ recebeu após a publicação. A leitora agradeceu aos nossos repórteres por terem a "coragem de dizer em voz alta o que todo mundo está pensando".

Vale a pena contar rapidamente como surgiu o SwissLeaks e de como e por quê o ICIJ faz o que faz.

Somos uma rede que, desde 1997, reúne jornalistas independentes em 65 países, investigando questões de importância global –do contrabando de cigarro ao tráfico de tecidos humanos e o papel de empresas contratadas por militares.

O ICIJ é uma organização jornalística sem fins lucrativos, assim como a ProPublica, em Nova York, o Ciper, no Chile, e dezenas de centros investigativos semelhantes ao redor do mundo. Não aceitamos dinheiro de governos ou empresas. Somos financiados exclusivamente por filantropia (fundações e indivíduos) e nosso trabalho é sempre sobre questões de interesse público. Nossos financiadores não participam de decisões editoriais.

Desde 2012, o ICIJ tem investigado os paraísos fiscais –que fazem parte do tema muito mais amplo da desigualdade econômica.

Primeiro, revelamos os verdadeiros donos por trás de mais de 100 mil empresas secretas em ilhas do Caribe.

Depois, revelamos como algumas das maiores empresas do mundo usam o paraíso fiscal de Luxemburgo, no centro da Europa, para pagar impostos que não chegam a 1%.

E, em 9 de fevereiro, ao lado de mais de 50 empresas jornalísticas, expusemos como a filial suíça do HSBC havia aberto e mantido contas bancárias para traficantes de armas, negociantes de diamantes de sangue e sonegadores de impostos do mundo inteiro.

A apuração da reportagem durou muitos meses, desde que nossos colegas do jornal francês "Le Monde" nos abordaram com os dados e nos pediram para organizar a investigação mundial. A partir daí, convocamos alguns dos melhores jornalistas de nossa rede de contatos –e de fora dela, quando necessário– para pesquisar os quase 60 mil arquivos vazados e encontrar casos de interesse público, país a país.

A existência de contas suíças de políticos, industriais influentes, criminosos, pessoas envolvidas em grandes escândalos e celebridades claramente era de interesse público. O O ICIJ é uma organização jornalística sem fins lucrativos. Somos financiados exclusivamente por filantropia (fundações e indivíduos) e nosso trabalho é sempre sobre questões de interesse público. Nossos financiadores não participam de decisões editoriais.

Descobrimos uma série desses casos, do Chile à Índia. Mas também encontramos milhares de indivíduos particulares de todos os países mencionados nos dados, incluindo o Brasil, que não mereciam ser publicamente expostos apenas por terem uma conta bancária na Suíça. Existem modos e motivos legítimos para isso.

Em alguns países, os jornalistas não encontraram nenhum nome que valesse noticiar. É preciso ter muita coragem e alguma integridade para aceitar isso enquanto colegas mundo afora estão dando enormes furos de reportagem.

Algumas pessoas nos perguntaram por que não publicamos as listas completas de nomes. E respondemos: é porque somos jornalistas e trabalhamos com casos de interesse público. Não somos vazadores de dados. Não somos ativistas. Não somos um órgão governamental.

Nós aplicamos o rigor do jornalismo investigativo às informações que recebemos. Usamos as mais modernas ferramentas digitais para analisar a informação, recrutamos os melhores jornalistas locais para encontrar as melhores pautas locais, contextualizamos informações confidenciais e oferecemos às pessoas mencionadas a oportunidade de responder.

Há quem diga que não existe objetividade. Embora concordemos com isso, pretendemos ser jornalistas justos e equilibrados, trabalhando pelo interesse público da forma mais exaustiva a nosso alcance. Esse é nosso compromisso com nossos leitores.

Praticamos "jornalismo lento", trabalhando durante meses com um exército de editores e checadores que questionam nossas hipóteses. Escolhemos cuidadosamente nossos parceiros ao redor do mundo, sejam jornalistas ou meios de comunicação.

No caso do SwissLeaks, fizemos parceria com Fernando Rodrigues, respeitado jornalista investigativo do UOL, que até recentemente trabalhava para a Folha.

Ele, que foi presidente da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji), havia trabalhado com o ICIJ na investigação sobre Luxemburgo. Sua reportagem revelou como três bancos brasileiros usaram o paraíso fiscal europeu para escapar de pagar US$ 90 milhões em tributos.

Rodrigues revelou detalhes de contas bancárias suíças ligadas a indivíduos envolvidos no escândalo da Petrobras, bem como de donos e sócios das empresas de ônibus municipal do Rio de Janeiro. Recentemente, ele sugeriu que incluíssemos mais algum grupo de mídia para investigar com ele os arquivos brasileiros do SwissLeaks. Agora o ICIJ trabalha com o jornal "O Globo".

O mais importante é que o Senado brasileiro prometeu abrir um inquérito sobre o SwissLeaks. Se as autoridades brasileiras quiserem seguir o exemplo do que suas contrapartes em outros países já estão fazendo, devem requisitar ao governo francês os arquivos do HSBC referentes ao Brasil, que envolvem mais de 6.600 contas bancárias, ligadas a mais de 8.600 clientes que possuíam cerca de US$ 7 bilhões em 2006/2007, segundo a análise do ICIJ.

Desde 2010, governos que solicitaram essas informações e investigaram as contas já recuperaram aproximadamente US$ 1,36 bilhão em impostos não pagos. Muitas outras autoridades fiscais nacionais já decidiram procurar a informação após a investigação do ICIJ. De várias maneiras, o Swissleaks mal começou.

Marina Walker Guevara - Diretora-adjunta do Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos (ICIJ)


Voltar


Comente sobre essa publicação...