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Sábado 25.jan.2020

Ano VIII - Nº 377

Poder

Petrobras deveria ter sido alvo de apuração no governo FHC, diz Dilma

Aécio diz ver desespero da presidente Dilma ao tentar minimizar escândalo.

Postado em 20 de Fevereiro de 2015 - Redação Semana On

Dilma Rousseff após cerimônia de entrega de credenciais a embaixadores, no Palácio do Planalto. Dilma Rousseff após cerimônia de entrega de credenciais a embaixadores, no Palácio do Planalto.

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A presidente Dilma Rousseff defendeu nesta sexta-feira (20) que, se os casos de corrupção na Petrobras tivessem sido investigados na década de 1990, quando o país era governado pelo PSDB, os desvios na estatal poderiam ter sido estancados e não teriam se perpetuado por tanto tempo.

"Olhando os dados que vocês mesmos divulgam nos jornais, se em 96 ou 97 tivessem investigado e tivessem naquele momento punido, nós não teríamos o caso desse funcionário da Petrobras que ficou durante quase 20 anos [atuando em esquema] de corrupção. A impunidade, e isso eu disse durante toda a minha campanha, a impunidade leva água para o moinho da corrupção", afirmou Dilma a jornalistas após cerimônia diplomática no Palácio do Planalto.

Em sua fala, a presidente fez referência a depoimento do executivo ligado à Toyo Setal, Augusto Mendonça, à Justiça Federal do Paraná no âmbito das investigações da Operação Lava Jato. Mendonça afirmou que o chamado "clube de empreiteiras" passaram a combinar entre si os resultados das licitações em meados da década de 1990, durante o governo Fernando Henrique Cardoso.

Durante a entrevista coletiva, a presidente defendeu que as investigações sobre a participação das empreiteiras nos esquemas de corrupção não podem afetar a geração de emprego e renda no país e que os empresários é que devem ser punidos.

"Não que antes não existia [corrupção], é que antes não tinha sido investigado e descoberto. Porque quando se investiga e descobre as raízes surgem. E quando surgem as raízes das questões você impede que aquilo se repita e que seja continuado", completou Dilma.

Durante a entrevista coletiva, a presidente defendeu que as investigações sobre a participação das empreiteiras nos esquemas de corrupção não podem afetar a geração de emprego e renda no país e que os empresários é que devem ser punidos.

"Agora, o que o governo fará é tudo dentro da legalidade. Iremos tratar as empresas tentando principalmente considerar que é necessário criar emprego e gerar renda no Brasil. Isso não significa de maneira alguma ser conivente ou apoiar ou impedir qualquer investigação ou qualquer punição a quem quer que seja. Significa doa a quem doer", afirmou Dilma.

A presidente voltou a defender a atuação dos órgãos de investigação que atuam no caso, como a Polícia Federal e o Ministério Público. "Hoje acho que um passo foi dado no Brasil e é esse passo que eu acho que a gente tem que olhar e valorizar. Atualmente, em todos os órgãos, não tem engavetador da República, não tem controle sobre a Polícia Federal, nós não nomeamos pessoas políticas para os cargos da Polícia Federal e isso significa que junto com o MP [Ministério Público] e com a Justiça está havendo no Brasil um processo de investigação como nunca foi feito antes no Brasil", disse a presidente.

Quebra de silêncio

Amplamente criticada pelo PT e até mesmo por seus assessores mais próximos por ter ficado em silêncio durante tanto tempo, Dilma deu nesta sexta a primeira entrevista de seu segundo governo.

A aparição da presidente faz parte da estratégia defendida por ministros de seu núcleo político de que ela deve falar mais diretamente à sociedade para amenizar as críticas ao seu governo.

A presidente completou 60 dias sem falar com a imprensa, o maior período de silêncio desde que assumiu a Presidência, em 2011. Até então, ela havia passado 38 dias sem falar com jornalistas em janeiro de 2012.

Neste período, ela apenas discursou publicamente na sua cerimônia de posse, em 1º de janeiro, na reunião ministerial que promoveu em 27 de janeiro, durante a cúpula da Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (Celac), realizada em San José, na Costa Rica, em 29 de janeiro, e na cerimônia de inauguração da primeira Casa da Mulher Brasileira, em Campo Grande (MS), em 3 de fevereiro.

Na reunião ministerial, Dilma fez um apelo aos ministros para que "travem a batalha da comunicação" para defender os projetos do governo. "Nós devemos enfrentar o desconhecimento, a desinformação sempre e permanentemente. Vou repetir: sempre e permanentemente. Nós não podemos permitir que a falsa versão se crie e se alastre. Reajam aos boatos, travem a batalha da comunicação, levem a posição do governo à opinião pública, a posição do ministério, a posição do governo à opinião pública. Sejam claros, sejam precisos, se façam entender. Nós não podemos deixar dúvidas", afirmou à época.

Reação

A oposição reagiu às declarações da presidente. Para o presidente do PSDB, senador Aécio Neves (MG), Dilma demonstra desespero e faz um diagnóstico superficial dos problemas de corrupção na estatal.

Segundo o tucano, a presidente ainda recorre mais uma vez a um discurso pautado pela "fantasia e marketing" para tentar minimizar um esquema de desvio de recursos públicos patrocinado pelo PT com partidos da base aliada para se manter no poder. "Acho que tem sim uma dose de desespero [da presidente] porque o governo perdeu, de certa forma, o controle do processo", afirmou.

"Depois de um conveniente silêncio que durou cerca de dois meses, certamente para se distanciar das medidas econômicas tomadas por seu governo, a presidente reaparece parecendo querer zombar da inteligência dos brasileiros ao atribuir o maior escândalo de corrupção da nossa história patrocinado pelo PT a um governo de 15 anos atrás. Na verdade, parece que a presidente volta a viver no país da fantasia", completou Aécio.

Segundo Aécio, é importante que a presidente reconheça e dê credibilidade, mesmo que indiretamente, ao depoimento de investigados, como o de Pedro Barusco, ex-gerente da Petrobras que reconheceu ter recebido propina nessa época.

"O PSDB não tem qualquer receio que se investigue o que quer que seja, mas bastaria uma leitura no depoimento de Pedro Barusco, que ele afirma que se beneficiou individualmente. Se a presidente dá crédito às declarações de Barusco, é preciso que ela dê crédito e venha a público dizer o que acha do centro desse depoimento, onde ele afirma que R$ 200 milhões foram transferidos para o PT nos últimos 12 anos, boa parte disso entregue ao tesoureiro de seu partido", afirmou.

Para o senador, "esse assunto é de extrema gravidade e não é possível que a presidente o trate de forma tão simplista e tão incorreta".

"Era hora sim de a presidente da República fazer sua mea-culpa: olhar nos olhos do seu governo e dizer que seu governo errou e errou muito. Errou na condução da economia, durante a campanha eleitoral ao pregar a mentira, o terrorismo como arma de campanha. E errou, principalmente, no seu comportamento ético. Enquanto não houver a mea-culpa do governo, os brasileiros continuarão a se sentir iludidos e lesados pela presidente da República e pelo seu governo".

Responsabilidades

Para o líder do PSDB no Senado, Cássio Cunha Lima (PB), Dilma tentou transferir responsabilidades com sua avaliação, sendo que os funcionários chegaram a cargos de direção indicados pelo PT.

"É uma tentativa de transferir responsabilidades. As delações mostram claramente que a estrutura criminosa com a participação do PT com partidos da base aliada começou no governo Lula e continuou até agora. Ela tenta se eximir de responsabilidade porque, com as delações premiadas, a casa caiu e o Palácio está para ruir", afirmou o senador.

O líder do PSDB na Câmara, Carlos Sampaio (SP), disse que a presidente Dilma deveria ter continuado calada para "não vir a público falar a bobagem que disse".

Na avaliação do líder do DEM, Mendonça Filho (PE), a acusação da presidente ao PSDB faz parte de uma "operação abafa" para minimizar o maior esquema de corrupção da história do Brasil, criado e sustentando pelo governo do PT.


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