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Segunda-Feira 23.jul.2018

Ano VI - Nº 312

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Entrevista

É preciso deixar a ideologia de lado e centrarmo-nos nos interesses das pessoas

O secretário-geral do partido espanhol Podemos, Pablo Iglesias, fala à Semana On.

Postado em 12 de Fevereiro de 2015   - Redação Semana On

O secretário-geral do partido espanhol Podemos, Pablo Iglesias. O secretário-geral do partido espanhol Podemos, Pablo Iglesias.

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Fenômeno político na Espanha, a organização Podemos superou o centro-esquerdista Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE) e se consolidou como a segunda maior força política do país, atrás apenas do centro-direitista Partido Popular. O resultado confirma que a Espanha se encaminha para o fim de uma era bipartidária. O Podemos, que surgiu há pouco mais de um ano, tem 23,9% das menções de voto dos espanhóis. No entanto, só com a realização de eleições gerais – previstas para ocorrerem no máximo até 20 de dezembro – será possível confirmar a profundidade do fenômeno político representado pelo Podemos. A agremiação não disputará as eleições municipais marcadas para 24 de maio, embora deva concorrer a governos regionais em algumas das 13 comunidades autônomas que irão às urnas. Para falar do fenômeno Podemos e da crise política europeia – em muitos pontos parecida com a crise brasileira - entrevistamos sua maior liderança, Pablo Iglesias, 36 anos, licenciado em Ciência Política e deputado do Parlamento Europeu.

 

O que é o Podemos?

O Podemos são os cidadãos fazendo política e, provavelmente, este instrumento que construímos foi a melhor expressão da crise política espanhola, uma crise que a elite que governa nosso país já há muito tempo demonstrou não ser capaz de enfrentar. Como em vários locais do mundo, o desemprego, a precariedade, os problemas dos aposentados, a emigração dos jovens não encontra respostas nas políticas atuais. O Podemos é o resultado do fracasso dos partidos políticos, que não estiveram à altura histórica dos desafios do nosso país.

O que justifica o crescimento tão rápido do Podemos?

Com certeza, o elemento fundamental está relacionado com a situação do país. É verdade que tomamos decisões estratégias corretas, audazes, e que se revelaram úteis. Seguramente, a audácia do Podemos é um elemento fundamental para entender o nosso êxito. De qualquer maneira temos que ser modestos. É verdade que as sondagens nos colocam entre as primeiras forças política, mas eu gosto sempre de tomar como referência um treinador de futebol argentino que trabalha na Espanha, Diego Simeone, treinador do Atlético de Madri, segundo quem “é preciso avançar jogo a jogo”. Mas creio que também é fundamental, para entender o que se passa, observar a enorme distância que se criou entre os atores políticos tradicionais e as pessoas.

Há uma certa arrogância dos políticos tradicionais...

Quando surgiu o Movimento 15-M na Espanha alguns setores da classe política disseram o seguinte: “Eles que se candidatem nas eleições”. Agora já não brincam com isso, já não dizem isso. Em nosso entender o 15-M demonstrou que o ambiente tinha mudado na Espanha, que a relação da maior parte da sociedade com as elites políticas era diferente. Seguramente, neste momento, o Podemos é a melhor tradução desta sensação da maior parte dos cidadãos espanhóis que estão fartos de serem roubados, enganados, que estão fartos da corrupção, fartos de uma casta que desfruta de privilégios, enquanto a maior parte da população sofre as consequências da política de austeridade. Por isso se explica que em um momento como este, em que se abriu uma janela de oportunidade, as pessoas encontraram um instrumento político eleitoral para dizer: “Não vão nos enganar novamente”.

O Podemos é a tradução desta sensação da maior parte dos espanhóis que estão fartos de serem roubados, enganados, que estão fartos da corrupção, fartos de uma casta que desfruta de privilégios.

O Podemos é um movimento de esquerda?

O problema não é que a palavra Esquerda não continue a ter muitos significados. Eu sou de Esquerda, mas entendo que a diferenciação entre Esquerda e Direita não serve para entender o mapa político na atualidade. Em muitos países, os partidos socialistas e sociais-democratas de alguma forma se posicionam a centro-esquerda, outros a centro-direita, mas no final, nas decisões sobre política econômica, nas decisões mais importantes, eles estão sempre de acordo. Isso ocorre em toda a Europa. Entendemos que a divisão de campos políticos entre Esquerda e Direita é uma espécie de jogo para enganar as pessoas. Enquanto virmos as coisas por este prisma, sempre vencerá a oligarquia. Ganham sempre os que estão lá em cima, os multimilionários, aqueles a quem a vida correu bem desde que a crise começou. Isso não quer dizer que tenhamos que renunciar aos nossos valores, mas acreditamos que há muito mais verdade, que estamos descrevendo o cenário político de forma melhor, quando dizemos que o fundamental não é a Esquerda ou a Direita, mas os de cima e os de baixo, a oligarquia e a maioria dos cidadãos. O que precisamos agora não é de pessoas que se definam apenas pelos seus partidos, mas que demonstrem honradez. Eu sou de esquerda, mas o Podemos é um instrumento para a mudança política e não uma forma de empunhar uma bandeira que, seguramente, já não serve para estabelecer a delimitação dos campos políticos.

A Esquerda partidária perdeu a sua prerrogativa de defensora da justiça social?

Estamos fartos de setores que se dizem de Esquerda, mas desfrutam de privilégios, tem salários escandalosos, viajam de primeira classe, estão de acordo com as políticas de austeridade que estão a nos levar ao desastre e acabam em conselhos de administração de grandes empresas depois de terem sido presidentes ou ministros. Essa gente que não venha me falar de ideologia.

Há um afastamento profundo entre o político e o homem comum.

As pessoas se acostumaram a tratar com dois tipos de políticos. Com os que estão lá em cima, que vivem no topo do sistema econômico, que desfrutam de privilégios, e com políticos que apelam a uma identidade que exclui sistematicamente muita gente. Há políticos com os quais compartilho muitas coisas, mas que em sua própria maneira de se definirem, de se colocarem atrás de uma bandeira, estão dizendo: “Aqui não há espaço para vocês. Se querem entrar tem que se definir sob nossos termos”. É muito importante que os políticos não vivam em sótãos, não se afastem completamente das necessidades e da realidade dos cidadãos comuns.

Há também um cansaço em relação à política tradicional.

Estamos vivendo um momento onde os cidadãos estão fartos da política. Por isso dizemos que a Esquerda e a Direita já não servem mais para compreender a complexidade do que estamos vivendo. Há uma crise no sistema, uma crise no poder instituído. Se nós, que defendemos os direitos sociais, que somos intransigentes na defesa da democracia, na defesa dos direitos civis não nos movermos politicamente, podemos chegar ao pior pesadelo, o mesmo que os europeus conheceram nos anos 30, que se chama racismo, xenofobia, autoritarismo e, que em última instância, pode chegar a chamar-se fascismo. Nós, que somos democratas de verdade, precisamos compreender que há um espaço politico aberto sobre o qual é necessário intervir. É preciso deixar a ideologia de lado e centrarmo-nos nos interesses das pessoas

O senhor apoiou a postura do Syriza, partido de extrema-esquerda recém-eleito na Grécia, de enfrentar as diretrizes do Banco Central Europeu (BCE). É possível sair vencedor deste combate?

Durante o discurso de posse como primeiro-ministro da Grécia, Alexis Tsipras foi claro. Disse que seu objetivo é alcançar uma solução mutuamente benéfica para a Grécia e seus sócios. A Grécia quer pagar sua dívida. A resposta do BCE ao desejo do governo grego de ser conciliador e responsável, também foi muito clara: negativa. Ou o governo grego abandona o programa pelo qual foi eleito e segue fazendo o que tem sido desastroso para a Grécia ou o BCE deixará de apoiar a dívida grega. O cálculo do BCE não só é arrogante: é incoerente. O mesmo banco central que reconhece seus erros há umas semanas e começa a comprar dívida pública, agora nega financiamento aos Estados que argumentaram durante anos que o papel de um banco central deve ser o de respaldar os governos na proteção de seus cidadãos no lugar de resgatar as entidades financeiras que causaram a crise. Agora, em vez de reconhecer que a Grécia merece ao menos o mesmo tratamento que qualquer outro Estado membro da UE, o BCE decidiu matar o mensageiro. Excessos de arrogância e miopia política de alto custo. Os novos déspotas que estão tratando de nos persuadir que o problema da Europa é a Grécia estão colocando o próprio projeto europeu em risco.

O problema da Europa não é que os gregos votaram por uma opção diferente daquela que os levou ao desastre; isso é simples normalidade democrática. O problema triplo da Europa é a desigualdade, o desemprego e a dívida, e isso tampouco é novo nem exclusivamente grego. Ninguém pode negar que a austeridade não solucionou este problema, mas sim exacerbou a crise. Vamos soletrá-lo: os ditames dos que ainda parecem ser os que mandam na Europa fracassaram, e as vítimas desta ineficiência e irresponsabilidade são os cidadãos da Europa. É exatamente por esta razão que a confiança entrou em colapso nas velhas elites políticas; o Syriza ganhou na Grécia e o Podemos pode ganhar na Espanha. Mas nem todas as alternativas a estas políticas falidas estão tão comprometidas como o Syriza e o Podemos com a Europa e os valores e democracia europeia.

O fundamental não é a Esquerda ou a Direita, mas os de cima e os de baixo, a oligarquia e a maioria dos cidadãos.

Os gregos foram empurrados a um ponto de desastre. Porém, o governo grego que chegou ao poder mostra uma grande disposição em cooperar. Solicitou um acordo ponte que daria a ambos os lados um prazo até junho para lutar com o que é pouco menos que uma emergência nacional para a maioria da população grega. A viabilidade do projeto europeu está em jogo. Pró-europeus, especialmente os da família socialista, devem aceitar a mão oferecida pelo Tsipras e ajudar a frear os pedidos do lobby pró-austeridade. Não é só sua própria sobrevivência política a que está em jogo, mas a da própria Europa.

O senhor propõe uma reforma constitucional. Em que termos?

Em termos de reivindicar que os direitos sociais, a base da soberania, que são o direito à educação, o direito à moradia, o direito à saúde, sejam protegidos. Essa é a agenda fundamental do Podemos. Não penso que a solução para todos os problemas seja uma Constituição, mas talvez seja preciso fazer com que esse contrato que os cidadãos assinam em processo constituinte seja blindado para que as bases materiais da democracia não possam ser questionadas.

O Podemos trouxe, em seus primeiros momentos, propostas radicais que, aos poucos, foram sendo deixadas de lado, como a redução da aposentadoria a 60 anos e um programa de renda básica. O que mudou?

Não é o mesmo fazer um programa para as eleições europeias, no qual são definidas uma série de características gerais de como está a situação na Europa, e fazer um programa de Governo para governar, e é verdade que assumimos uma postura séria. O que os economistas com os quais trabalhamos nos disseram é que não vamos poder reduzir a aposentadoria a 60 anos em um ano, nem em dois, tem que dar início a uma tendência para repartir o trabalho, mas nós temos que fazê-lo. Nos disseram também que a renda básica é uma ideia magnífica e uma tendência muito interessante que não vamos poder colocar em prática nos dois primeiros anos. É evidente que quando se tem responsabilidades de Governo e que negociar com setores muito poderosos, é preciso endurecer a postura.


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