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Sexta-Feira 20.set.2019

Ano VIII - Nº 363

Poder

PT recebeu até US$ 200 milhões em propina da Petrobras, afirma delator

Partido não aceita o estigma da corrupção, diz presidente da legenda Rui Falcão.

Postado em 06 de Fevereiro de 2015 - Redação Semana On

Tesoureiro do PT João Vaccari Neto é levado para depor em nova fase da Operação Lava Jato na sede da Polícia Federal em São Paulo. Tesoureiro do PT João Vaccari Neto é levado para depor em nova fase da Operação Lava Jato na sede da Polícia Federal em São Paulo.

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Em depoimento concedido em acordo de delação premiada, Pedro José Barusco Filho, ex-gerente de engenharia da Petrobras, estima que o PT tenha recebido entre US$ 150 milhões e US$ 200 milhões entre 2003 e 2013 de propina retirada dos 90 maiores contratos da Petrobras, como o da refinaria Abreu e Lima, em construção em Pernambuco.

Barusco afirma que o tesoureiro do partido, João Vaccari Neto, teve "participação" no recebimento desse suborno. Vaccari Neto, de acordo com ele, ficou, até março de 2013, com US$ 4,5 milhões.

Ainda segundo ele, em outra fase, houve pagamentos até fevereiro do ano passado.

O depoimento foi prestado no dia 20 de novembro último e veio à tona na última quinta-feira (5).

Segundo Barusco, Vaccari participou pessoalmente de um acerto fechado entre funcionários da Petrobras e estaleiros nacionais e internacionais relativos a 21 contratos para construção de navios equipados com sondas, contratações que envolveram ao todo cerca de US$ 22 bilhões.

"Essa combinação envolveu o tesoureiro do Partido dos Trabalhadores, João Vaccari Neto, o declarante [Barusco] e os agentes de cada um dos estaleiros, que deveria ser distribuído o percentual de 1%, posteriormente para 0,9%", declarou Barusco.

Segundo o delator, desse 1% sobre o valor dos contratos, a divisão se dava da seguinte forma: "2/3 [dois terços] para João Vaccari; e 1/3 para 'Casa 1' e 'Casa 2'". Barusco envolveu outros funcionários da Petrobras no esquema.

A "Casa 1", segundo o ex-gerente, era o termo usado para "o pagamento de propina no âmbito da Petrobras, especificamente para o diretor de Serviços Renato Duque e Roberto Gonçalves, o qual substituiu o declarante na gerência executiva da Área de Engenharia".

A "Casa 2" referia-se "ao pagamento de propinas no âmbito da Sete Brasil, especificamente para o declarante, João Carlos de Medeiros Ferraz, presidente da empresa e, posteriormente, também houve a inclusão de Eduardo Musa, diretor de participações da empresa".

Durante o depoimento, Barusco entregou à força-tarefa da Lava Jato uma série de documentos que, segundo ele, comprovam os pagamentos realizados pelos estaleiros para contas bancárias localizadas na Suíça e sob controle de diversos operadores do esquema, incluindo Renato Duque, ex-diretor de Serviços indicado pelo PT e que teve recentemente a prisão relaxada por decisão do STF (Supremo Tribunal Federal), em habeas corpus.

Barusco disse que um dos pagamentos foi de US$ 2,1 milhões do estaleiro Jurong para Renato Duque, na Suíça.

Até março de 2013, segundo Barusco, João Vaccari já havia recebido um total de US$ 4,52 milhões do estaleiro Kepell Fels. Vaccari era identificado numa tabela de pagamento de valores pela sigla de "Moch", que significava "mochila", "uma vez que o declarante quase sempre presenciava João Vaccari Neto usando uma mochila".

Ele apntou ainda Milton Pascowitch como operador da Engevix no esquema. Ele foi levado nesta quinta-feira (5) à Polícia Federal para ser ouvido sobre movimentações de dinheiro no exterior.

As tabelas com as inscrições foram entregues por Barusco à Polícia Federal.

Zelada

Em outro depoimento, prestado em 24 de novembro, Pedro Barusco acusou o ex-diretor da Área Internacional Jorge Zelada de também ter recebido propina, antes de chegar ao alto escalão da estatal.

Ele afirmou que recolhia o dinheiro e, em determinada ocasião, chegou a entregar R$ 120 mil em mãos, na casa de Zelada, no Rio de Janeiro. O ex-gerente da Petrobras não soube dizer, porém, se Zelada foi beneficiado pelo suborno quando já estava na cadeira na diretoria da Petrobras.

Barusco diz ter conhecimento que houve pagamentos ilegais a Zelada quando ele ainda era gerente geral da companhia. Cita como exemplo as obras de construção das plataformas P-51 e P-52 como negócios em que Zelada participou da divisão da propina.

Ele admitiu ainda conhecer o lobista Fernando Soares, o Fernando Baiano, apontado como o operador do PMDB no esquema de corrupção na Petrobras, e que Paulo Roberto Costa, ex-diretor de Abastecimento, foi quem o apresentou a Baiano, num evento em Houston.

Segundo Barusco, Costa e Baiano eram amigos.

O PT contra ataca

O presidente nacional do PT, Rui Falcão, criticou a maneira como o tesoureiro do partido, João Vaccari Neto, foi conduzido nesta na quinta-feira (5) pela Polícia Federal para prestar depoimento sobre eventuais doações feitas à legenda por empresas investigadas pela Operação Lava Jato.

O petista afirmou que o episódio faz parte de uma campanha para desestabilizar a sigla e disse estranhar a coincidência do tesoureiro ter sido conduzido à sede da Superintendência da Polícia Federal em São Paulo às vésperas do aniversário de 35 anos do PT.

Segundo o dirigente da sigla, há uma tentativa de "criminalizar o partido" com denúncias falsas. "Não aceitamos o estigma da corrupção", disse. Falcão acrescentou que Vaccari, "nunca pôs dinheiro no bolso".

Falcão afirmou que não perguntou ao tesoureiro sobre o suposto recebimento de 50 milhões de dólares em propina. "Eu não pergunto isso a ele porque seria ofender a honra de um companheiro que eu tenho confiança que nunca pôs dinheiro no bolso".

Incomodado com o momento político e com os ataques ao PT, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva autorizou seus aliados a trabalhar por sua candidatura à Presidência em 2018.

O presidente do PT salientou que Vaccari "sequer foi indiciado".

O petista participou nesta semana de encontro fechado com o comando estadual do PT de Minas Gerais. Na reunião, ele afirmou que o tesoureiro "é o único exposto" na Operação Lava Jato".  Falcão disse no encontro que a mídia, o judiciário e a oposição compõem um triângulo para prejudicar o partido.

Ele conclamou o PT a se defender da oposição, afirmando que as empreiteiras investigadas na Operação Lava Jato fizeram as grandes obras de Minas Gerais, estado que foi governado até o ano passado por um aliado do senador Aécio Neves (PSDB-MG).

Ele admitiu que o momento é delicado. "O cenário não é bom", reconheceu, segundo participantes da reunião.

Antes de entrar na reunião, Falcão minimizou o impacto da operação da Polícia Federal no humor dos petistas. "Não há intranquilidade", afirmou, alegando que as acusações serão desmentidas pelos fatos.

Tarso Genro, ex-governador do Rio Grande do Sul, disse que existe uma "conspiração" em favor do impeachment.

Incomodado com o momento político e com os ataques ao PT, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva autorizou seus aliados a trabalhar por sua candidatura à Presidência em 2018, desde que o movimento não seja atribuído a ele. A articulação seria uma tentativa de fortalecer o partido num momento em que o governo Dilma é acusado de omissão na defesa do PT.


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