Semana On

Terça-Feira 11.mai.2021

Ano IX - Nº 442

Poder

No Governo Bolsonaro, nada é tão ruim que não possa piorar

Guedes diz que ‘chinês’ criou o coronavírus e reforça mal estar com nosso principal fornecedor de insumos para a vacina

Postado em 30 de Abril de 2021 - Congresso em Foco, DW, Leonardo Sakamoto (UOL) - Edição Semana On

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O embaixador da China no Brasil, Yang Wanming, rebateu as falas do ministro da Economia, Paulo Guedes, de que os chineses teriam "inventado o vírus" da covid-19. O representante máximo do governo chinês no país lembrou, em sua rede social, que a China ainda é o principal fornecedor de vacinas e insumos de imunizantes ao Brasil.

A mensagem do embaixador chinês veio horas depois da fala de Paulo Guedes. Em uma reunião do Conselho de Saúde Suplementar, Guedes buscou elencar desvantagens dos orientais em relação aos Estados Unidos.

"O chinês inventou o vírus, e a vacina dele é menos efetiva do que a americana. O americano tem 100 anos de investimento em pesquisa. Então, os caras falam: 'Qual é o vírus? É esse? Tá bom, decodifica'. Tá aqui a vacina da Pfizer. É melhor do que as outras", disse Guedes, em reunião do Conselho de Saúde Complementar, sem saber que o encontro estava sendo gravado e transmitido por redes sociais.

Questionado, Guedes disse que não sabia que estava sendo gravado. Para o deputado Fausto Pinato, líder da frente parlamentar Brasil-China, a fala ameaça a importação de insumos para vacinas contra a covid-19. 

A fala de Paulo Guedes entrou para uma coleção de declarações de membros do gabinete de Jair Bolsonaro sobre a atuação chinesa durante a pandemia. Bolsonaro pessoalmente já criticou a vacina sino-brasileira Coronavac, que hoje é a responsável por cinco a cada seis doses aplicadas no Brasil. Ex-ministros de Bolsonaro, como Ernesto Araújo (Relações Exteriores) e Abraham Weintraub (Educação) já se manifestaram de maneira a tentar associar o vírus ao país,

Ao contrário do dito por Guedes, a vacina da Pfizer, citada por Guedes, não foi desenvolvida por americanos, mas por um casal de médicos alemães, donos da empresa BioNTech. Ambos de origem turca, Özlem Türeci e Ugur Sahin foram condecorados pelo governo alemão, em março, pela "contribuição decisiva" contra a pandemia.

Coronavac é responsável por 80% das imunizações no Brasil

A vacina Coronavac, desenvolvida pelo laboratório chinês Sinovac em parceria com o Instituto Butantan, é responsável por cerca de 80% das imunizações no Brasil - o próprio Guedes já recebeu a vacina. Os outros 20% são da vacina desenvolvida pela farmacêutica AstraZeneca, em parceria com a Universidade de Oxford. No Brasil, ela é produzida pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). Ambas ainda dependem de insumos vindos da China para serem produzidas. 

A Coronavac tem sido objeto de uma batalha política no Brasil entre um dos seus maiores apoiadores, o governador de São Paulo, João Doria, e o presidente Jair Bolsonaro, adversário político do tucano.

Bolsonaro desde o começo se mostrou resistente em aceitar a Coronavac. Em novembro, ele chegou a comemorar a suspensão dos testes clínicos da vacina no Brasil. "Morte, invalidez, anomalia. Esta é a vacina que o Doria queria obrigar todos os paulistanos a tomá-la. O presidente disse que a vacina jamais poderia ser obrigatória. Mais uma que Jair Bolsonaro ganha", escreveu em uma rede social na época.

Antes, em outubro, o então ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, anunciou um acordo firmado com o estado de São Paulo que previa a compra de 46 milhões de doses da Coronavac e a inclusão do imunizante no calendário nacional de vacinação.

No dia seguinte, Bolsonaro desautorizou Pazuello e disse que o governo federal não compraria a vacina chinesa.

Em janeiro deste ano, fontes diplomáticas afirmaram que atrasos no envio de insumos ao Brasil envolviam questões burocráticas e diplomáticas e que a relação do governo Bolsonaro com Pequim está desgastada devido a inúmeros ataques do presidente e de seu entorno ao país asiático.

Acordo com a Pfizer

A vacina da Pfizer-BioNTech mencionada por Guedes, embora aprovada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), ainda não está em uso no Brasil.

Em julho de 2020, a Pfizer ofereceu 70 milhões de doses ao governo brasileiro, que negou a compra, apostando todas as fichas na vacina da AstraZeneca-Oxford. Nos meses seguintes, por várias vezes, o governo criticou as cláusulas do contrato com a Pfizer-BioNTech.

Somente em março de 2021, o governo federal assinou acordo para a aquisição de 100 milhões de doses. No entanto, cerca de 75% delas devem chegar apenas no segundo semestre, em agosto e setembro.

Origem do Coronavírus

No final de março, especialistas da Organização Mundial da Saúde (OMS) apontaram como a causa mais provável da origem da pandemia de covid-19 a transmissão do vírus Sars-CoV-2 de um animal para humanos. A equipe, que esteve na China  para investigar a origem do coronavírus, considerou "extremamente" improvável que ele tenha infectado humanos após um incidente num laboratório.

O grupo concluiu que a causa mais provável da pandemia foi a transmissão do Sars-CoV-2 de morcegos para humanos através de outro animal intermediário. Os especialistas, no entanto, ainda não conseguiram identificar qual teria sido o hospedeiro intermediário do vírus.

Produzido por peritos da OMS e cientistas chineses, o relatório confirma as primeiras previsões apresentadas no início de fevereiro na cidade de Wuhan, onde o vírus foi detectado pela primeira vez, em dezembro de 2019. 

Análise

O cérebro de Paulo Guedes começa a funcionar na hora em que ele acorda e não para até o instante em que ele pensa na China. Com os chineses na cabeça, a língua do ministro da Economia perde o contato com seus neurônios. Foi num desses momentos que o doutor, reunido no Conselho de Saúde Suplementar com os colegas Marcelo Queiroga (Saúde) e Luiz Eduardo Ramos (Casa Civil), teve uma pane mental.

"O chinês que inventou o vírus", disse Paulo Guedes, sem saber que estava sendo filmado e levado ao ar pela internet. "E a vacina dele é menos efetiva do que a americana. O americano tem 100 anos de investimento em pesquisa. Então, os caras falam: 'Qual é o vírus? É esse? Está bom, decodifica'. Está aqui a vacina da Pfizer. É melhor do que as outras."

A fala de Guedes não faz nexo. Supondo-se que desejasse enaltecer a eficiência da pesquisa científica dos Estados Unidos, escolheu o exemplo errado. A vacina da Pfizer não é uma realização da logomarca americana. Foi desenvolvida pelo laboratório BioNTech, que pertence a um casal de alemães de origem turca.

Repetindo: Desejando afagar os EUA, Guedes enalteceu um laboratório pertencente a alemães-turcos. E deu uma joelhada na China. O ministro revelou-se, de resto, um infectologista de quinta categoria, sem comprovação científica. A tese segunda a qual o vírus seria uma fabricação dos chineses para infectar o mundo não fica em pé.

A Organização Mundial da Saúde averiguou a suspeita. Concluiu que o mais provável é que o coronavírus tenha sido transmitido de um morcego para outro animal. Esse animal, ainda não identificado, teria contaminado o ser humano.

De resto, numa conjuntura em que faltam imunizantes e sobra cloroquina, Guedes já deve ter notado que a melhor vacina é aquela que chega até o braço. A da Pfizer ainda demora a chegar. Bolsonaro retardou a compra. Receava que os vacinados virassem jacaré.

O próprio Guedes tomou duas doses da chinesa Coronavac, distribuída no Brasil pelo Instituto Butantan, vinculado ao governo tucano de João Doria. "Nós somos muito gratos, somos muito gratos à China por ter nos enviado a vacina", diria Guedes horas depois.

O grande erro da humanidade é a conversa fiada não doer. O azar de Paulo Guedes é que os gênios da Pfizer ainda não inventaram uma vacina contra a tolice.

Dez vezes em que Paulo Guedes provou ser o mais bolsonarista dos ministros

Paulo Guedes cansou de dar provas de que é o mais bolsonarista dos ministros de Jair Messias, com rompantes de demofobia, dificuldade de sentir empatia e ausência de autocontrole. Mas uma parte dos formadores de opinião ainda insiste em passar pano, afirmando que ele é "técnico".

De tempos em tempos, Guedes parece se revoltar com isso. Quer mostrar ao mundo que é bolsonarista sim.

Para ajudá-lo, a coluna reuniu dez vezes em que causou orgulho ao chefe. Confira:

1) Criticou o aumento da expectativa de vida dos brasileiros

O ministro da Economia reclamou, nesta terça (27), em reunião do Conselho de Saúde Suplementar, que o aumento da expectativa de vida dos brasileiros dificulta que o governo feche as contas. "Todo mundo quer viver 100 anos, 120, 130. Não há capacidade de investimento para que o estado consiga acompanhar."

2) Acusou a China, nossa fornecedora de vacinas

No mesmo encontro, afirmou que o "chinês inventou o vírus" da covid-19, sem apresentar provas, ecoando as teorias conspiratórias da extrema direita, de que o coronavírus nasceu num laboratório do gigante asiático. Também reclamou que as vacinas desse país são piores que as dos Estados Unidos. Vale lembrar que, semanas atrás, o Brasil estava implorando para a China liberar mais insumos para fabricarmos imunizantes. Depois, tentou se justificar, dizendo que até tomou a CoronaVac - versão adaptada do "até tenho amigos"...

3) Afirmou que bastariam R$ 5 bilhões para acabar com o coronavírus

"Com 3 bilhões, 4 bilhões ou 5 bilhões de reais a gente aniquila o coronavírus. Porque já existe bastante verba na Saúde, o que precisaríamos seria de um extra." A declaração foi dada por ele, em entrevista à revista Veja publicada em 13 de março de 2020. De acordo com o site de transparência do Tesouro Nacional, o governo federal gastou R$ 524 bilhões, em 2020, a maior parte com o pagamento do auxílio emergencial (R$ 293,11 bilhões).

4) Reclamou de trabalhadoras empregadas domésticas indo à Disney

"O câmbio não está nervoso, [o câmbio] mudou. Não tem negócio de câmbio a R$ 1,80. Todo mundo indo para a Disneylândia, empregada doméstica indo para Disneylândia, uma festa danada." Durante um evento em Brasília, no dia 12 de fevereiro de 2020, o ministro cometeu um de seus maiores sincericídios. Percebendo o absurdo transcrito acima, quis corrigir, afirmando que (antes que o acusassem daquilo que ele realmente disse), na sua opinião, "todo mundo tem que ir para a Disneylândia, conhecer um dia, mas não três, quatro vezes por ano". E sugeriu substituir por atrações nacionais - para a alegria de seu então colega de Esplanada e dono de laranjal, Marcelo Álvaro Antônio, ministro do Turismo.

5) Chamou servidores públicos de parasitas

Alguns dias antes, Paulo Guedes já havia causado celeuma ao chamar os funcionários públicos de "parasitas" do orçamento nacional, em um evento no Rio de Janeiro. "O hospedeiro [governo] está morrendo, o cara virou um parasita", afirmou, criticando a política de aumentos salariais de servidores no dia 7 de fevereiro. Generalizou o trabalho de servidores públicos, que cuidam da nossa saúde, de nossa educação, de nossa segurança. Diante da repercussão extremamente negativa, disse que sua fala foi descontextualizada (desculpa padrão...) e que reconhecia a qualidade do serviço desses trabalhadores, citando até a família e amigos.

6) Insinuou um novo AI-5 em caso de protestos de rua

"Não se assustem, então, se alguém pedir o AI-5." O ministro da Economia, de tempos em tempos, nos lembra o quanto é fã do modelo chileno, com uma economia neoliberal erguida sobre as fundações do governo autoritário, assassino, estuprador e torturador do general Augusto Pinochet. A declaração foi dada, no dia 25 de novembro de 2019, em uma coletiva de imprensa em Washington DC. De forma irresponsável, chamou possíveis manifestações de rua contra as reformas de "quebradeira", fazendo uma analogia ao que estava acontecendo no Chile. Vale lembrar que o país sul-americano estava em convulsão por conta da falta de serviços públicos de qualidade, das baixas aposentadorias mas, principalmente, da violência com a qual o governo Sebastián Piñera reprimiu as manifestações.

7) Criticou pobres por não pouparem (por que será, né?)

Ao defender o regime de capitalização (no qual cada um faz uma poupança para a sua própria aposentadoria), em detrimento ao de repartição (em que os trabalhadores da ativa contribuem para as pensões dos aposentados), Guedes lamentou que o Congresso Nacional tenha vetado a previsão de mudança de um para outro. E mergulhou em insensibilidade e preconceito. "Com ele, você colocaria o Brasil para crescer, aumentaria taxa de poupança, educaria financeiramente famílias mais pobres. Um menino, desde cedo, sabe que ele é um ser de responsabilidade quando tem de poupar. Os ricos capitalizam seus recursos, os pobres consomem tudo", afirmou em entrevista à Folha de S.Paulo, em novembro de 2019.

8) Afirmou que são os pobres que destroem o meio ambiente

Diante do frio no Fórum Econômico Mundial, em Davos, na Suíça, Guedes afirmou que o grande inimigo do meio ambiente é a pobreza. Disse que [os pobres] "destroem porque estão com fome", em janeiro de 2019. Provou que vive numa realidade paralela, onde a Vale não causou duas catástrofes de lama tóxica em Brumadinho e Mariana, destruindo vidas pelo caminho. Onde não há indígenas (que detêm os maiores índices de preservação de vegetação nativa em seus territórios) sendo expulsos de suas terras em nome da expansão agropecuária, como no Mato Grosso do Sul. Onde o comportamento avarento de indústrias não impediu a redução do enxofre no combustível usado por veículos, o que causa câncer e morte nas grandes cidades.

9) Xingou a esposa do presidente da França

"O Macron falou que estão colocando fogo na Amazônia. O presidente devolveu, falou que a mulher do Macron é feia. O presidente falou a verdade, ela é feia mesmo. Mas não existe mulher feia, existe mulher observada do ângulo errado ", disse Paulo Guedes, no evento "A Nova Economia do Brasil", no dia 5 de setembro de 2019. O que Brigitte Macron tem a ver com a Nova Economia do Brasil não sabemos, mas o machismo e a grosseria animou os seguidores fiéis do presidente, que estavam irritados com as críticas do presidente francês a Bolsonaro.

10) Bolsonaro tem que ganhar muito mais do que recebe hoje

E, claro, a relação não poderia terminar sem uma puxadinha de saco no patrão. Enquanto o cidadão comum estava fazendo milagre para comprar o arroz e o feijão, que estavam sumidos ou pela hora da morte, o ministro da Economia defendeu que o seu chefe, o presidente da República, deveria receber "muito mais do que recebe". Bolsonaro tem um salário de quase R$ 31 mil mensais, além de palácio, comida, roupa lavada, emas para brincar, helicóptero para dar carona no casamento do filho e um cartão corporativo que não discrimina os gastos ao público. "A Presidência da República, o Supremo, evidente que eles têm que receber muito mais do que recebem hoje. Pela responsabilidade do cargo, pelo peso das atribuições, pelo mérito em si para poder chegar a uma posição dessas", disse Guedes em setembro de 2020.


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