Semana On

Sábado 24.ago.2019

Ano VII - Nº 360

Comportamento

O fim do tabu no mundo da tatuagem

Pessoas com mais de 50 aderem à tatuagem para registrar memórias.

Postado em 07 de Fevereiro de 2014 - Redação Semana On

Tucunaré de 40 cm tatuado do lado esquerdo das costas de Bravin Avener. Tucunaré de 40 cm tatuado do lado esquerdo das costas de Bravin Avener. Foto: Folhapress

Clique aqui e contribua para um jornalismo livre e financiado pelos seus próprios leitores.

A tatuagem amadureceu. Cada vez mais, ela deixa de ser vista como marginal, como um símbolo de contestação ou uma escolha exclusivamente juvenil. Na nova fase - que vem se consolidando, segundo observam tatuadores que trabalham há décadas no ramo -, os desenhos na pele ganharam um crescente número de adeptos entre as pessoas com mais de 50 anos. O que antes era símbolo de rebeldia se tornou expressão de liberdade.

"Eu me acho bonito, saudável", diz Luiz Fernando Bravin, 60, administrador de empresas que tem quatro elaboradas tatuagens (nas costas, no peito e nos dois braços) e já calculou em detalhes o que irá registrar nos próximos três desenhos. "Tenho um tucunaré [peixe brasileiro], preso na bandeira do Brasil, pendurado em um anzol", descreve a marca de 40 cm, nas costas, que foi a estreia no universo da tatuagem há quatro anos.

Um ano depois, com o nascimento da neta, decidiu registrar o pezinho da bebê "em cima do coração", ao lado dos nomes dos outros netos. Na sequência, veio a inspiração para uma faixa no braço esquerdo, com símbolos, animais e os nomes dos filhos. Para completar, o braço direito recebeu um dragão que irá expelir fogo (o detalhe incandescente é um dos desenhos programados).

Segundo o tatuador Kallel Henrique, do estúdio Kallel Tattoo, em Campo Grande (MS), este novo público é formado por pessoas que antes tinham preconceito e hoje, com a evolução da tatuagem, quebraram este tabu: “Hoje a tatuagem oferece mais qualidade e personalização em cada desenho, atraindo a atenção de todos, inclusive dos mais velhos. Claro que não podemos ignorar o fato de que há uma parcela de clientes que procuram os estúdios para a cobertura ou reforma de tatuagens feitas na juventude ou para extravasar aquela vontade reprimida de anos”, afirma.

Libertação

Para Mirian Goldenberg, antropóloga, professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro, a tatuagem como algo não desviante é um conceito recente e que encontra nas pessoas mais velhas uma correspondência com o "discurso da libertação" que surge com a idade.

"É como se fosse uma segunda vida. Vejo que decidem se tatuar nesse momento, primeiro, porque é algo mais 'normal', segundo, porque se sentem livres para fazer o que bem entenderem."

Na opinião da escritora e jornalista Leusa Araújo, que pesquisou por mais de dois anos o mundo das "tattoos", apesar da maior aceitação, tatuar-se continua a ser uma decisão exposta a preconceitos.

"O que há hoje é uma maneira diferente de lidar com o próprio corpo. A liberdade de escolha parece ter ganho maior importância, como se houvesse uma afirmação de que ao menos o corpo ainda é um lugar próprio. Então faço dele um depoimento do que sou", diz ela, autora do livro "Tatuagem, Piercing e outras Mensagens do Corpo".

Frases e nomes estão entre desenhos preferidos pelos mais velhos

“Homenagens aos filhos ou a família e temas religiosos são muito procurados por este público mais experiente. Porém, assim como a maioria das pessoas que querem uma tatuagem elas fazem algo com que se identificam e que tenha um significado. Outras vezes optam simplesmente pela estética”, afirma Kallel.

Aos 57 anos, a pediatra paulistana D'Eua de Mello decidiu fazer do corpo uma espécie de livro com experiências e gostos acumulados ao longo da vida. A primeira tatuagem apareceu há dez anos, depois de levar os filhos - que desejavam se tatuar - a um estúdio. Eles titubearam e foram se decidir pelos desenhos semanas mais tarde. A mãe, não: chegou, sentou e saiu tatuada. "Aos 47, você sabe o que quer da vida. Meus filhos acharam o máximo, até porque era algo que não estava na programação."

A primeira tatuagem foi o símbolo do mantra hindu "om", de 3 cm, na nuca. Depois vieram outros registros, maiores e mais evidentes. "É viciante. Para mim, isso é uma obra de arte." A escolha seguinte, três anos depois, foi gravar nas costas um símbolo de proteção da casa, retirado do feng shui.

Há três anos veio a terceira, em referência a "eles" - "Ba" e "Du", como ela chama os dois filhos. E, em dezembro passado, resolveu aumentar a homenagem e incrementar os arabescos do desenho, que agora se estende até o braço. "Não tenho mais nada discreto", brinca.

Ainda em dezembro, fez outro "presente", dessa vez para o marido, com quem está casada há mais de 30 anos. A ideia do desenho veio à cabeça subitamente, quando D'Eua escutava Ana Cañas cantando "La Vie en Rose". Não deu outra: a frase "C'est lui pour moi/ Moi pour lui dans la vie" (É ele para mim / Eu para ele, na vida) foi parar no ombro da paulistana.

O exemplo de D'Eua deixa evidente uma das tendências mais marcantes atualmente no universo da tatuagem: as escritas com nomes de pessoas amadas, um dos desenhos mais pedidos.

Os clientes com mais de 50 anos não parecem estar muito preocupados com o que os outros vão pensar. O administrador de empresas Luiz Fernando Bravin já se acostumou com os olhares de surpresa quando os amigos pescadores veem suas tatuagens. "As pessoas estranham, acham que é coisa de velho maluco. Meus companheiros falam: 'Bravin, o que é isso?'. Aí eu digo: 'Ah, esse foi um peixe que eu pesquei ontem, e ele não quis mais largar de mim'", conta sobre o tucunaré que carrega nas costas.

A pediatra D'Eua diz que os desenhos na pele não a atrapalham em nenhum sentido, nem profissionalmente --pelo contrário, os pais dos pacientes até se sentem mais próximos, segundo ela.

Cuidados

Além da vontade de refletir uma etapa de plenitude, para alguns a tatuagem também representa um desejo de cobrir cicatrizes e embelezar o corpo, iniciativa que a dermatologista Monica Carvalho considera interessante, especialmente nos casos de quem passou por cirurgias plásticas estéticas ou de redução de estômago.

Mas nem tudo é favorável na decisão de fazer a tatuagem. Por causa de doenças crônicas mais frequentes com o passar da idade - como diabetes e pressão alta -, o procedimento depois dos 50 anos requer alguns cuidados extras, segundo a dermatologista.

Kallel Henrique alerta para os cuidados necessários: “Na hora de tatuar uma pessoa mais velha o profissional precisa ter um cuidado maior ao aplicar o pigmento, tendo sempre cautela, pois a pele é bem mais fina. Já o tatuado por ter a cicatrização mais lenta, além de ter os cuidados redobrados, deve evitar alimentos gordurosos e esforço físico por uns dias”.


Voltar


Comente sobre essa publicação...