Semana On

Domingo 11.abr.2021

Ano IX - Nº 438

Poder

Entre golpistas e velhacos

Nenhuma das trocas ministeriais visa a melhorar a administração. Prestaram-se somente a aplacar as neuroses do presidente e a saciar os apetites da família Bolsonaro, além da voracidade do Centrão

Postado em 02 de Abril de 2021 - Estadão, Josias de Souza (UOL) - Edição Semana On

Foto: Sérgio Lima/Poder360 Foto: Sérgio Lima/Poder360

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A anunciada substituição dos comandantes do Exército, da Marinha e da Aeronáutica foi o desdobramento natural da resistência da cúpula das Forças Armadas à pretensão do presidente Jair Bolsonaro de aliciá-la para propósitos autoritários.

O comando militar vem agindo patrioticamente e em respeito à Constituição, que confere às Forças Armadas o papel de instituição de Estado, e não de governo, a despeito das inúmeras tentativas de Bolsonaro de transformá-las em guarda pretoriana.

Seria inaceitável humilhação, para a corporação militar, submeter-se aos caprichos desvairados de um ocupante temporário da Presidência. Já basta o papel vergonhoso desempenhado no Ministério da Saúde pelo general da ativa Eduardo Pazuello, que, como se fosse um recruta, se empenhou obedientemente em cumprir as ordens estapafúrdias de Bolsonaro.

A grave crise foi a culminação de uma reforma ministerial atabalhoada, que mostra um governo submetido ao mandonismo de um presidente que, inseguro sobre sua capacidade, se imagina cercado de inimigos por todos os lados. Ele só confia nos filhos e naqueles desqualificados que lhe prestam obsequiosa vassalagem.

Fernando Azevedo, por exemplo, foi demitido sumariamente do Ministério da Defesa porque, em suas palavras, preservou “as Forças Armadas como instituições de Estado” – algo inadmissível para Bolsonaro, que sempre se referiu ao Exército como “meu Exército”. Para seu lugar, Bolsonaro escolheu Walter Braga Netto, outro general da reserva, que estava na Casa Civil e é conhecido no meio militar como um disciplinado cumpridor de missões.

Assim como a mudança na Defesa, nenhuma das trocas ministeriais anunciadas nos últimos dias visa a melhorar a administração federal. Prestaram-se somente a aplacar as neuroses do presidente e a saciar os apetites da família Bolsonaro, além da voracidade do Centrão. Os novos ministros das Relações Exteriores, Carlos França – que nunca chefiou uma Embaixada –, e da Justiça, Anderson Torres – delegado da Polícia Federal –, têm como principal credencial a proximidade com os filhos do presidente. Já a nova ministra da Secretaria de Governo, Flávia Arruda (PL-DF), deputada de primeiro mandato, só foi colocada ali para ser despachante dos interesses do Centrão, dispensando-se intermediários.

Com exceção do extravagante diplomata que chefiava o Itamaraty e foi substituído por pressão de quase todo o Congresso, perderam o emprego no governo Bolsonaro justamente aqueles que, como o ex-ministro da Defesa, se recusaram a avalizar a truculência do presidente.

Foi o caso de José Levi, demitido da Advocacia-Geral da União porque se negou a assinar a ação que Bolsonaro encaminhou ao Supremo Tribunal Federal para questionar as medidas de distanciamento social adotadas por governadores de Estado contra a pandemia de covid-19. A atitude de Levi levou Bolsonaro a assinar ele mesmo a petição, o que foi considerado como “erro grosseiro” pelo ministro Marco Aurélio Mello ao rejeitar a ação no Supremo.

Levi foi substituído por André Mendonça, que estava no Ministério da Justiça e ali foi fidelíssimo cumpridor de ordens de Bolsonaro, a quem já chamou de “profeta”. Para o lugar de Mendonça, Bolsonaro escolheu um amigão de Flávio Bolsonaro. Fica tudo em família.

Muito se dirá sobre quem ganha mais com as mudanças, mas certamente só há um perdedor: o cidadão brasileiro, em nome de quem todos em Brasília dizem trabalhar. Enquanto Bolsonaro brinca de césar, o Centrão, senhor de fato do governo, patrocina um Orçamento criminoso, que ignora despesas obrigatórias como se não existissem e distribui dinheiro à farta para emendas parlamentares. Não por acaso, a presidente da Comissão Mista de Orçamento era justamente a deputada Flávia Arruda, apadrinhada do presidente da Câmara e prócer do Centrão, Arthur Lira, e que agora é a ministra encarregada da articulação política do governo – ou do Centrão, o que dá no mesmo.

Tudo isso em meio a uma pandemia que já matou mais de 300 mil pessoas e a uma gravíssima crise econômica. Parte de Brasília está entregue a golpistas delirantes e a velhacos. Está claro que os brasileiros só podem contar consigo mesmos.

Bolsonaro dá ao ministério aparência de bunker

Acossado pelo coronavírus, Bolsonaro decidiu preparar o seu governo para o pior. Planeja sua deterioração com esmero. Faz da reforma do ministério um processo de transformação do governo num bunker. Nele, ficam o presidente, os filhos, o centrão e auxiliares que se dispõem a fazer qualquer coisa para protegê-lo. No bunker também fica uma fábula que Bolsonaro chama de "meu Exército."

O presidente abriu a semana dançando a coreografia da enganação. Rendeu-se definitivamente ao centrão. Mas dissimulou sua fraqueza. Enquanto levava a cabeça do antichanceler Ernesto Araújo à bandeja e assistia à invasão do Planalto pelo centrão, Bolsonaro simulou força demitindo de supetão o ministro da Defesa, general Fernando Azevedo e Silva.

Diluiu num caldeirão aquecido pelo risco de crise militar a queda anunciada do pior chanceler da história do Itamaraty e a chegada previsível do fisiologismo à principal cidadela do governo. A deputada Flávia Arruda virou coordenadora política da Presidência da República, com gabinete no coração do Planalto. As companhias da deputada a precedem.

Flávia é mulher de José Roberto Arruda, primeiro governador da história preso por corrupção no exercício do mandato. Arruda frequenta o verbete da enciclopédia como patrono do mensalão do DEM de Brasília. Flávia é filiada ao PL, partido comandado por Valdemar Costa Neto, ex-presidiário do mensalão do PT. A deputada chegou ao Planalto apadrinhada por Arthur Lira, o réu que preside a Câmara.

Para acomodar Flávia, Bolsonaro envolveu numa dança de cadeiras os generais que comandam escrivaninhas no Planalto. Transferiu Luiz Eduardo Ramos, da articulação política, para a Casa Civil —de onde retirou Braga Netto, enviado para a pasta da Defesa.

Pujol caiu em desgraça junto a Bolsonaro por resistir à entrada da política nos quarteis e criticar a presença de generais da ativa em postos civis, como ocorria com o general Eduardo Pazuello, demitido dias atrás da pasta da Saúde. Pujol contava com a solidariedade de Azevedo e Silva, que se vangloriou na carta de demissão de ter assegurado algo que não deveria estar ameaçado: "Preservei as Forças Armadas como instituições de Estado", ele escreveu.

Como o "meu exército" é apenas uma fábula e o apoio incondicional do centrão é uma lenda, a única coisa certa sobre a sorte de Bolsonaro é que ela se tornou mutável. Às voltas com a síndrome do que está por vir, o presidente blinda a si mesmo. Acomoda em postos sensíveis gente que está disposta a tudo, menos contrariá-lo.

Na pasta da Justiça, por exemplo, alojou o delegado da Polícia Federal Anderson Torres, um aliado das causas armamentistas e corporativistas da Bancada da Bala, um amigo dos filhos Flávio e Eduardo Bolsonaro. Desalojado da Justiça, André Mendonça, terrivelmente evangélico e devoto fervoroso do mito, retorna à Advocacia-Geral da União.

A popularidade do presidente cai na proporção direta do crescimento do número de mortos por Covid. As reformas econômicas viraram pó. A inflação está de volta. E o Posto Ipiranga tornou-se lojinha de conveniências políticas. Mas no bunker de Bolsonaro não há espaço para vozes dissonantes. Ali, o governo opera com uma verdade própria, desligando-se da realidade.

Afinal, o presidente assegura que o Brasil é um dos países que mais vacinam no mundo. E tudo acabará bem, porque Bolsonaro nunca disse que a pandemia era uma "gripezinha" e já garantiu "mais de 500 mil doses" de imunizantes. Bem verdade que o presidente mente um pouco. Mas só há crédulos no bunker.

O presidente não recruta os melhores nomes. Ele prefere os mais convenientes.


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