Semana On

Domingo 11.abr.2021

Ano IX - Nº 438

Brasil

Mitomania alçou presidente à liderança global em mortes diárias por covid

Ignorem o presidente: não se deve perder tempo corrigindo as bobagens de Bolsonaro acerca do estado de sítio e do direito de ir e vir

Postado em 02 de Abril de 2021 - Leonardo Sakamoto (UOL), Estadão – Edição Semana On

O presidente da República, Jair Bolsonaro Foto: Evaristo SA / AFP O presidente da República, Jair Bolsonaro Foto: Evaristo SA / AFP

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Todos os governantes mentem. A questão é que as mentiras de Bolsonaro - negando a gravidade da covid-19, cravando a inutilidade de quarentenas, incentivando o consumo de vermífugo, dizendo que aglomerar não faz mal, atacando a eficácia das vacinas - matam.

No dia 22 de março do ano passado, ele desprezou a pandemia e disse que o coronavírus mataria menos de 800 pessoas. Neste Primeiro de Abril, chegamos a 325.559 óbitos registrados. O número parece até mentira, mas é a realidade que construímos na última eleição presidencial.

Com o recorde de óbitos dos últimos dias, o país ultrapassa a média semanal de 3 mil mortes. Em um dia, morreu mais gente aqui por covid do que nos Estados Unidos, México, Polônia, Itália, Índia e Ucrânia juntos, segundo a Organização Mundial da Saúde.

Há colegas jornalistas com pudor de dizer abertamente "Bolsonaro mente" achando que isso extrapola o papel da imprensa. Mas quando a mentira é usada como instrumento de governo, da mesma forma que foi empregada como ferramenta de sua campanha eleitoral e como base de seus mandatos parlamentares, não afirmar isso com todas as letras é omissão. Quando as mentiras matam, não batizá-las como o que são é, no mínimo, cumplicidade.

Contadas à exaustão, as mentiras de Bolsonaro tornam-se farol e norte para milhões de fãs e seguidores. Ele não precisa que o Brasil inteiro acredite nelas, apenas que sejam repetidas por uma parcela de ingênuos, outra de oportunistas, outra ainda de sacanas, criando uma versão "alternativa" dos fatos. Se 16% acreditarem, o impeachment já fica difícil.

A mentira é parte estrutural de sua gestão, estando presente em discursos, entrevistas, reuniões, para refutar quaisquer fatos e dados comprovados que estejam na contramão dos desejos do presidente. Quando a mentira é muito descarada e é pega no pulo, Bolsonaro adota a tática Donald Trump, afirmando que nunca disse o que efetivamente disse e chamando a imprensa de "fake news".

Como muitos de seus seguidores não se dão ao trabalho de checar em fontes confiáveis, a culpa passa a ser dos "jornalistas que querem derrubar o presidente".

A letalidade do vírus? Invenção dos telejornais da noite. Quarentena? Coisa de brasileiros covardes. Mortes em massa? Contabilidade mentirosa dos governadores. Inação do governo federal? O Supremo Tribunal Federal não o deixou agir.

O que o STF disse é que governadores e prefeitos também deveriam participar da elaboração da política contra a pandemia. Ou seja, lembrou que somos uma federação que deve ser gerida com base no diálogo entre União, Estados e municípios. Mas essa mentira é repetida por seus seguidores à exaustão.

Ao vender "fatos alternativos", semeia mortes e desemprego. Morte por muitos terem acreditado nele de que poderiam ir para a rua viver sua vida normal. Desemprego, pois a crise foi artificialmente alongada por que o governo não quis combater a pandemia.

Afinal, o que afasta os negócios não são quarentenas, mas pessoas morrendo. De acordo com a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (PNAD) Contínua, divulgada no último dia 31, chegamos ao recorde de 14,3 milhões de desempregados - número subdimensionado porque muitos não procuram serviço por conta da pandemia.

Críticos à política do presidente acreditaram que as mentiras sobre a pandemia, de tão cabeludas, tropeçariam na montanha de cadáveres. Eu fui um deles. Mas a montanha de 300 mil chegou e o que vimos foi que os brasileiros se adaptaram à tragédia. E, ouvindo-a diariamente, rotinizaram as mentiras. Mesmo que tenhamos chegado a quase quatro mil mortos em apenas 24 horas.

Talvez a maior delas é que nossa democracia é sólida e vai suportar tudo isso. Democracias não morrem apenas por golpes de Estado. Elas podem ir se esgarçando até desaparecerem, nem todas se vão de uma forma épica. Às vezes, são como uma pessoa que não encontrou leito de UTI covid e vai deixando o mundo devagarinho, sufocando em silêncio, numa maca de um corredor em uma unidade de pronto-atendimento.

Bolsonaro gosta da passagem bíblica do "Conhecereis a verdade e ela vos libertará" (Evangelho de João 8:32). Só não explica que a verdade é ele quem constrói.

Ignorem o presidente

O Brasil chegou ao ponto em que é urgente deixar de dar ouvidos ao que diz o presidente da República. Jair Bolsonaro se tornou em si mesmo um ruído que desnorteia os brasileiros sobre como devem se comportar diante da pandemia de covid-19, que no momento mata mais de 3 mil pessoas por dia no País.

Nenhum esforço de comunicação no sentido de orientar corretamente os cidadãos a respeito das medidas de prevenção será bem-sucedido enquanto o chefe de governo continuar contrariando as mensagens das próprias autoridades federais mobilizadas contra o vírus, reunidas no chamado Comitê de Coordenação Nacional para o Enfrentamento da Pandemia de Covid-19.

Esse comitê realizou na quarta-feira passada sua primeira reunião formal. A lista de participantes mostra a importância que se pretende dar a essa iniciativa. Estavam presentes o presidente Bolsonaro, os presidentes da Câmara, Arthur Lira, e do Senado, Rodrigo Pacheco, os ministros da Saúde, Marcelo Queiroga, das Comunicações, Fábio Faria, da Ciência, Tecnologia e Inovação, Marcos Pontes, e da Secretaria de Governo, Flávia Arruda, além de representantes do Ministério da Justiça, do Judiciário e do Ministério Público.

Pois bem. Ao final desse encontro, o deputado Arthur Lira e o senador Rodrigo Pacheco falaram com os jornalistas como se fossem os líderes de fato da iniciativa – o presidente Bolsonaro, a quem cabe formalmente a direção do grupo, já não estava no local.

Os parlamentares informaram que o comitê discutiu a centralização das ações no Ministério da Saúde e também a compra de vacinas pela iniciativa privada, além de outras medidas já aprovadas pelo Congresso. O senador Pacheco, então, enfatizou a necessidade de um “alinhamento da comunicação social do governo e da assessoria de imprensa do presidente da República no sentido de haver uma uniformização do discurso de que é necessário se vacinar, de que é necessário usar máscara e higienizar as mãos e de que é necessário o distanciamento social, de modo a prevenirmos o aumento da doença em nosso país”.

O ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, reforçou essa mensagem. Embora tenha se empenhado em não contrariar demais o chefe, ao dizer que é muito difícil adotar medidas mais duras de isolamento social – de resto atacadas dia e noite por Bolsonaro –, o ministro pediu que a população evitasse “aglomerações desnecessárias” no feriado e sublinhou que “é importante usar máscara, manter o isolamento”.

Quando parecia que finalmente o governo federal havia decidido parar de sabotar não só as vacinas, mas também as medidas de distanciamento e o uso de máscaras, eis que o presidente Bolsonaro, minutos depois das declarações dos integrantes do comitê, saiu de seu gabinete e, a título de falar sobre a volta do auxílio emergencial, desatou a criticar as restrições impostas por governadores para conter a pandemia.

Sem máscara, Bolsonaro declarou que “o Brasil tem que voltar a trabalhar” e disse que as determinações dos governadores “têm superado em muito até mesmo o que seria um estado de sítio”, pois envolvem “supressão do direito de ir e vir”.

Nem se deve perder tempo corrigindo as bobagens de Bolsonaro acerca do estado de sítio e do direito de ir e vir. O mais grave é a reiteração de declarações que prejudicam todo o trabalho de esclarecimento da população sobre os cuidados a serem tomados para evitar a covid-19.

Embora seja chocante, tal comportamento não surpreende. Bolsonaro só engoliu o tal comitê de enfrentamento da pandemia por pressão do Centrão, o grupo político que lhe dá sobrevida. Quando perceberam o potencial de letalidade da pandemia sobre seus projetos eleitorais, esses oportunistas trataram de enquadrar Bolsonaro, forçando-o não só a formar o comitê, com um ano de atraso, como a acelerar a vacinação. De quebra, o presidente, ao anunciar a iniciativa, há alguns dias, apareceu de máscara, para simular seriedade.

Mas nem o comitê é muito efetivo – afinal, não tem representantes de prefeitos e de governadores, que lidam diretamente com a pandemia – nem o presidente é sério. Enquanto Bolsonaro tiver poder para atrapalhar, a única comunicação eficiente, infelizmente, será a dos óbitos.


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