Semana On

Domingo 11.abr.2021

Ano IX - Nº 438

Brasil

Quantas mortes serão necessárias para o Senado instalar a CPI da Pandemia?

Bolsonaro luta para não ser culpado por 'negligência criminosa, enquanto bolsonaristas começam a se arrepender nas UTIs

Postado em 01 de Abril de 2021 - Leonardo Sakamoto e Rodrigo Ratier (UOL), Mariana Sanches (BBC News) - Edição Semana On

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O Brasil continua contabilizando recordes de mortes diárias causadas pela Covid-19. Enquanto isso, o presidente da República continua defendendo remédios que não são comprovadamente eficazes para o tratamento da covid-19. Enganadas pela narrativa do vermífugo salvador chancelada por ele, pessoas infectadas estão insistindo no "tratamento", levando mais tempo para procurar ajuda e morrendo.

Muitos dos que procuram hospitais e unidades de pronto-atendimento não conseguem atendimento devido à superlotação. Se o governo tivesse liberado os recursos para a garantia de leitos de UTI quando os Estados pediam, talvez a tragédia fosse menor agora.

E nada adianta leitos se não houver oxigênio e sedativos para intubação e médicos, enfermeiros e técnicos em quantidade suficiente para sustentar vidas. Infelizmente, a gestão federal se omitiu do papel de articular o combate ao coronavírus e destinar insumos e recursos humanos para os locais que precisavam.

Preferiu culpar prefeitos e governadores por adotarem quarentenas e lockdowns, alegando prejuízos econômicos. Por outro lado, promoveu aglomerações e incentivou todos a voltarem a trabalhar, mesmo que isso significasse mais mortes.

Montado em um profundo desprezo pela vida e com olhos apenas à sua reeleição, Jair Bolsonaro transformou o Brasil em ameaça sanitária global, sopa de novas variantes de covid e cemitério a céu aberto do mundo.

Mesmo assim, a instauração de uma CPI da Pandemia está travada no Senado Federal. A justificativa é de que atrapalharia os esforços de combate à doença. Na verdade, ela seria uma das únicas formas, neste momento, de frear um massacre em andamento, pois obrigaria o presidente a abandonar o negacionismo e a irresponsabilidade.

A questão é que, como já escrevi, não foi apenas Bolsonaro que nos trouxe até este momento. Ele teve ajuda. De psicopatas, de oportunistas, de covardes, de pusilânimes, de pessoas que se preocupam só com sua felicidade e seu lucro enquanto uma montanha de mortos se ergue no horizonte. Isso precisa ser investigado para que essa cadeia de eventos cesse e as pessoas parem de morrer. Muitos dos seus sócios na tragédia, aliás, fazem de tudo para abafar o caso.

As lives presidenciais já mostraram que os avisos dos líderes do Congresso Nacional para o presidente mudar o comportamento são tratados como bravatas, pois ele continua falando a seus seguidores como no começo da pandemia, quando tratou a doença como "gripezinha" e "resfriadinho".

Deve haver algum patamar de mortos por dia que destravará a CPI da Pandemia no Senado Federal. Qual será? Quatro mil? Cinco mil? Seis mil?

Ou vamos conseguir provar que o eleitor brasileiro não sabe escolher parlamentar capaz de sentir empatia?

Bolsonaro luta para não ser culpado por 'negligência criminosa'

Estudioso de ditaduras latinas e diretor do Projeto de Documentação Brasileiro do Arquivo de Segurança Nacional Americano, em Washington D.C., Peter Kornbluh tem acompanhado com atenção os movimentos recentes na política nacional do Brasil.

O presidente Jair Bolsonaro trocou 6 ministros e toda a cúpula militar. Embora uma reforma ministerial fosse aguardada para acomodar os interesses políticos dos líderes do chamado centrão, base de sustentação de Bolsonaro no Congresso, a saída do ministro da Defesa, Fernando Azevedo e Silva, e a troca dos comandantes do Exército, Marinha e Aeronáutica surpreenderam.

Em sua carta de demissão, Azevedo e Silva afirmou que "neste período (à frente da pasta), preservei as Forças Armadas como instituições de Estado", o que provocou questionamentos sobre uma possível tentativa de politização do Exército Brasileiro.

Ao longo de março, Bolsonaro repetiu algumas vezes o termo "meu exército" para se referir às Forças Armadas do país. "O meu Exército não vai para a rua para cumprir decreto de governadores. Não vai. Se o povo começar a sair de casa, entrar na desobediência civil, não adianta pedir o Exército, porque meu Exército não vai. Nem por ordem do papa. Não vai", afirmou Bolsonaro, em 19/03, sobre a possibilidade de que os poderes estaduais impusessem lockdown para tentar conter a pandemia de covid-19, que já matou quase 318 mil.

Para Peter Kornbluh, o rearranjo de Bolsonaro nas Forças Armadas e nos demais ministérios é uma tentativa de sobreviver ao que o presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), chamou, na semana passada, de "remédios conhecidos e amargos, alguns fatais", que poderiam ser adotados pelo Congresso caso a condução da pandemia não fosse alterada.

Lira se referia a um processo de impeachment. "Bolsonaro está lutando contra qualquer esforço político para responsabilizá-lo pela negligência criminosa que já levou a dezenas de milhares de mortes desnecessárias e muitas milhares mais por vir", avalia Kornbluh.

Indicativo de que Bolsonaro procura se defender de ataques externos são os nomes que pinçou para os postos. Quase todos já estavam em seu círculo mais próximo e são considerados de estrita confiança da família. O sucessor de Azevedo e Silva na pasta é o general Walter Braga Netto, que até então chefiava a Casa Civil. Em seu lugar, entrou o General Luiz Eduardo Ramos, outro militar aliado de longa data de Bolsonaro, que era o secretário de governo da Presidência, responsável pela articulação do Executivo com o Congresso.

Na vaga de Ramos entra a deputada federal Flávia Arruda (PL-DF), com a incumbência de negociar com os colegas do centrão, da qual também faz parte. Além disso, para o lugar do chanceler Ernesto Araújo, cuja demissão era demanda explícita do Congresso, Bolsonaro também encontrou uma solução dentro do Palácio do Planalto: o embaixador Carlos Alberto França, que como cerimonialista da presidência conquistou a simpatia do mandatário.

"Obviamente, Bolsonaro está se fortalecendo contra o crescente - e justificável - descontentamento nacional com sua liderança", afirmou Kornbluh.

Para o especialista, é possível que além dos alertas domésticos, Bolsonaro esteja atento ao que tem acontecido com seu aliado internacional prioritário, o ex-presidente Donald Trump.

"Os ex-consultores da força-tarefa contra a covid-19 de Trump agora estão dizendo que suas ações negligentes, semelhantes às de Bolsonaro, foram responsáveis por mais de 400 mil vidas perdidas nos Estados Unidos", diz Kornbluh, em referência a uma entrevista à CNN dada, nesta segunda 29/3, por Deborah Birx, coordenadora da resposta contra a covid-19 na Casa Branca.

Ela afirmou que o presidente não levava a sério o problema e estimou o número de vidas que poderiam ter sido salvas se as medidas adequadas fossem tomadas.

Tanto Bolsonaro quanto Trump agiram contra medidas de distanciamento social, se recusaram ao longo de meses a usar máscara, promoveram tratamentos sem eficácia cientificamente comprovada, como a hidroxicloroquina, e chamaram a doença de "gripezinha".

Com a ressalva de que não tem conhecimento suficiente sobre o Exército brasileiro para afirmar que poderia haver alguma tentativa de golpe agora, Peter Kornbluh vê com preocupação os movimentos em relação às Forças Armadas e o histórico de opiniões do presidente sobre o assunto.

"Bolsonaro nunca escondeu sua paixão pela era da ditadura militar e suas próprias tendências autocráticas", afirmou.

Durante a campanha presidencial, em 2018, Bolsonaro afirmou que seu livro de cabeceira era "Verdade Sufocada", do coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, um dos militares acusados de tortura e assassinatos ao longo da ditadura. Em julho de 2016, em uma entrevista à rádio Jovem Pan, ele afirmou: "O erro da ditadura foi torturar e não matar".

Autor de livros referência na área como O Arquivo Pinochet: Um Dossiê revelado sobre atrocidades e responsabilidades, sobre a ditadura militar chilena, e Por baixo dos panos em Cuba: A história secreta das negociações entre Havana e Washington, sobre o regime socialista em Cuba e sua relação com os EUA, Kornbluh se mostra cético sobre as possibilidades de sucesso de Bolsonaro em seu movimento político, qualquer que sejam suas intenções por trás dele. Isso porque o número de vítimas da covid-19 apenas aumenta e deve seguir pressionando os políticos e a sociedade a demandarem respostas do Executivo. Nesta terça, 30/3, o país atingiu um novo recorde: 3.780 mortes em 24 horas.

"Tanto o povo brasileiro quanto os militares, como instituição, bem sabem que um regime liderado por Bolsonaro não pode protegê-los do inimigo invisível que assola o Brasil: o coronavírus".

Na UTI, negacionistas se arrependem: "Contaminei minha família"

Por atuar como cuidadora de idosos em um asilo paulistano, Maria Julia (nome fictício) fazia parte do grupo prioritário para vacinação contra o novo coronavírus. Rejeitou a imunização e seguiu trabalhando. Os sintomas de dor de garganta e febre Maria Julia associou a uma gripe. Quando veio a falta de ar, decidiu testar para covid. Positivo. Recorreu aos remédios do — suas palavras — "kit do nosso presidente". Torcendo em casa pela cura, teve os planos interrompidos por uma enorme dificuldade para respirar. No pronto socorro da rede pública, uma tomografia revelou grave comprometimento dos pulmões. O caso inspirava cuidados em UTI, mas no dia da internação, 22 de março, o hospital só dispunha de leitos improvisados.

"Ela estava no cateter de oxigênio sofrendo para caramba. Superculpada, superarrependida. Achou que as coisas iam funcionar, que não era uma doença perigosa. Chorou durante toda a nossa conversa", afirma Ariel (nome fictício), profissional de saúde que atua na linha de frente do combate à covid na cidade de São Paulo. Por temor de represálias, a fonte vetou a divulgação de seu nome ou de outras informações que possibilitem identificá-la. Detalho ao final do texto os motivos de pedido de sigilo.

Ariel conta que casos como o de Maria Júlia são "tristemente comuns". "Muitos pacientes falam que não usavam máscara, que tomaram ivermectina ou o 'kit covid'". Em algumas situações, há descrença quanto à própria existência da doença. Caso da aposentada Esther, que deu entrada com quadro severo de falta de ar. Mesmo necessitando de ajuda externa para respirar, Esther insistia: "Essa doença é uma invenção". A todo tempo tirava a máscara de oxigênio e, aos médicos, exigia ir para casa.

A alternativa da equipe foi organizar uma videochamada com um parente próximo. "Expliquei ao familiar que a ideia era incentivá-la a seguir o tratamento. A capacidade pulmonar estava piorando rápido e a possibilidade de intubação era real", conta Ariel. O combinado foi cumprido. O parente mencionou um caso de um conhecido internado que havia vencido a doença. "Eu não tenho nada, pede alta para eles", respondia Esther.

O médico que acompanhava a ligação propôs um teste: "Vamos tirar a máscara de oxigênio?". Ofegância imediata. Em poucos segundos, o monitor de saturação registrou queda de 90% para 75%. "Não importa qual doença seja, a senhora precisa de ajuda", afirmou Ariel. "Vamos continuar investindo no tratamento''. Esther concordou. Intubada após piora, Esther morreu dois dias depois da ligação.

"Vejo relação direta entre as falas do presidente minimizando a pandemia e esse tipo de caso", diz a profissional de saúde. "Isso nos afeta porque as pessoas que aderem ao 'tratamento precoce' ficam em casa esperando uma melhora que não vem, porque o 'kit' não funciona, e chegam ao serviço de saúde mais graves".

Às vezes, o descaso tem custos maiores. Maria Julia, cujo relato abre este texto, seguiu frequentando a casa dos pais mesmo após apresentar sintomas. Ambos pegaram covid e foram internados em UTIs. Um deles está intubado. "Contaminei minha família", lamentava-se para a equipe médica. Em telefonemas com parentes, as recomendações mudaram. "Se protege direitinho, usa máscara, por favor". A cuidadora apresentava quadro estável ao ser transferida para uma UTI com melhor estrutura em hospital da rede pública.

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Sobre o sigilo da fonte: na instituição em que a profissional de saúde atua, vigora uma norma que proíbe funcionários de conceder entrevistas sem autorização da assessoria de comunicação. Comum no serviço público, esse tipo de mecanismo é uma forma de tutelar o fluxo de informações. Mesmo conflitando com a Constituição ("É livre a manifestação do pensamento, sendo vedado o anonimato"), as chamadas "leis da mordaça" causam constrangimento e medo em servidores em todo o país. A responsabilidade judicial por uma informação anônima é de quem a publica. A coluna concordou com o pedido de off-the-record (informação cuja fonte é mantida em sigilo) pela relevância do relato.


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