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Segunda-Feira 21.set.2020

Ano IX - Nº 411

Coluna

O que é uma boa ideia para empreender?

Ter uma boa ideia é ambientar-se com o universo comercial pretendido e soltar a imaginação como se esta fosse um tigre, com o estômago em dia, mas com vontade de garantir o amanhã.

Postado em 07 de Fevereiro de 2014 - Jorge Ostemberg

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Mil vezes a experiência tem demonstrado, mesmo em pessoas não particularmente dadas à reflexão, que a melhor maneira de chegar a uma boa ideia é ir deixando discorrer o pensamento ao sabor dos seus próprios acasos e inclinações, mas vigiando-o com uma atenção que convém parecer distraída, como se estivesse a pensar noutra coisa, e de repente salta-se em cima do desprevenido achado, como um tigre sobre a presa (JOSÉ SARAMAGO – Em “O Evangelho Segundo Jesus Cristo”).

Seguramente pode se afirmar que não existem fórmulas únicas e precisas para todas as coisas, considerando-se que a própria natureza cósmica ou de todos os seres terrenos não obedece a uma lógica constante e precisa; se a Física tem suas estabilidades numéricas e espaciais, tem largos caprichos quanto aos métodos e marcas temporais, muda porque as muitas complexidades são necessárias conforme há movimento.

Isso inclusive levou filósofos do porte de Nietzsche a afirmarem que na verdade não há como se reconhecer um propósito específico sequer, na existência do universo.

Então que se dizer do campo de ideias(?), que comporta praticamente toda a base de ações humanas gerais, utilitárias, específicas ou sem uma finalidade facilmente justificável, em grande efusão e choque de lógicas e não lógicas.

Muitas vezes um empreendimento de grande sucesso nem mesmo implica em uma ideia complexa: “vamos fazer uma banda!?”, exclama um para outros jovens; ou um anúncio “Estou fazendo uma banda, interessa-se? Procure-me no intervalo” (uma das versões do nascimento da banda U2). E o nome? Particularmente importante para uma marca, nem sempre a ideia do nome significa garantido sucesso; usando ainda o empreendimento musical, o que dizer de bandas chamadas “Kid Abelha”; “Cansei de ser Sexy”; “Sepultura”; “Pato Fu”; “Beetles” (besouros – futura Beatles, mais aproximada de significado “lógico”, próximo de batida de bateria; notando-se que há outras versões).

Então parece claro, mesmo com base em alguns raciocínios iniciais somente, que se é necessária uma ideia para um empreendimento. Ela não precisa ser genial, mas é necessária como ponto de partida, em que a coragem, tema já aqui tratado, oportunidade e plataforma tornam inicial um empreendimento de natureza diversa.

O termo “boa ideia” não esclarece que em si a ideia seja altamente inovadora ou dotada ao menos de características que a destaquem no mercado em que será inserida, na forma de empreendimento. No caso de empresariado se refere muito mais à potência de encaixe.

Em artigo anterior, “O Inferno são os outros”; o professor Doutor em Literatura Brasileira, Ramiro Giroldo, em fortes parágrafos, observa sobre a natureza de escolha, quanto à qualidade. Alguns trechos, para relembrar: “A imagem mais corriqueira (e talvez a mais didática) quando se fala em dar tempo ao tempo, em deixar que as coisas se desenrolem de acordo com a lógica que elas próprias impõem, é a da casa que precisa ser construída apenas quando os alicerces estiverem bem fundados”. Nisso o douto professor encontra naturalmente com o dizer de Saramago à epígrafe postado: “...a melhor maneira de chegar a uma boa ideia é ir deixando discorrer o pensamento ao sabor dos seus próprios acasos e inclinações, mas vigiando-o com uma atenção que convém parecer distraída...”.

É necessária uma ideia para um empreendimento. Ela não precisa ser genial, mas é necessária como ponto de partida.

Se não existem empreendimentos sem ignição de negócio, sem coragem para enfrentar todos os tipos de obstáculos que possam vir ao se decidir empreender; não existe absolutamente um ato de empreender, na ausência de uma idéia própria para tal. Tem que haver uma ideia, um resultado de pensamento com certo foco em mercado.

Reparando revistas especializadas em empreendimentos e verificando a voz de especialistas, quanto a estes; nota-se que atualmente não há grande foco na importância da ideia, em si; e sim que haja uma ideia central; à semelhança da determinação existente para trabalhos de natureza científica, no caso um “foco”, muito mais que uma ideia: “perceber que uma boa ideia pode se transformar num produto ou num serviço de sucesso é importante, mas não o suficiente” (Mara Sampaio – Brasileconômico.com.br). A autora observa que o caminho a ser percorrido deve ser altamente valorizado, como foco do empreendimento; como e em que momento realizar as medidas administrativas adequadas.

No entanto, entende-se também que se a ideia central for simples demais, é muito provável que de alguma forma seja necessário se empregar doses de criatividade, de inovação, nas outras ideias que agrupadas formam o negócio. Ou inclusive podem modificar o negócio inicial, como aconteceu com a advogada Ana Carolina, fundadora do Dogs’Care. A ideia inicial era vender fraldas para cães, que nasceu de uma necessidade da própria empreendedora; porém a criação de uma linha ampla é que possibilitou o amadurecimento de seu negócio, que tem como produto principal não as fraldas e sim tapedes higiênicos. Em 2011 sua empresa faturou 4 milhões de reais (Ana Luiza Daltro e Érico Oyama – Revista Veja, Edição 2.245 – nº 48, novembro de 2011).

Se não existem empreendimentos sem ignição de negócio, sem coragem para enfrentar todos os tipos de obstáculos que possam vir ao se decidir empreender; não existe absolutamente um ato de empreender.

O que há de geral concordante é que a ideia, simples, média ou altamente inovadora, não pode ser vacilante. Neste aspecto, voltando ao professor doutor Ramiro Giroldo, da UFMS e ao escritor José Saramago, fazemos uma junção de raciocínios para que se compreenda que o importante é a maturidade do pensamento empreendedor; seu “estar pronto”; pois se o primeiro nos lembra das etapas obrigatórias do passo a passo de qualquer empreendimento, e que cada um desses passos tem seu tempo próprio de maturação; o segundo observa que o ponto ideal de considerar uma ideia apreendida é precedida de observação e zelo, para que seja captada em estado adequado.

Com base nos raciocínios aqui, não restam dúvidas, portanto, que pensar com foco é passagem obrigatória para se empreender. E pensar é dedicar-se à solidão essencial; aquele isolamento de concentração ao qual se referiu Saramago há pouco e que Blanchot reforça em um trecho sobre empreendimentos literários, falando do brilhante Rilke: “O que é solidão? Ao nível do mundo, é uma ferida sobre a qual não cabe aqui tecer comentários... Do que se fala não é da comum solidão, mas de um recolhimento”; “Há semanas que, salvo duas breves interrupções, não pronuncio uma só palavra; a minha solidão fecha-se, enfim, e estou no meu trabalho como o caroço no fruto”.

Se a ideia não estiver pronta, seja comum, média ou grandemente inovadora; inédita; o que importa é que tenha sido devidamente pensada. E para ligar o raciocínio literário; pegamos um exemplo da revista Pequenas Empresas Grandes Negócios: “Pão quente para ir à mesa entregue na sua porta? Essa é a ideia do Los Paderos, quarteto carioca que criou uma empresa de fabricação e delivery de pães gourmet artesanais, em 2011”. E “A ideia do negócio surgiu quando Lisa comprou um pão semipronto em uma viagem para um sítio, anos atrás. Ficou claro para ela que esse era um produto pouco explorado e com grande potencial” (Reporter Rafael Farias Teixeira – Revista Pequenas Empresas Grandes Negócios, n 271 – Agosto 2011).

Se a ideia não estiver pronta, seja comum, média ou grandemente inovadora; inédita; o que importa é que tenha sido devidamente pensada.

Pode-se deduzir que a ideia da Lisa não foi uma cópia do que consumiu; sim uma possibilidade que ficou incubada aguardando o momento certo; o “bote do tigre”, ao qual se referiu Saramago.

Uma ideia que sofre elaboração, que vem a ser madura e complexa em sentido de inovação, deve ser protegida, embora não exageradamente, ao ponto de não ser exposta à luz dos verdadeiramente interessados, principalmente investidores. Sobre isso alguém bastante entendido em empreendimentos e inovações, Romero Rodrigues, fundador do famoso site de comparação de preços, e investidor anjo observa: “Um dos segredos de um bom negócio não é guardar sigilo sobre ele, mas pensar em quais serão os diferenciais que o tornarão difícil de ser copiado pelos concorrentes”. Para Romero Rodrigues, a exibição da ideia aos potenciais investidores deve ser feita sem restrição, o que cabe a cada um decidir o grau de confiança presente nesses investidores e o quanto a ideia é dependente de quem a teve.

Enfim, ter uma boa ideia, portanto, é ambientar-se com o universo comercial pretendido e soltar a imaginação como se esta fosse um tigre, com o estômago em dia, mas com vontade de garantir o amanhã; livre em sua natureza trará o primeiro dos ingredientes para a formação empreendedora.

Seguimos!


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