Semana On

Segunda-Feira 12.abr.2021

Ano IX - Nº 438

Artigo da semana

Como eu e um grupo de professores da UFPel driblamos o negacionismo de Bolsonaro

Governo cancelou nosso estudo, minimizou seus achados, tentou intervir na reitoria e me calar com censura. Perdeu todas as vezes

Postado em 16 de Março de 2021 - Pedro Hallal

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Com a onda de negacionismo que assola o Brasil, nunca é demais falar em ciência, nem que seja para lembrar que a terra não é plana. Para escrever essa coluna, me inspirei no Isaac, que, mais de 300 anos atrás, descreveu alguns fenômenos importantes. De forma exageradamente simplificada, a primeira lei do Isaac dizia que todo corpo continua em seu estado atual, a menos que seja forçado a mudar por forças aplicadas sobre ele. Já a terceira lei do Isaac diz que para cada ação, existe uma reação de igual intensidade na direção oposta.

Vamos aos fatos. Em março de 2020, com a chegada da pandemia de coronavírus no Brasil, nosso grupo de pesquisas em Epidemiologia da Universidade Federal de Pelotas, a UFPel, propôs a realização de um estudo para avaliar a progressão do coronavírus no Brasil, o Epicovid-19. Ciente da gravidade dos fatos (que não se tratava de uma gripezinha), o Ministério da Saúde decidiu por financiar o projeto. Saímos do estado de repouso para o movimento, com aceleração constante. O Epicovid-19 foi iniciado e testou, entre maio e junho de 2020, quase 100 mil brasileiros e brasileiras, produzindo informações científicas até então desconhecidas no país:

1) A quantidade de pessoas expostas ao vírus, até o meio de 2020, era seis vezes maior do que o número de casos confirmados, que apareciam nas estatísticas oficiais.

2) Crianças possuíam o mesmo risco de contraírem o vírus SARS-CoV-2 do que adultos, mesmo que, felizmente, os casos tendessem a não ser tão graves.

3) Seis de cada 10 pessoas infectadas pelo SARS-CoV-2 perdiam o olfato e o paladar, um sintoma bastante específico desse vírus.

4) Entre os 20% mais pobres da população, o risco de infecção por SARS-CoV-2 era o dobro em comparação aos 20% mais ricos da população.

5) As pessoas indígenas apresentavam risco de infecção por SARS-CoV-2 muito superior aos demais grupos étnicos.

Com o nosso “corpo” se deslocando em linha reta, produzindo conhecimento sobre a covid-19 no Brasil, não havia a tendência de mudança, conforme Isaac nos ensinou em sua primeira lei. Eis que surge então a aplicação de forças nesse corpo. Num intervalo de poucas semanas, o Ministério da Saúde, incomodado com os resultados da pesquisa, atacou o Epicovid-19 duas vezes: primeiro, procurando minimizar o resultado do maior risco de contaminação entre os indígenas, e depois optando por descontinuar o financiamento da pesquisa.

Talvez pelo negacionismo, não notaram que a terceira lei do tal Isaac então atuaria. A reação, no sentido oposto à força original aplicada, foi devastadora. Em relação aos dados que mostravam o maior risco de infecção entre os indígenas, o resultado foi divulgado no dia seguinte nos principais veículos de comunicação do Brasil e do mundo. Semanas depois, os achados foram publicados no prestigiado Lancet Global Health. Se o objetivo era esconder a realidade dos fatos, eles acabaram ainda mais visíveis. Em relação ao corte de financiamento da pesquisa, a reação foi rápida e, também, devastadora. Em poucas semanas, o projeto obteve financiamento de outras instituições e o Epicovid-19, já conhecido naquela época, tornou-se ainda mais conhecido.

As próprias razões para o corte do financiamento acabaram sendo discutidas, até porque o Ministro da Saúde afirmou que estudos similares seriam realizados em breve, dos quais até hoje não se tem notícia. A falta de uma justificativa técnica minimamente convincente para a interrupção do financiamento fez com que muitos desconfiassem de motivação política. E aí vem a ironia: não eram esses que defendiam o Escola Sem Partido, cuja premissa básica (errada, diga-se de passagem) é de que a educação não deve ser politizada?

Fosse um jogo, o placar já era 2×0 para o time do Isaac contra o time do Jair, em dois contra-ataques rápidos e devastadores.

Aproxima-se então o final de 2020 e a Universidade Federal de Pelotas conduz seu processo eleitoral para escolha dos próximos dirigentes. Um processo democrático, conduzido respeitando integralmente a legislação vigente. Ao final do processo, o professor Paulo Ferreira Jr é eleito para o cargo de reitor da universidade pelos quatro anos seguintes.

A universidade também seguia seu movimento em linha reta e aceleração constante. Não havia qualquer justificativa para aplicação de forças capazes de modificar essa trajetória: desde Fernando Henrique Cardoso até Michel Temer, passando por Lula e Dilma Rousseff, havia uma tradição de respeitar a vontade das comunidades universitárias e nomear o primeiro colocado das listas tríplices enviadas ao governo federal nos termos da lei.

Mas, novamente, negacionistas que desconhecem as leis do Isaac, aplicaram forças autoritárias sobre o corpo que se deslocava. O governo desrespeitou o desejo da comunidade universitária e deixou de nomear o vencedor da eleição. E, novamente, conforme o Isaac nos ensinou mais de 300 anos atrás, veio a reação.

A UFPel, numa decisão inédita, resolveu anunciar a primeira dupla de reitores do Brasil: o eleito, professor Paulo Ferreira Jr, e a nomeada, a professora Isabela Andrade. Foi um contra-ataque certeiro. A gestão compartilhada virou um símbolo de resistência.

Ao sofrer o terceiro gol e notar que virou goleada, o time negacionista acusou o golpe e passou a utilizar uma metralhadora giratória (agora liberada para os “cidadãos de bem”). Desesperado, o time anti-ciência escalou então um jogador desconhecido, do sul do país, para atacar o time adversário.

Ao anunciar a decisão inédita em uma live com milhares de participantes, a UFPel escancarou ao Brasil a arbitrariedade da decisão do governo federal, de não respeitar a escolha democrática da sua comunidade. O assunto ganhou espaço na mídia e nas casas de milhões de pessoas.

Eis então que o jogador desconhecido, escalado pelo time negacionista, colocou os pés pelas mãos e partiu para mais um ataque, protocolando uma denúncia descabida, que faz referência a um período que a população brasileira gostaria de jamais reviver e, exatamente por isso, não pode jamais esquecer.

O problema é que isso foi feito, mais uma vez, sem considerar a terceira lei do Isaac, de que toda ação gera uma reação. A denúncia foi analisada pela Controladoria-Geral da União e o tiro saiu pela culatra. Ao assinar um Termo de Ajustamento de Conduta, sem reconhecimento de culpa, o time democrático garantiu o arquivamento do processo. E a reação da população brasileira foi maciça. Independentemente das posições ideológicas de cada um, todos os cidadãos brasileiros querem ter sua liberdade de expressão garantida.

Espero, sinceramente, que depois do 4×0, o time anti-ciência aprenda com a goleada e melhore, até porque já passou da hora de enfrentar o verdadeiro inimigo da atualidade, que é o coronavírus. Atacar cientistas não vai salvar vidas.

Pedro Hallal - Epidemiologista, professor e ex-reitor da UFPel (Universidade Federal de Pelotas)


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