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Domingo 11.abr.2021

Ano IX - Nº 438

Poder

Acredite quem quiser

Bolsonaro, que passou toda a pandemia a maldizer vacinas e máscaras, quer ser reconhecido como campeão da imunização

Postado em 12 de Março de 2021 - Estadão, Leonardo Sakamoto (UOL) - Edição Semana On

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O presidente Jair Bolsonaro, que passou toda a pandemia de covid-19 a maldizer vacinas e máscaras, quer ser reconhecido como campeão da imunização dos brasileiros. Formidáveis metamorfoses, nas quais acredita quem quer.

Que ninguém se engane: sua única motivação, como sempre foi, é eleitoral. Bolsonaro sequer acorda pela manhã se não for por cálculo político. Os interesses nacionais e as aflições dos eleitores são sempre secundários, ou meramente instrumentais, em seu projetos de poder.

O presidente Bolsonaro, de uma hora para outra, protagonizou uma solenidade oficial usando máscara, bem como seus assessores. A imagem exótica espantou os brasileiros em geral, acostumados a ver Bolsonaro não somente sem máscara, mas promovendo aglomerações País afora e estimulando comportamento irresponsável da população em meio a uma pandemia mortal.

Mais do que isso: a solenidade se prestava à assinatura de leis que facilitam a compra de vacinas contra a covid-19. O presidente prometeu que, “até o final do ano, teremos mais de 400 milhões de doses (de imunizantes) disponíveis aos brasileiros”. Não se sabe de onde o presidente tirou esse número, uma vez que o Ministério da Saúde tem sido incapaz de determinar quantas vacinas estarão disponíveis para os brasileiros neste mês, que dirá no resto do ano.

Seja como for, trata-se de uma mudança drástica de atitude, que, se mantida, aliviará um País agoniado com a sabotagem promovida por Bolsonaro e seus camisas pardas contra a vacinação e as medidas de restrição para enfrentar o vírus, em meio à escalada de mortes e o colapso do sistema de saúde. Já não seria sem tempo.

Mas não se pense que Bolsonaro de repente se conscientizou de que não é possível superar a pandemia sem imunização em massa e sem adotar ações preventivas. Ainda está fresco, na memória dos brasileiros que prezam os valores morais, o horror provocado pelas reações grosseiras e desumanas de Bolsonaro sempre que cobrado a assumir suas responsabilidades como presidente. Na mais recente delas, apenas uma semana atrás, mandou o “idiota” que lhe pedia vacinas comprá-las “na casa da tua mãe”.

É evidente que esse é o verdadeiro Bolsonaro, e não o personagem contrito que agora prega a necessidade urgente de uma vacinação nacional. O verdadeiro Bolsonaro só se preocupa com sua reeleição – agora ameaçada pela escalada da crise causada pela pandemia e, principalmente, pela ressurreição de Lula da Silva.

Não parece ter sido um mero acaso o fato de o “novo” Bolsonaro se apresentar aos brasileiros momentos depois que o chefão petista fez seu primeiro pronunciamento após o restabelecimento de seus direitos políticos por decisão judicial. No discurso, Lula da Silva, que apareceu de máscara, atacou vigorosamente a irresponsabilidade do presidente diante da pandemia.  Para fazer o contraponto a Bolsonaro, Lula vestiu o figurino de estadista. Além de fazer uma defesa enfática da vacinação e das medidas de isolamento, o ex-presidente anunciou sua disposição de “dialogar com todos”, inclusive fora da esquerda, contrastando com a dificuldade de articulação política do presidente.

De olho em Lula, não nos 2.349 mortos em 24 horas

O presidente da República disse que nunca foi negacionista, nem contra vacinas, após ser sistematicamente negacionista e contra vacinas. "Se você virar um jacaré, é problema de você", disse Bolsonaro sobre tomar vacina no ano passado, lembra?

E veja só: ele ainda usou máscara em um evento no mesmo dia, apesar de, recentemente, ter atacado o equipamento de proteção.

A razão da mudança no comportamento de Jair não foi o Brasil ter registrado, pela primeira vez, mais de duas mil mortes por covid-19 em apenas 24 horas. Para ser mais exato: 2.349. Mas o fato de Lula ter criticado duramente o comportamento do governo dele durante a pandemia, em discurso na sede do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, também nesta quarta.

"Não siga nenhuma decisão imbecil do presidente da República ou do ministro da Saúde. Tome vacina", disse Lula.

A tentativa tardia de reposicionamento de marca do presidente da República não ocorreu por conta da percepção de que estamos vivendo uma tragédia sem precedentes e que ele governa o país com o maior número de óbitos por dia neste momento. Mas porque o seu principal adversário voltou ao jogo político após a anulação das condenações da Lava Jato pelas mãos do ministro Edson Fachin, do Supremo Tribunal Federal.

Uma tragédia sem precedentes, é isso mesmo. Nós é que acabamos banalizando, consequência da influência presidencial. As 2.349, equivalem a quase 12 acidentes com aviões da TAM, como aquele de julho de 2007, ou pouco menos de nove rompimentos de barragens da Vale, como aquela de Brumadinho, em janeiro de 2019.

O Brasil está perdendo uma guerra, com uma montanha de novos corpos de seus cidadãos erguida diariamente. Enquanto isso, aquele que, em tese, seria o nosso general se preocupa com sua guerra particular para se manter no poder.

"O governo federal fez a sua parte até demais", afirmou Bolsonaro, também nesta quarta. Fez sim. Mas só não falou que foi em nome do inimigo.

Ele tem sido um dos grandes vetores de espalhamento dessa pereba em território nacional ao promover aglomerações e combater tanto quarentenas quanto o isolamento social. No carnaval, por exemplo, enquanto médicos, cientistas e pesquisadores pediam pelamordedeus para todos ficarem em casa, ele juntava pequenas multidões de fãs nas praias de Santa Catarina. A mensagem que passava com seus atos era de que a pandemia não era tudo aquilo, ou seja, uma "gripezinha".

Os corpos de hoje são a colheita do que foi plantado naquele feriado.

Mesmo hoje, ele não abandonou essa prática quando falou à sua base de apoiadores, em frente ao Palácio do Alvorada. "Esses governadores, não são todos, só sabem essa política do 'fica em casa'. Não deu certo ano passado, mortes tivemos, mortes continuamos tendo. Infelizmente, de uma forma ou de outra, mortes continuarão acontecendo."

Há alguns dias, ele estava bradando a quem pranteava seus mortos: "Chega de frescura, de mimimi. Vão ficar chorando até quando?"

Jair já disse que o melhor imunizante é pegar a doença. "Eu tive a melhor vacina, foi o vírus", disse no dia 23 de dezembro para o seu rebanho. E acrescentou "sem efeito colateral".

Na visão do bolsonarismo, a pandemia só vai acabar quando todos pegarem, como uma forma de seleção natural que privilegia não os fortes, mas os mais ricos que têm acesso a tratamento mesmo com a saúde em colapso.

Caso ele se colocasse no lugar dos brasileiros que perderam alguém querido, poderia mudar de comportamento. Poderia. Mas ele tem outras prioridades.

Por mais que tente, agora, abraçar a vacina, ele já fez o bastante para ser lembrado. "A gente lamenta todos os mortos, mas é o destino de todo mundo", disse ele mais de uma vez, cunhando um novo lema de governo. Ironicamente, uma frase sobre a banalização da morte vai fazer com que seja imortalizado. Não da forma como ele imagina, claro.


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