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Sexta-Feira 05.mar.2021

Ano IX - Nº 432

Coluna

Shiloh Jolie-Pitt

E porque temos que aprender a lidar com a transexualidade.

Postado em 19 de Dezembro de 2014 - Guilherme Cavalcante

Shiloh Jolie-Pitt roubou a cena na avant première do filme Unbroken, na noite da última segunda-feira, 15. Shiloh Jolie-Pitt roubou a cena na avant première do filme Unbroken, na noite da última segunda-feira, 15.

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A última aparição pública de Shiloh Jolie-Pitt, descendente de Angelina Jolie e Brad Pitt, foi um dos destaques da mídia na última semana. A criança de oito anos, que trajou um terno preto masculino, roubou a cena na avant première do filme Unbroken, na noite da última segunda-feira, 15.

É óbvio que o terno em si é apenas uma desculpa para os holofotes, que querem ir a fundo numa história um tanto quanto obscura, que o fato da identidade de gênero de Shiloh ainda ser uma incógnita, num contexto em que a utilização de roupas masculinas só reforça as fofocas de que a criança possa ser transexual.

Com os cromossomos XX, Shiloh é o que a sociedade entende como fêmea, portanto, menina. Mas sua conduta, seu apreço por roupas masculinas, cortes de cabelo curtos e até rumores de que gosta de ser chamada de John fazem crer que Shiloh é, na verdade, um menino. Um menino trans.

Muito discretos, os pais não fazem alarde sobre a situação e respeitam a vontade de Shiloh de se caracterizar como alguém do gênero masculino. Publicamente, só houve uma declaração de Jolie à revista Vanity Fair há alguns anos, na qual disse que a filha (sim, no feminino) adora se vestir com roupas masculinas. Apenas isso. E fim de papo. Para aquela família, a possibilidade de Shiloh ser trans parece não ser qualquer problema.

Mas enquanto isso, a imprensa sensacionalista engrossa o caldo. Shiloh se tornou uma espécie de ser exotificado, a meca dos paparazzi. Ninguém sabe o que é, mas é diferente, chama atenção e, principalmente, vende MUITAS revistas. Afinal, o silêncio de Pitt e Jolie deixa fãs e consumidores de fofocas de celebridades em jejum. Cabe à “imprensa”, portanto, fazer as especulações.

Um outro olhar

O imbróglio em torno de Shiloh também revela um ponto curioso em relação às audiências que consomem tudo o que ao nome da criança possa estar envolvido. Querem as informações, mas se recusamos a problematizá-las. Tanto é que o que se observa neste público é o absoluto despreparo para lidar com a questão da transexualidade, principalmente em crianças.

Quer dizer, falta informação para a população sobre como lidar com as diferentes identidades de gêneros, em suas diferentes faixas de idade e, principalmente, falta-nos desconstruir a noção essencialista (tanto biológica como cultural) do que é ser homem e mulher. Talvez esteja passando na hora de nós mesmos utilizarmos o cérebro para compreender o óbvio, no caso, que não são as genitálias ou os cromossomos que definem nosso gênero. Ou ainda: que nosso gênero não pode ser normatizado a partir de padrões alheios ao nosso próprio entendimento sobre masculino e feminino.

De uma vez por todas

Mas por que o casal não vem a público e explica de uma vez por todas o que, afinal de contas, está rolando?

Bem, vão aqui algumas teorias: da mesma forma que o gênero é algo compulsório a nós, talvez os pais de Shiloh não queiram empurrar à criança um rótulo que não têm certeza ser concreto só para ter que dar qualquer satisfação à sociedade. Ou talvez só admitam a transexualidade de Shiloh quando a criança em questão tiver mais maturidade ou aproxime-se da puberdade, quando supostamente poderá iniciar tratamento hormonal. Ou talvez acreditem que se trata de uma fase. Ou talvez achem que isso simplesmente não é da conta de ninguém.

Jolie e Pitt certamente têm a faca e o queijo na mão para iniciar um debate televisionado (digamos assim) sobre as transexualidades... Pensando nisso, passo a crer que futuramente Shiloh terá muito a nos ensinar, mais até do que Chaz Bono (filho trans da cantora e atriz Cher) faz atualmente. Possivelmente, é uma questão de tempo.

Até lá, no entanto, a família deveria ser deixada em paz. E com o tempo que nos sobrará ao pararmos de procurar por essas fofocas pode-se investir na desconstrução dessas mentiras milenares que nos ensinaram. Que tal?


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