Semana On

Domingo 11.abr.2021

Ano IX - Nº 438

Brasil

CFM faz coro a negacionistas: mas a conta vai chegar

O que há por trás do lobby de Bolsonaro pelo uso da cloroquina?

Postado em 04 de Março de 2021 - Veja, DW, Estadão, Agência Pública, Carta Capital, Piauí, The Intercept_Brasil, Congresso em Foco, UOL - Edição Semana On

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Ao reunir-se com um grupo de devotos nos jardins do Palácio da Alvorada no último dia 1º, o presidente Jair Bolsonaro contou, pelo menos, cinco mentiras. A saber:

“Esses [remédios] de tratamento precoce, ivermectina, hidroxicloroquina, Annita, seja o que for… não tem efeito colateral, por que não tomar?”

No caso da hidroxicloroquina e da ivermectina, os efeitos colaterais constam na bula dos próprios medicamentos.

“Quando tem matéria da imprensa que fala de tratamento [precoce] em outros países, mandamos para o embaixador confirmar, né. E alguns países têm confirmado tratamento precoce que tem dado certo.”

Ao aprovar vacinas para uso emergencial em 17 de janeiro último, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) afirmou que não existe tratamento precoce para a Covid. Está no site dela. A Organização Mundial da Saúde distribuiu mais estudos que negam a existência de tratamento precoce com bons resultados.

“Se não me engano 9 estados [na verdade, 8 estados e o Distrito Federal] estão fechando tudo. Não deu certo ano passado.”

Não estão fechando tudo. Igrejas, escolas particulares e até academias de ginástica permanecem abertas em vários lugares. Segundo os mais respeitados epidemiologistas do país, a queda no número de mortes e de casos no segundo semestre do ano passado se deveu a medidas mais duras de isolamento. O recrudescimento da pandemia nos dois primeiros meses de 2021 tem a ver com o relaxamento das medidas restritivas.

“Alguns criticam? Mas só podia comprar [vacinas] depois de Anvisa autorizar. Não é comprar qualquer coisa que aparecer. Começou essas vacinas a serem certificadas pela Anvisa e estamos comprando”.

Pressionado, o governo brasileiro negociou a compra de vacinas antes mesmo de sua aprovação pela Anvisa. Foi o caso da AstraZeneca e da Coronavac. Em fevereiro, assinou contrato para comprar a Covaxin, vacina que ainda está em fase de testes na Índia.

“Tem um estado que, por milhões de habitantes, mais tem óbito é São Paulo, o que fez mais lockdown”.

É o Amazonas o Estado proporcionalmente com o maior número de óbitos. Ali, por determinado tempo, deu-se o lockdown mais duro. São Paulo tem o governador que Bolsonaro mais detesta e não quer como adversário nas eleições do próximo ano.

Na conta dos negacionistas

A insistência do presidente em mascarar a gravida da pandemia e se ancorar em medidas anticientíficas é preocupante. A necropolítica promovida pelo bolsonarismo, relativizando a pandemia, promovendo a desinformação, propagandeando remédios inócuos contra a doença é responsável direta por milhares de mortes no Brasil. Mas esta conta vai chegar, afirma o médico hematologista Dimas Tadeu Covas, presidente do Instituto Butantan.

Fazia exatamente três anos que Dimas estava à frente do Instituto quando a Organização Mundial da Saúde (OMS) declarou que o mundo vivia uma pandemia: a de covid-19.

Na corrida aberta em busca de uma vacina, ele apostou em um parceria internacional que, meses à frente, se revelou minimamente eficaz: em janeiro de 2021, a campanha de imunização brasileira começou justamente com produto desse acordo, no caso a vacina Coronavac, desenvolvida pela empresa chinesa Sinovac.

No momento em que o Brasil vive seu pior momento desde o início da pandemia, com mais de 250 mil mortos e hospitais operando no limite de suas capacidades, Covas diz que "a interferência política na saúde pública tem sido uma grande barreira para o combate adequado à epidemia e explica muito a posição do Brasil como vice-campeão mundial em mortes pelo covid-19".

"A negação da gravidade da pandemia, a disseminação de tratamentos sem comprovação científica, o combate deliberado ao uso de máscaras e às medidas de restrição de circulação são os grandes responsáveis, neste momento, pela segunda onda explosiva que o país está sofrendo”, diz ele. "A história colocará essa tragédia na conta desses negacionistas".

O Instituto Butantan é uma entidade pública ligada ao governo estadual paulista. Nos bastidores da crise com o governo federal estão os dividendos políticos de dois protagonistas do cenário político brasileiro: o governador de São Paulo, o tucano João Doria — que desde o princípio busca para si o capital político da vacina do Butantan — e o presidente da República Jair Bolsonaro — que em diversos episódios buscou difamar o imunizante.

O diretor do Butantan, contudo, frisa que à despeito dessa batalha, o instituto paulista "continuará como o principal fornecedor [de vacinas ao Ministério da Saúde] por muito tempo ainda”.

“A interferência política na saúde pública tem sido uma grande barreira para o combate adequado à epidemia e explica muito a posição do Brasil como vice-campeão mundial em mortes pelo covid-19. Esse obscurantismo científico das mais altas autoridades do país causou um dano irreversível ao país, que ultrapassou as 250 mil mortes, uma catástrofe sem precedentes. A história colocará essa tragédia na conta desses negacionistas. Para o cientista preocupado e engajado como eu nessa luta resta, além de apontar esses absurdos, trabalhar em todas as frentes para minorar o sofrimento da população, inclusive na frente da comunicação e na batalha política da ciência”, afirma.

OMS publica 'forte recomendação' contra uso de hidroxicloroquina na prevenção à covid-19

Queridinha de Bolsonaro – e uma das protagonistas da indústria de desinformação que opera no palácio do Planalto - a hidroxicloroquina voltou a ser alvo da Organização Mundial da Saúde (OMS) nesta semana. Um painel de especialistas da entidade divulgou no último dia 1º, uma recomendação contrária seu uso como método de prevenção para a covid-19. Eles dizem que os estudos não mostraram efeitos significativos sobre mortes ou internações e apontaram riscos de efeitos adversos provocados pela substância. O presidente defendeu – e continua defendendo - o uso do remédio ao longo da pandemia, embora várias pesquisas tenham mostrado que ele não tem eficácia contra o vírus. 

A nova recomendação é de autoria do Grupo de Desenvolvimento de Diretrizes (GDG, na sigla em inglês) da OMS. Os especialistas dizem que a “forte recomendação” é baseada em evidências de alta certeza obtidas em seis estudos randomizados e controlados com 6 mil participantes.

“A evidência de alta certeza mostrou que a hidroxicloroquina não teve efeito significativo em mortes e admissões em hospitais, enquanto evidência de certeza moderada mostrou que a hidroxicloroquina não teve efeito significativo sobre infecções confirmadas em laboratório e provavelmente aumenta o risco de efeitos adversos”, declarou a OMS em nota à imprensa.

O grupo, diz a organização, considera que a droga não tem mais prioridade para pesquisa e que os recursos devem ser usados para avaliar outras drogas mais promissoras na prevenção contra o vírus. “Essa diretriz se aplica a todos que não têm covid-19, independentemente da exposição a uma pessoa com a infecção”, reforçou.

A recomendação desta segunda é a primeira versão de uma diretriz voltada a medicamentos capazes de prevenir a doença. O objetivo da OMS é promover orientação confiável sobre a gestão da covid e ajudar médicos a tomarem melhores decisões para seus pacientes. A diretriz poderá ser atualizada diante de evidências. Novas recomendações serão acrescentadas no momento em que estudos de relevância se tornarem disponíveis.

A cloroquina e a hidroxicloroquina integram orientação oficial emitida pelo Ministério da Saúde no ano passado, com recomendação voltada a casos leves, moderados e graves. Neste ano, um aplicativo da pasta chegou a sugerir os remédios até a bebês, e foi retirado do ar.

Não há base científica sobre uso de Ivermectina contra Covid-19, diz fabricante do vermicida

A Merck, que fabrica a ivermectina, publicou em fevereiro um comunicado avisando que não há dados que sustentem o uso do vermífugo contra a covid-19. O texto ainda alerta que há uma “preocupante falta de dados de segurança na maioria dos estudos”. 

Se as drogas do kit-covid funcionassem, o Brasil estaria bem demais: matéria do G1 mostra o quanto subiu a venda de várias delas nas farmácias do país. No caso da ivermectina, 8,1 milhões de unidades foram vendidas em 2019, contra inacreditáveis 53,8 milhões no ano passado.

Para Ethel Maciel, professora da Universidade Federal do Espírito Santo e pós-doutora em epidemiologia pela Universidade Johns Hopkins, ainda não temos a exata dimensão do prejuízo do uso desses remédios na saúde das pessoas.

"Quem teve um problema cardiovascular devido ao uso indiscriminado? No caso da hidroxicloroquina, a gente ainda nem sabe, no meio de tantas mortes neste ano, quem pode ter sido prejudicado" - Ethel Maciel, pós-doutora em epidemiologia

A propósito, o presidente Jair Bolsonaro disse estes dias que “tudo bem” se cloroquina não funcionar. “Deixa de ser otário. Estamos vivendo um momento de crise. São vidas que estão em jogo. Pode ser que lá na frente falem que a chance é zero, que é placebo. Tudo bem. Paciência, me desculpem, tchau. Mas pelo menos não matei ninguém”. Problema nenhum…

Para garantir, o MPF decidiu salvar os vídeos em que Bolsonaro e Pazuello aparecem defendendo o tratamento precoce com esse tipo de medicamento. Vão ser usados como provas em um procedimento aberto para investigar improbidade administrativa no uso de verba pública para distribuir drogas comprovadamente ineficazes. 

Médicos pela vida?

Apesar da falta de evidências científicas, um grupo chamado Médicos pela Vida publicou um informe publicitário em alguns dos principais jornais impressos do país no último dia 23, com um manifesto em defesa do “tratamento precoce” contra a Covid-19. O texto usa informações falsas ao citar hidroxicloroquina, azitromicina, ivermectina e outras drogas como eficazes em pacientes com o novo coronavírus. 

Segundo os profissionais, haveria evidências científicas que comprovam os benefícios do uso desses remédios, mas não há qualquer estudo de metodologia rigorosa que tenha chegado a essa conclusão. O site em que o manifesto foi publicado não disponibiliza formulários para contato com responsáveis.

A agência de fact-checking Lupa checou algumas das frases do manifesto. A associação foi procurada para comentar as checagens, mas não respondeu. Veja o resultado:

“Dentre as abordagens disponíveis na literatura médica para a COVID-19, existe o chamado ‘tratamento precoce'”
Trecho de manifesto publicado por um grupo de médicos como anúncio em jornais impressos em 23 de fevereiro de 2021

FALSO

Não há evidência na literatura médica que comprove a eficácia do chamado ‘tratamento precoce’ contra a Covid-19. Logo, não é correto considerar essa receita uma “abordagem disponível”. Essa suposta solução, que usaria uma combinação de hidroxicloroquina, azitromicina e zinco, entre outros medicamentos, foi tema de uma série de pesquisas que demonstraram não haver benefício no uso dessas drogas contra a doença, seja de forma preventiva ou para curar casos leves, moderados ou graves.

A eficácia de um tratamento só pode ser realmente comprovada com estudos científicos que usam uma metodologia rigorosa. Para isso, são necessárias duas características principais: randomização (ou seja, a escolha aleatória dos pacientes) e duplo-cego (quando nem os médicos, nem os pacientes sabem quem está recebendo o remédio ou o placebo). Também é preciso que os resultados sejam publicados em uma revista científica, o que só ocorre depois da revisão dos dados por especialistas no assunto. As pesquisas feitas sob essas condições não mostraram benefício na aplicação do “tratamento precoce” para pacientes infectados pelo novo coronavírus.

Em julho do ano passado, cientistas brasileiros publicaram um artigo no The New England Journal of Medicine (NEJM) mostrando que hidroxicloroquina, combinada ou não com azitromicina, não trouxe qualquer benefício para pacientes leves ou moderados com Covid-19 — ou seja, a doença se desenvolveu da mesma forma para os que tomaram o remédio e para os que receberam placebo. A droga foi administrada quatro dias depois de essas pessoas serem expostas ao vírus, de modo randomizado e com duplo-cego. Foram recrutados 667 participantes em 55 hospitais.

Um estudo mais recente, publicado em novembro pela revista The Lancet, chegou à mesma conclusão. Pesquisadores do Qatar, do Reino Unido e da Austrália analisaram os efeitos da hidroxicloroquina, com ou sem azitromicina, em pacientes não-graves da Covid-19. Ao todo, 456 participantes dividiram-se em três grupos, com randomização e duplo-cego. Não houve diferença entre os resultados obtidos para cada um deles, mostrando que os remédios não trouxeram benefícios.

Outra pesquisa publicada no NEJM, em junho, por cientistas norte-americanos, mostrou que tomar hidroxicloroquina preventivamente não evitou a contaminação pelo SARS-CoV-2. O estudo também foi randomizado e com duplo-cego e contou com 821 participantes nos Estados Unidos e no Canadá. Em fevereiro de 2021, a NEJM publicou uma pesquisa feita na Espanha, na qual os pesquisadores receitaram o medicamento para pessoas que tiveram contato com pacientes diagnosticados com Covid-19. Novamente, os testes mostraram que a droga não foi eficaz como profilaxia.

As únicas referências positivas ao tratamento preventivo na literatura médica vêm de dois tipos de estudos que não podem ser vistos como conclusivos. O primeiro deles é a análise em laboratório do desempenho da droga, que não reproduz as condições existentes no corpo humano e apenas indica a necessidade de pesquisas mais aprofundadas. O segundo são os estudos observacionais, nos quais os resultados podem chegar a conclusões enganosas e sua comprovação também só pode ocorrer com a realização de novas pesquisas, randomizadas e com duplo-cego.

“(…) há disponível nos sites https://hcqmeta.com, https://ivmmeta.com, https://c19study.com/, https://c19ivermectin.com/?s=08, https://copcov.org e https://c19legacy.com/?s=08 a compilação de diversos estudos e estatísticas envolvendo drogas utilizadas como parte do arsenal terapêutico, entre outros trabalhos disponíveis em bases de dados científicos confiáveis.”
Trecho de manifesto publicado por um grupo de médicos como anúncio em jornais impressos em 23 de fevereiro de 2021

FALSO

O conteúdo dos sites hcqmeta.com e ivmmeta.com, citados no manifesto, remete aos mesmos estudos que constam em outro site mencionado, o c19study.com. Ou seja, não são várias meta-análises, mas apenas duas: uma de hidroxicloroquina e outra de ivermectina, ambas do c19study.com. Essas análises não têm nenhum rigor científico.

Leandro Tessler, professor do Instituto de Física Gleb Wataghin e membro do Grupo de Estudos de Desinformação em Redes Sociais (Edres) da Unicamp, explicou que o suposto estudo é uma meta-análise, ou seja, uma análise feita com base em outros trabalhos existentes. Isso, em si, não é o problema: esse tipo de estudo, quando feito de maneira adequada, é importante para a avaliação da eficácia de medicamentos. O problema é que, nesse caso, a análise é feita sem metodologia e rigor científico. 

A primeira questão é que, quando se vai fazer uma meta-análise, os estudos levados em consideração precisam ter pesos diferentes, de acordo com a qualidade de cada estudo. “Um estudo mal feito não entra, e um estudo que tem 50% de qualidade entra com um peso de 50%. Mas o C19Study dá o mesmo peso para todos, ou seja, um estudo padrão ouro entra com o mesmo peso de uma opinião”, explicou o professor.

Uma segunda questão é que estudos científicos precisam ser chancelados por revistas científicas e passar pela revisão por pares (peer review). “No C19Study, eles misturam pré-prints [não publicados em revistas nem revisados por pares] com erros graves, que provavelmente nunca serão publicados, com outros estudos.”

Outro problema do trabalho do c19study.com é a forma como foi definido o chamado p-valor, uma estimativa do resultado obtido ser ou não fruto do acaso, foi avaliado. Um p-valor próximo de 0 significa que o resultado provavelmente é relevante, e existem técnicas para se calcular esse indicador. “O que o C19Study faz não é seguir essa técnica. Ele simplesmente multiplica os diferentes p-valores, obtendo valores muito baixos, para garantir que o resultado dele é bom. Tudo bobagem”, afirmou Tessler. Como esse número está sempre entre 0 e 1, quando dois p-valores são multiplicados, o resultado é sempre menor do que as duas variáveis.

Entre os links citados, ainda está o https://copcov.org, estudo do professor Nicholas White, da Universidade de Oxford. Não há, até o momento, resultados desse estudo, conforme o National Institutes of Health (NIH), a agência de pesquisa biomédica do departamento de Saúde e Serviços Humanos dos Estados Unidos.

“Os relatos de cidades e estados que adotaram as medidas para intervenção precoce na Covid-19 têm mostrado bons resultados, com a diminuição da carga sobre os sistemas de saúde”
Trecho de manifesto publicado por um grupo de médicos como anúncio em jornais impressos em 23 de fevereiro de 2021

AINDA É CEDO PARA DIZER

Ainda não há estudos científicos que avaliem como o tratamento precoce da Covid-19 influenciou no número de casos da doença em estados e cidades brasileiras. O que existe, até o momento, são reportagens jornalísticas que tentam traçar paralelos entre o tratamento precoce estabelecido em algumas regiões com a situação epidemiológica daquela área.

Em janeiro de 2021, por exemplo, o UOL publicou um levantamento mostrando que de 10 municípios com mais de 100 mil habitantes que distribuíram o “kit covid”, nove tiveram taxas de mortalidade maiores do que a média estadual. Foram elas: Goiânia (GO), Campo Grande (MS), Natal (RN), Cuiabá (MT), Boa Vista (RR), Jundiaí (SP), Gravataí (RS), Itajaí (SC) e Cachoeirinha (RS). Na época, a única exceção foi Parintins, no Amazonas. Enquanto o estado teve 159 óbitos por 100 mil habitantes, o município registrou 157 óbitos por 100 mil habitantes. 

(…) utilizando uma combinação de drogas, visando reduzir o número de pacientes que progridem para fases mais graves da doença (…).”
Trecho de manifesto publicado por um grupo de médicos como anúncio em jornais impressos em 23 de fevereiro de 2021

FALSO

Embora analgésicos, anti-inflamatórios, anticoagulantes e antibióticos sejam usados para minimizar sintomas ou tratar infecções secundárias da Covid-19, esses medicamentos não diminuem a carga viral e não têm ação efetiva contra o novo coronavírus. Até o momento, não há comprovação científica de que uma combinação de fórmulas de fato contribua para que a doença não evolua para um quadro mais grave. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), são insuficientes as evidências disponíveis sobre os benefícios do uso de cloroquina ou hidroxicloroquina e da ivermectina, por exemplo, drogas sugeridas pelo grupo que assina o manifesto como eficazes, seja de forma associada ou isolada, para reduzir a progressão da doença.  

É o caso de um estudo randomizado, publicado em julho do ano passado no periódico The New England Journal of Medicine, que mostrou que pacientes com sintomas leves ou moderados não tiveram melhora no estado clínico depois tomar hidroxicloroquina, sozinha ou associada a azitromicina. 

Procurado pela Lupa, um dos autores do estudo, o médico Israel Silva Maia, pesquisador do Instituto de Pesquisa do Hospital do Coração de São Paulo, confirmou que, até o momento, não foi concluído nenhum ensaio clínico que comprove que um ou mais medicamentos, juntos, diminuem a progressão da Covid-19. “O que se tem são estudos observacionais e que precisam ser qualificados”, disse, por telefone. “Seria interessante que o grupo que assina o manifesto e acredita em um tratamento precoce produzisse pesquisa e estimulasse a população a participar de estudos para efetivamente ter uma resposta. Até agora, não temos”.

Já o médico infectologista Estevão Urbano, da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI), afirmou, por telefone, que não há eficácia no conjunto de medicamentos no tratamento da Covid-19. “Muito controverso isso tudo, os estudos que mostram benefícios são de má qualidade. Os de boa qualidade, feitos com metodologia científica, são geralmente contrários aos uso. Neste momento não dá para falar que seja efetiva, precisaríamos de mais estudos para comprovar”. 

Em dezembro de 2020, a SBI publicou um documento no qual não recomenda tratamento farmacológico precoce com os medicamentos cloroquina, hidroxicloroquina, ivermectina, azitromicina, nitazoxanida, corticoide, zinco, vitaminas, anticoagulante, ozônio por via retal e dióxido de cloro. Segundo a nota, “estudos clínicos randomizados com grupo controle existentes até o momento não mostraram benefício e, além disso, alguns desses medicamentos podem causar efeitos colaterais”.

Ex-conselheiros contam por que o CFM não ousa desmentir governo sobre falsos tratamentos para covid-19

Responsável por investigar e punir profissionais da saúde que violem a ética médica, o Conselho Federal de Medicina levou nove meses para se pronunciar sobre os falsos tratamentos para covid-19 estimulados pelo governo federal. A omissão, no entanto, não acabou. Em um artigo publicado no último domingo, Mauro Ribeiro, presidente do CFM, deixou claro que o conselho não irá agir para acabar com a farsa do tratamento precoce.

O que as recentes notas e manifestações do CFM e dos conselhos regionais de medicina não dizem é que essa é uma orientação e vontade interna, com o intuito de não romper o alinhamento ideológico das chefias desses órgãos com o presidente Jair Bolsonaro, conforme revela a apuração do Intercept.

O Intercept_Brasil conversou com 11 médicos, ex-presidentes de conselhos regionais e ex-conselheiros dos órgãos, que revelaram os bastidores de ação dessas instituições e como elas se isolaram do debate sobre a maior crise de saúde pública do século, que já matou mais de 200 mil pessoas. Tudo para não corroer o apoio do presidente e de seus seguidores.

As fontes ouvidas, sob condição de anonimato, afirmaram que, internamente, a orientação aos médicos que integram tanto o conselho federal quanto o conselho regional de São Paulo, o maior do Brasil, é de evitar se posicionar. Seja em redes sociais privadas ou em entrevistas à imprensa, os profissionais de saúde devem evitar menções públicas sobre o uso de cloroquina, hidroxicloroquina e outros medicamentos defendidos pelo governo federal no combate à covid-19.

Estudos apontam que a cloroquina e a hidroxicloroquina são remédios com efeitos colaterais graves, como arritmia cardíaca e complicações renais, e comprovadamente ineficazes no tratamento da covid-19, mesmo em quadros graves. Em alguns casos, podem matar o paciente. O Código de Ética Médica veda ao médico a divulgação de promessas de resultados e cura, além de tratamentos sem comprovação científica, o sensacionalismo e a autopromoção. São os conselhos de medicina que, em tese, deveriam fiscalizar essas más práticas – mas estão omissos.

Após pressão da classe médica e da imprensa, os dois órgãos se manifestaram recentemente sobre o fantasioso “tratamento precoce”, defendido pelo Ministério da Saúde. Não há, porém, nenhuma intenção de desencorajá-lo. “O ponto fundamental que embasa o posicionamento do CFM é o respeito absoluto à autonomia do médico”, escreveu Ribeiro na Folha de S.Paulo. Para ele, as críticas ao uso de tratamentos desmentidos por diversos estudos não passam de uma “politização criminosa” a que o CFM não se renderá.

Bolsonaro e a omissão

O alinhamento entre Bolsonaro e o atual presidente do CFM, Mauro Ribeiro, foi elucidado ao longo de 2020. Em abril do ano passado, Ribeiro entregou ao presidente um parecer sobre o uso da hidroxicloroquina no tratamento da covid-19. A conclusão do cirurgião-geral, formado pela Faculdade de Medicina de Petrópolis, no Rio de Janeiro, foi de que não havia evidências de sucesso do medicamento no combate à doença. Mas, ainda assim, o presidente do CFM defendeu que os médicos estão autorizados a prescrever o medicamento, principalmente para casos leves, se julgarem necessário.

Um mês antes desse encontro, Bolsonaro compartilhou no Twitter um vídeo de Ribeiro. Nele, o presidente do CFM atacava os governadores do Nordeste que defendiam a proposta de trazer ao Brasil 15 mil profissionais da saúde brasileiros que atuavam no exterior para ajudar o setor público no combate à pandemia.

No dia 14 de janeiro deste ano, o governo federal lançou o aplicativo TrateCov e foi criticado por grande parte da comunidade científica do país. O app permitia que qualquer cidadão fizesse uma simulação de diagnóstico e recebesse indicação de tratamentos com remédios como a cloroquina. Demorou uma semana para que o conselho se manifestasse pedindo o cancelamento do aplicativo, que foi tirado do ar horas depois. Segundo o ministro Pazuello, a plataforma não teria sido disponibilizada, mas um “hacker” teria publicado o aplicativo de políticas públicas governamental.

Houve omissão também em relação à campanha de vacinação no país. O CFM não pressionou o governo federal em nenhum momento para agilizar a compra de vacinas contra a covid-19, enquanto Bolsonaro atuava em campanha contra a vacinação, dizendo que ele próprio não iria se vacinar e que as pessoas imunizadas poderiam virar um “jacaré”. O órgão só foi demonstrar apoio aos imunizantes depois de sofrer pressão pública de ex-dirigentes da entidade.

O Intercept procurou Mauro Ribeiro, presidente do conselho, mas não teve retorno.

Microcosmo de 2018

A mesma inação foi encontrada no Conselho Regional de Medicina de São Paulo, o Cremesp, considerado o maior do país, já que grande parte dos médicos brasileiros vivem no estado de São Paulo.

A primeira nota crítica às estratégias do governo federal também só veio após pressão da sociedade. Ainda em 14 de janeiro, ex-presidentes do Cremesp protocolaram uma carta no órgão pedindo que ele tomasse medidas legais e administrativas contra profissionais que divulgam informações falsas sobre o tratamento e a prevenção da covid-19.

Foi só depois disso, uma semana depois, que o Cremesp emitiu a primeira nota alertando a comunidade médica sobre a prescrição do tratamento precoce. “Reforçando que diretores clínicos, responsáveis técnicos e demais gestores não podem obrigar o médico a prescrevê-los”, escreveu o conselho.

O conselho paulista tem um cenário mais claro de influência do presidente Jair Bolsonaro. Além do fato de a atual gestão se autodefinir como “conservadora”, as fontes ouvidas pelo Intercept relataram que os médicos que hoje chefiam o conselho foram eleitos na esteira da vitória de Bolsonaro. Definem, inclusive, a eleição para a atual presidência do órgão como uma “micro-experiência da eleição à presidência [do Brasil]”. As duas ocorreram no mesmo período, em outubro de 2018.

Isso porque o pleito, conforme narram os médicos que participavam do conselho à época, foi marcado por discursos polarizados entre médicos de esquerda e de direita, além de uma campanha repleta de fake news relacionando candidatos a partidos de esquerda, como o PSOL e o PT.

O caso mais emblemático foi o de Marcos Boulos, infectologista e diretor da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, a FMUSP. Como o próprio sobrenome sugere, o médico é pai de Guilherme Boulos, ex-candidato à prefeitura de São Paulo pelo PSOL. Isso foi um banquete para os produtores de notícias mentirosas, que tentaram descredibilizar as propostas do médico para o conselho pelo fato de ser pai do líder do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto, o MTST.

Em uma das fake news, todos os líderes das seis chapas que participaram do pleito aparecem com suas definições e propostas de gestão. Boulos – o primeiro da imagem acima – tem suas propostas descritas como “socialistas”, é acusado de ter ligações com o PT e o PSOL e tem seu parentesco com Guilherme Boulos ressaltado no final do texto.

Ainda na mesma imagem, a chapa Mudança Já, ganhadora do pleito, divulga propostas pelo “fim da mordomia”, “fim do petismo” e “fim da partidarização do CRM [Conselho Regional de Medicina]“. Esse grupo, liderado pela médica Irene Abramovich e identificado pelo logotipo semelhante ao sinal de adição, é descrito como “conservador” no texto.

Outra fake news foi feita a partir de uma arte elaborada pela chapa de Boulos. Os fraudadores copiaram o layout colocaram o slogan da chapa do médico e uma foto do ex-presidente Lula. No centro, um texto diz que a chapa defendia a soltura do petista que, à época, estava preso na Superintendência da Polícia Federal em Curitiba.

A reportagem procurou Irene Abramovich, mas a médica não respondeu. A assessoria de imprensa do Cremesp enviou uma nota horas depois ao Intercept dizendo que o órgão tem se pronunciado sobre más práticas médicas e sobre a vacinação contra a covid-19.

“Além de mais de 700 fiscalizações – incluindo todos os hospitais de campanha –, o órgão interditou cautelarmente e está investigando profissionais que disseminavam fake news e falsos tratamentos, como o soro da imunidade, por exemplo, amplamente divulgado pela imprensa”, disse o conselho.

Sobre a hidroxicloroquina, o órgão ressalta que segue a decisão do conselho federal.

Já o CFM disse ser uma “autarquia pública que não possui vinculação política, ideológica ou partidária”. O órgão, em resposta à reportagem, ressaltou as recentes manifestações do presidente do Conselho em relação à cloroquina e à vacinação, além de outras notas publicadas no site da entidade defendendo a proteção dos profissionais da saúde durante a pandemia.

No entanto, há apenas uma nota, publicada em março de 2020, em que o conselho recomenda à população medidas reconhecidamente eficazes contra a covid-19, como uso de máscaras e o distanciamento social. Não há em nenhuma das postagens manifestações contrárias às dezenas de frases mentirosas e anticientíficas ditas pelo presidente da República.

‘É inaceitável’, diz Drauzio Varella

Cancerologista formado pela Universidade de São Paulo e médico pioneiro no tratamento da aids no Brasil, Drauzio Varella definiu como inadmissível a postura dos conselhos durante a pandemia.

“Nós temos a maior ameaça à saúde pública nos últimos 100 anos, e você não ouve uma palavra dos conselhos de medicina? Não dizem qual a posição deles? Nenhuma orientação aos médicos? Nenhuma palavra, com quase um ano de pandemia? É inaceitável”, me disse.

Na mesma linha do que outros médicos integrantes dos conselhos relataram ao Intercept, Drauzio ressaltou que mesmo as manifestações mais recentes dos órgãos ficaram pouco claras.

“Só assim [depois de pressão dos ex-presidentes] eles resolveram dizer o que pensavam? E ainda respondem de um jeito tão vago, que você não sabe exatamente o que querem dizer. Como se justifica uma coisa dessa? Num momento de crise, uma omissão desse nível?”, questionou.

Drauzio Varella relembrou o ano de 2018, quando o governo de Cuba retirou do Brasil os médicos que atuavam no país. Na ocasião, o CFM logo se manifestou contrário à manutenção dos médicos cubanos em solo brasileiro.

“Quando vieram os médicos cubanos, nós vimos a grita que foi. A grita que os conselhos fizeram, que era um absurdo, que estavam avacalhando a profissão médica, que os cubanos não tinham formação”, lembrou Drauzio. “Agora, você vê médicos dando nome completo defendendo tratamentos que não têm sentido, que foram abandonados no mundo inteiro. Eles demonstraram que não funciona. E o conselho fica quieto?”, indagou.

“Estamos com uma pandemia dessas. Os conselhos de medicina o que poderiam dizer? Primeiro, a coisa mais simples e imediata: usem máscara e evitem aglomerações. Você viu o conselho dar essa mensagem para a população? Uma coisa tão simples como essa”, concluiu.

CFM contra o lockdown

E como se não bastasse, chamou atenção uma nota do Conselho Regional de Medicina do Distrito Federal contra o lockdown. Contrariando todas as evidências científicas, a entidade afirmou que a medida se mostrou “ineficaz” e deu como exemplo desta tese o Amazonas, onde nunca ocorreu lockdown de verdade. O conselho também aproveitou para tirar de contexto a frase do oficial da OMS para a covid-19, David Nabarro que disse em outubro que a medida não deveria ser a primeira no cardápio de opções para o controle dos contágios (deveria haver testagem, isolamento, rastreamento de contatos…). Na época, bolsonaristas como a deputada federal Major Fabiana (PSL) aproveitaram para propagar que a OMS era contrária ao lockdown. Meses depois, o CRM-DF resolveu fazer o mesmo. 

Um grupo de mais de 300 médicos do Distrito Federal (DF) divulgou um manifesto afirmando que a direção central do CFM tem pressionado conselhos regionais de diferentes estados a "propagandear contra o fechamento das atividades que visa a defender a vida das pessoas contra a morte pela covid-19".

"Manifestamos nossa indignação e repugnância ao testemunhar que representantes de Conselhos médicos agem em favor da morte. Nós MÉDICOS abaixo assinados não podemos assistir omissos manifestações dessa ordem e afirmamos que não reconhecemos no CRMDF autoridade científica, política ou jurídica para representar a medicina do DF. Não nos aliamos àqueles que escolheram ser a vergonha no planeta inteiro diante de seus pares em outros países onde os médicos jamais cometeriam essa defesa da morte com danos irreparáveis à economia", diz o manifesto.

O que há por trás do lobby de Bolsonaro pelo uso da cloroquina

Em 11 de janeiro, o general Eduardo Pazuello sentou-se diante dos senadores para uma audiência pública. As imagens das mortes por asfixia nos leitos e dos enterros em série em Manaus corriam o mundo. Não havia, como ainda não há, um plano detalhado de imunização dos brasileiros. Ao contrário. O ministro e seu superior, Jair Bolsonaro, brigavam contra os fatos e contra o governador tucano João Doria no episódio que ficou conhecido como a “guerra das vacinas”.

Pressionado, Pazuello negou naquela tarde, aos senadores e aos jornalistas presentes, tudo registrado em áudio e vídeo, que o governo financiasse, divulgasse ou orientasse o uso de cloroquina e de outros medicamentos sem comprovação no combate à Covid-19. “O Ministério da Saúde não define qual remédio é usado para protocolo de remédio”, afirmou, em uma língua que lembra o português. “Essa é a posição oficial.”

Um documento do Exército obtido com exclusividade pela Carta Capital desmente, no entanto, o ministro. Obtido via Lei de Acesso à Informação, o despacho do comando não deixa margem a dúvidas: Pazuello mentiu descaradamente aos senadores. Não se perca pelo linguajar claudicante do informe. “Em 17 de junho de 2020”, descreve o texto, “foram expedidas novas Orientações do Ministério da Saúde para manuseio medicamentoso precoce de pacientes com diagnóstico da COVID-19, a respeito da prescrição de medicamentos, incluindo novamente a Cloroquina, em pacientes adultos, que apresentem sintomas leves, moderados ou graves da doença.” Ou seja, os militares apenas cumprem a decisão do ministério de fabricar e distribuir a cloroquina, ao contrário do afirmado por Pazuello.

O pedido de informação partiu do gabinete do senador petista Humberto Costa e buscava detalhes sobre a decisão de produzir lotes adicionais de cloroquina de 150 miligramas no Laboratório Químico Físico do Exército no ano passado. A resposta inclui um histórico de portarias, notas técnicas e orientações emitidas pelo Ministério da Saúde que recomendam e regulamentam a prescrição do placebo.

A mentira do general Pazuello é parte de uma história nebulosa em torno do estímulo ao consumo de cloroquina no País. Não se trata apenas do obscurantismo anticientífico. Empresários apoiadores de Bolsonaro têm lucrado alto com o medicamento, que tem em Bolsonaro o seu maior garoto-propaganda.

No ano passado, o comércio do kit Covid” cresceu surpreendentes 550% e movimentou mais de 500 milhões de reais. Até novembro, o governo federal havia distribuído 5,8 milhões de comprimidos produzidos no laboratório do Exército. Sobram recursos e lucros na aposta no placebo, faltam dinheiro e empenho para garantir vacinas à população. Segundo a Frente Nacional de Prefeitos, 40% das capitais e 60% dos demais municípios estão sem estoques de imunizantes. Em algumas cidades, entre elas o Rio de Janeiro, a vacinação foi suspensa antes que os idosos acima de 90 anos tomassem a segunda dose. O desabastecimento ocorre no pior momento da pandemia. Os mais de 250 mil mortos no Brasil correspondem a 10% das vítimas no mundo e três novas mutações do vírus, com alto potencial de infecção, passaram a circular no território nacional. 

Diante da tragédia, qual foi a decisão de Pazuello? Aumentar o estoque do placebo. No site de compras do governo federal há uma convocação pública para a produção adicional de cloroquina e hidroxicloroquina. Só para fazer propaganda do “tratamento precoce”, a Secretaria de Comunicação torrou 23 milhões de reais. “A rigor, se estivéssemos em um ambiente que prezasse pela verdade, um Congresso mais forte, que exercesse o seu papel fiscalizador, Pazuello poderia até ser enquadrado em crime de responsabilidade por orientar um medicamento que não pode ser utilizado em uma pandemia. É um absurdo. Houve distribuição até por meio de planos de saúde”, afirma Costa.

As vendas de cloroquina nas farmácias e drogarias saltaram de 963 mil unidades em 2019 para mais de 2 milhões no ano seguinte. O comércio da ivermectina, outro medicamento sem efeito comprovado, pulou de 8 milhões de unidades para 52,3 milhões no mesmo período. Pior, o excesso de consumo do antiparasitário provocou uma onda de casos de hepatite pelo País.

Consta que Bolsonaro decidiu promover a cloroquina para agradar a Donald “I Love You” Trump. O então presidente dos Estados Unidos tinha um interesse particular no remédio, por ser um investidor na francesa Sanofi Aventis, único laboratório estrangeiro autorizado a comercializar as pílulas para o Brasil. Não só. Segundo reportagem do New York Times, o bilionário Ken Fisher, um dos maiores doadores do Partido Republicano, também figura entre os acionistas da Sanofi, enquanto o ex-secretário de Comércio Wilbur Ross administrava um fundo com aplicações vultosas na empresa. Em junho do ano passado, o Ministério das Relações Exteriores fechou parceria com Washington e recebeu uma doação de 2 milhões de doses de hidroxicloroquina, cuja validade estava prestes a acabar. O chanceler Ernesto Araújo comemorou o “feito” em uma rede social: “Cooperação Brasil-EUA no combate ao Covid-19 continua avançando. Colaboraremos com os EUA na pesquisa clínica da hidroxicloroquina e no desenvolvimento de uma vacina”.

A Sanofi agradece, mas não lucra sozinha. Outros três laboratórios possuem autorização da Agência Nacional de Vigilância Sanitária para produzir e vender cloroquina no Brasil. Bolsonaro com frequência usa as suas lives às quintas-feiras para fazer “propaganda espontânea” do produto. O Reuquinol, cuja base é composta de cloroquina, é um dos preferidos do ex-capitão, que chegou a exibir uma caixa durante reunião do G-20, clube das 20 maiores economias do planeta. Um adendo: Bolsonaro é o único dos presidentes do G-20 que se recusa abertamente a tomar a vacina contra a Covid-19. O presidente tentou ainda oferecer o comprimido à ema do Palácio da Alvorada. A ave, como em outras ocasiões, bateu em retirada e fez questão de manter distanciamento social do assediador. 

O dono do laboratório que produz o Reuquinol é Renato Spallicci, bolsonarista empedernido. Até fechar o acesso às suas redes sociais, o empresário tinha o hábito de atacar Lula e Dilma Rousseff e defender o ex-capitão. Em um dos posts, exibiu um desenho de Bolsonaro com o tradicional gesto da arminha, acompanhado do seguinte texto: “Acordar sabendo que seu presidente não é do PT, não tem preço”.  Na campanha presidencial de 2018, fez questão de se declarar: “Renato Spallicci vota em Bolsonaro”. Apesar de atuar no setor farmacêutico, ele abraça as teorias da conspiração a respeito da origem da epidemia, atribuída ao “vírus chinês”. No Twitter, além de defender a cloroquina, o empresário dissemina: “O Covid nasceu na China, cresceu na Itália, estourou na França, fez graduação na Espanha, doutorado nos EUA e política no Brasil”. Ele curte mensagens do general Augusto Heleno, chama políticos progressistas de comunistas e dá aval à tese de que João Doria, governador paulista, e Alexandre Kalil, prefeito de Belo Horizonte, apreciam a “ditadura chinesa”. 

Um apoio tão entusiasmado haveria de ser recompensado. Brasília influiu diplomaticamente para alavancar a produção de Spallicci. Uma troca de mensagens entre o embaixador brasileiro em Nova Délhi, Elias Luna Santos, e autoridades da Índia mostra que o Itamaraty intermediou a negociação para a importação de insumos usados na fabricação da hidroxicloroquina. Quem ganhou com as negociações? A Apsen, empresa do aliado. “A fabricação depende de matéria-prima importada, em sua maior parte da Índia. Em 25 de março de 2020, o governo indiano proibiu a importação desses insumos devido à grande demanda mundial. (…) Foi estabelecido um canal de comunicação aberto com o Ministério da Saúde e demais órgãos na esfera federal – respeitando todas as regras setoriais e o cumprimento das leis do País – com o objetivo da manutenção do atendimento de pacientes crônicos, para que não houvesse interrupção ou prejuízo em seu tratamento. O governo atuou a partir dessa interlocução ampla e geral do setor para a liberação”, informa a Apsen em nota. A empresa diz ainda que Spallicci não mantém qualquer relação pessoal com Bolsonaro.

Outro beneficiado é o EMS, controlado pelo empresário Carlos Sanchez. Um dos maiores bilionários do País, segundo a revista Forbes, fortuna calculada em 2,5 bilhões de dólares, Sanchez reuniu-se ao menos duas vezes com Bolsonaro, desde o início da pandemia. Meses atrás, em nota oficial, o laboratório admitiu a ineficácia do medicamento no tratamento do vírus. “As pesquisas foram conduzidas pela Coalizão Covid-19 Brasil, formada pelos hospitais Israelita Albert Einstein, Sírio-Libanês, HCOR, Oswaldo Cruz, Moinhos de Vento, Beneficência Portuguesa, Rede Brasileira de Pesquisa em Terapia Intensiva (BRICNet) e BCRI. O resultado, publicado no New England Journal of Medicine no dia 23/07, atestou que o medicamento não promoveu melhoria nos quadros clínicos”.

O terceiro desta lista é o Cristália, cujo cofundador e acionista, Ogari de Castro Pacheco, é aliado de Bolsonaro, filiado ao DEM e segundo suplente do emedebista Eduardo Gomes, ex-líder do governo no Senado. Em nota, o laboratório nega ter lucrado com o medicamento. O Quinacris, diz a nota, é fornecido unicamente ao Sistema Único de Saúde e a hospitais particulares e o fato de não ter havido uma alta das doenças para as quais o medicamento é recomendado – malária, amebíase hepática, lúpus –, igualmente não ocorreu um “aumento significativo na produção ou venda”.

A obsessão de Bolsonaro pelo placebo não passa despercebida pelos demais poderes da República. No domingo 21, a ministra Rosa Weber, do Supremo Tribunal Federal, enviou uma queixa-crime contra o presidente ao procurador-geral da República, Augusto Aras, por sua insistência em defender o uso da cloroquina. A denúncia, feita pelo PDT, aponta que ao menos cinco ministérios, mais o Exército, foram mobilizados para a tarefa de produzir e distribuir o “kit Covid”. No período da pandemia, o governo distribuiu 5,4 milhões de comprimidos de cloroquina e 481 mil de hidroxicloroquina. Só o laboratório militar foi forçado a produzir 3,2 milhões de doses com um gasto estimado de 1,6 milhão de reais, feito sob dispensa de licitação em ao menos nove contratos.

“Estamos pedindo a responsabilização criminal, pois essa política agravou os efeitos da pandemia. Enquanto o mundo inteiro compra vacina e dissemina o uso de máscara, aqui Bolsonaro elege a cloroquina como solução”, afirmou Carlos Lupi, presidente nacional do PDT, um dos autores da petição que resultou na notícia-crime no STF. Sobre a celeridade do envio da pauta à Procuradoria-Geral da República, Lupi acredita que o Supremo tem pressa em dar uma resposta à sociedade.

Mais dados obtidos via Lei de Acesso à Informação apontam um aumento vertiginoso na produção do medicamento pelo Laboratório do Exército. Para efeitos de comparação, em cinco anos foram produzidos 265 mil comprimidos de cloroquina de 150 miligramas. O gasto somou 55,6 mil reais. No período de 30 dias durante a pandemia – entre março e abril –  foram produzidos 1,2 milhão de comprimidos, que consumiram 261 mil reais. A força, que teria produzido um total de 3,2 milhões de cloroquina em 2020, também está na mira do Tribunal de Contas da União por suspeita de superfaturamento. Em maio, os insumos adquiridos da empresa Sul Minas registraram um aumento de 167% nos preços. Não bastasse, o Ministério da Saúde desviou 70,4 milhões de reais do programa emergencial de combate à Covid-19 para a produção de 4 milhões de comprimidos de cloroquina pela Fiocruz, o laboratório estatal que sofre com a falta de insumos para a fabricação da vacina Oxford/AstraZeneca. 

Além da queixa-crime de Rosa Weber, correm quatro investigações sobre a atuação de Bolsonaro e Pazuello no combate à pandemia. Todas apuram os gastos e o apoio na produção de remédios sem efeito comprovado. Ricardo Lewandowski, colega de Weber no STF, determinou a abertura de inquérito sobre a responsabilidade do ministro da Saúde na crise de Manaus. Enquanto os pacientes da capital amazonense, literalmente, asfixiavam sem oxigênio, o ministério enviou 120 mil comprimidos de cloroquina e tentou forçar a secretaria estadual a impor o “tratamento precoce”. Pazuello também enviou uma força-tarefa de 11 médicos para difundir a cloroquina em solo manauara. Um dia antes da chegada da equipe enviada pelo ministro, a secretária da Saúde, Mayra Pinheiro, assinou ofício no qual exigia a prescrição do “kit Covid”. A médica ficou famosa, em 2013, ao agredir colegas cubanos que vieram ao Brasil integrar o programa “Mais Médicos”.

O TCU classifica como ilegal o uso de recursos do SUS para o fornecimento do chamado “tratamento precoce” – cloroquina, hidroxicloroquina e ivermectina. O Ministério Público Federal, por seu turno, instaurou inquérito para apurar supostos atos de improbidade do governo federal e de Pazuello pela aplicação ilegal de dinheiro público, em especial do Fundo Nacional de Combate à Covid, na aquisição do “kit Covid”. São investigadas ainda a baixa execução orçamentária nas ações de enfrentamento da doença, a falta de envio de equipamentos de proteção individual e a omissão na compra de vacinas. As cobranças estendem-se ao Exército e à Aeronáutica.

O Conselho Federal de Farmácia rejeita o uso de medicação de efeito não comprovado contra o vírus. “O CFF se posicionou inúmeras vezes diante da categoria e da sociedade, reafirmando sua defesa da assistência à saúde baseada em evidências”, afirmou Tarcisio Palhano, assessor da presidência. O Conselho Federal de Medicina, por sua vez, mantém uma postura ambígua. A diretoria, que apoia Bolsonaro, liberou os médicos a decidirem se prescrevem ou não o remédio. Quase 30% dos profissionais da área, apelidados de “cloroquiners”, apoiam o tal tratamento precoce, embora as pesquisas desenvolvidas nos últimos meses sejam suficientes para comprovar a ineficácia dos placebos e o risco à saúde em pacientes com Covid-19. No pior momento desde o início da pandemia, uma associação chamada Médicos pela Vida achou oportuno publicar nos jornais um “informe publicitário” em favor do “kit Covid”. Não há abaixo-assinados no anúncio, que cita a posição do CFM para defender o comprimido.

Bolsonaro prossegue em sua campanha. Em uma live deste ano, o ex-capitão, do alto de seu conhecimento científico, garantiu que a cloroquina não produz efeitos colaterais e que 200 funcionários do Palácio do Planalto teriam usado o “kit Covid”. “O ministro da Saúde esteve lá (Manaus) na segunda, providenciou oxigênio. Começou o tratamento precoce, que alguns criticam. Quem critica, não tome. Fique tranquilo. Agora, tem médico que vai receitar e pode receitar tratamento precoce. Se o médico não quiser, procure outro médico. Não tem problema”, aconselhou.

Enquanto isso, o Brasil continua a deslizar no caos. Janeiro e fevereiro registraram as maiores médias de mortes desde o começo da pandemia. Estacionamos no incômodo patamar de ao menos mil óbitos por dia. De acordo com Jonas Donizetti, presidente da Frente Nacional de Prefeitos, a situação é trágica. A única solução no momento, afirma, seria aplicar doses únicas no máximo possível de brasileiros até a chegada de novos lotes. “O Pazuello disse que vamos receber uma remessa de 4,7 milhões doses e que podemos aplicar tudo de uma vez. Por isso, enviamos um documento com um pedido de confirmação.” Para o dirigente, a demora na compra de vacinas, uma comunicação falha e a falta de um centro de comando prejudicaram o Plano Nacional de Imunização. Com a decisão do Supremo Tribunal Federal de liberar a compra direta por estados e municípios, a frente decidiu montar um consórcio público. “Pedimos também que o ministro acelere a compra do produto da Pfizer, a primeira a receber o registro definitivo.”

Bolsonaro não tem do que reclamar. A decisão do STF, em grande medida, o livra do compromisso constitucional de suprir a demanda pela vacina. Os votos dos ministros servirão, mais uma vez, para o presidente se esquivar da responsabilidade. Sem um Congresso para chamá-lo às falas, o presidente fica livre para desempenhar com afinco o papel de “capitão cloroquina”. Nos laboratórios dos amigos, a caixa registradora não para de funcionar.

Cloroquina à vontade

Uma reportagem do site Agência Pública – com base em documentos inéditos obtidos via Lei de Acesso à Informação - mostrou que o Governo Federal e as Forças Armadas distribuíram 2,8 milhões de comprimidos de cloroquina produzidos pelos laboratórios do Exército e Marinha à população de todos os estados brasileiros.

A maior parte desses medicamentos, mais de 2,4 milhões, foi distribuída via Ministério da Saúde a secretarias de saúde de estados e municípios. O restante, cerca de 441 mil comprimidos, foi enviado pelas próprias Forças Armadas a hospitais militares, depósitos e postos de saúde ligados ao Exército, Marinha e Aeronáutica.

De acordo com documentos enviados pelo próprio Exército, o Laboratório Químico e Farmacêutico do Exército (LQFEx) e o Laboratório Farmacêutico da Marinha (LFM) produziram ao todo 3,2 milhões de comprimidos de cloroquina em 2020. A quantidade foi 25 vezes a produção habitual por ano: o Exército respondeu que, antes da pandemia, o laboratório produzia “250 mil comprimidos a cada dois anos para o combate à malária”. O Exército não informou o destino de 348 mil comprimidos produzidos em 2020, mas que não constam nos registros de envio ao Ministério da Saúde ou a unidades militares.

Segundo a Pública apurou, o Exército começou a fechar contratos de produção de cloroquina com dispensa de licitação já em março de 2020, quando o ministro da Saúde ainda era Luiz Henrique Mandetta — foi apenas em maio, após a saída do segundo ministro a ocupar o cargo durante a pandemia, Nelson Teich, que o governo publicou um novo protocolo orientando uso da cloroquina para tratamento de pessoas com sintomas leves de Covid-19. Três contratos sem licitação foram fechados no dia 20 de março para aquisição de cloroquina, e cinco no dia 23, para compra de insumos para produção do remédio.

No dia 31 de março, os contratos já davam resultado: 25 mil unidades de cloroquina produzida pelo Exército foram enviadas a dois estados brasileiros — 20 mil para São Paulo e 5 mil para o Distrito Federal. Ao todo, o Exército fechou mais de R$ 1,5 milhão em contratos sem licitação para produzir cloroquina ou comprar insumos entre março e maio de 2020.

Toda a produção de cloroquina das Forças Armadas em 2020 aconteceu em três meses — março, maio e junho. A distribuição, contudo, aconteceu durante todo o ano, começando em março e seguindo até janeiro de 2021.

De acordo com os dados a que Pública teve acesso, o último envio foi registrado no dia 19 de janeiro, quando 25 mil unidades de cloroquina foram encaminhadas para um depósito da 12ª Região Militar do Exército. A região abrange os estados do Amazonas, Acre, Rondônia e Roraima. Na época, o Amazonas enfrentava há dias o colapso no sistema de saúde, com pacientes morrendo por falta de oxigênio nos hospitais da capital Manaus. O próprio ministro da Saúde e general de divisão do Exército Brasileiro, Eduardo Pazuello, havia visitado a cidade e coordenado o envio de hidroxicloroquina e oseltamivir ao estado.

Produção e distribuição de cloroquina e atuação de Pazuello são investigadas pelo TCU

Segundo a reportagem apurou, atualmente, a produção, envio e recomendação de cloroquina pelo Governo Federal são alvo de três processos no Tribunal de Contas da União (TCU).

Um deles investiga possíveis irregularidades relacionadas à compra de insumos para produção de cloroquina pelo Comando do Exército. Além de questionar o governo sobre as dispensas de licitação para produção desses medicamentos, o TCU perguntou sobre a distribuição da cloroquina, se ainda há estoque do remédio e se haverá produção em 2021. O Tribunal também investiga o destino de 2 milhões de comprimidos de cloroquina recebidos do governo dos Estados Unidos, à época comandado por Trump.

Após pedido de informação da Pública, o Ministério da Saúde confirmou o recebimento de hidroxicloroquina 200 mg dos EUA e da empresa Sandoz/Novartis e disse se tratar de uma doação.

Mundo enterra cloroquina, e Bolsonaro busca novo ‘milagre’

Depois de seis testes clínicos, com mais de seis mil pessoas e meses de estudos, a Organização Mundial da Saúde (OMS) chegou à constatação nesta semana de que a hidroxicloroquina não funciona e que instituições e governos deveriam suspender qualquer orçamento para o produto e redirecionar suas atenções a novas apostas.

E assim parece ter feito o Brasil do presidente Jair Bolsonaro. A nova aposta é o envio de uma equipe de dez integrantes do governo, incluindo o ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, para Israel no próximo sábado (6) para conhecer o spray nasal EXO-CD24, testado contra a covid-19. Um acordo deve ser anunciado para permitir que o produto passe por pesquisas no Brasil, depois de um sinal verde da Anvisa.

O responsável israelense pelo desenvolvimento do novo produto deixou claro: o medicamento não está pronto para uso e precisa de novos testes. Quem fez a declaração é Nadir Arber, do Hospital Ichilov de Israel.

Nas redes sociais, Bolsonaro diz que o spray nasal teve uma "eficácia próxima de 100% (29/30), em casos graves, contra a Covid".

De fato, os pesquisadores responsáveis pelo produto depositam confiança na aposta. Mas são cautelosos em declarar qualquer resultado definitivo. Arber deixou claro que a inovação está apenas em seus primeiros dias de testes. "Não se pode dizer que o tratamento é efetivo com base em apenas em 35 pacientes", disse.

Por enquanto, o spray completou apenas na Fase 1 de testes e o produto foi aplicado em 35 pessoas. "Para ser eficiente, ele precisa ser comparado com placebo", insistiu Arber. Para o próprio inventor, o produto precisa ser confirmado por testes clínicos, em Fase 2 e Fase 3.

Ainda assim, o que o pesquisador declarou foi que os resultados iniciais trouxeram esperança de que o produto seja uma opção real. Dos pacientes que receberam o tratamento, todos tinham desenvolvido a covid-19 em condições severas. O resultado foi uma "melhoria substancial" em praticamente todos eles, assim como melhoria da taxa respiratória e outros indicadores.

Questionado sobre a relação com o Brasil e a proposta de aprovação de uso emergencial, Arber destacou a conversa entre Netanyahu e Bolsonaro. Segundo ele, uma eventual aprovação pode ser facilitada com o envolvimento de governos. "Se tivermos isso, podemos fornecer ao mundo em questão de alguns meses", disse. "Mas ao mesmo tempo precisamos ser extremamente conservadores para garantir que a segurança seja central", alertou.

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Ricardo Noblat (Veja), Edison Veiga (DW), Marco Antônio Carvalho (Estadão), Anna Beatriz Anjos, Bianca Muniz, Bruno Fonseca, Larissa Fernandes (Agência Pública), Ana Flávia Gussen (Carta Capital), Carol Macário, Ítalo Rômany, Marcela Duarte, Maurício Moraes e Nathália Afonso (Piauí), Leonardo Martins (The Intercept_Brasil), Marina Oliveira (Congresso em Foco), Jamil Chade (UOL) - Edição Semana On


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