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Sexta-Feira 05.mar.2021

Ano IX - Nº 433

Coluna

Cotidiano do jornalismo que desola

Falta de iniciativa condena o jornalismo a um exercício burocrático e insosso.

Postado em 19 de Dezembro de 2014 - Gerson Martins

Nada pior para a informação do que um jornalista preguiçoso. Nada pior para a informação do que um jornalista preguiçoso.

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O cotidiano da produção jornalística muitas vezes se realiza de forma desolada e sem atrativos. De certa forma, isso é um paradoxo, visto que muito escolhem essa profissão porque é uma atividade de constantes desafios, nada rotineira, instigante e com um certo contexto de investigação e do “querer mudar o mundo”. No entanto, o cotidiano das redações não apresenta esse tipo de situação.

Os jornais impressos, regra geral, estão com as página repletas de material de agência de notícias, o que reduz o espaço para veicular notícias factuais ou reportagens aprofundadas. Também é realidade o fato que muitas notícias factuais, do cotidiano da produção jornalística, da reportagem decorrem de fatos rotineiros que, por mais que sejam inusitados, muitas vezes, não passam dos “boletins de ocorrência”. É o acidente de rua, é o assalto do comércio, o ladrão de casa e até mesmo o assassinato do amante da namorada ou coisa semelhante. Para o romântico do jornalismo, para o foca, para aquele que aprendeu e desejou, no curso de Jornalismo, uma vida mais agitada, desafiadora essas matérias se constituem no “arroz com feijão” de muitos jornais e com apuração que não passa de uma poucas ligações de telefone.

O cotidiano da apuração jornalística ocorre nos gabinetes, nas mesas dos repórteres que não levantam a bunda para fazer uma apuração digna, correta e verdadeiramente jornalística.

E aqui é preciso abrir um novo parágrafo porque não nada mais antijornalismo, se se pode expressar desta forma, do que uma apuração feita pelo telefone. Como dizia Claudio Abramo, “lugar de repórter é na rua”. No entanto, o cotidiano da apuração jornalística ocorre nos gabinetes, nas mesas dos repórteres que não levantam a “bunda” para fazer uma apuração digna, correta e verdadeiramente jornalística. As estruturas das redações estão de tal forma precarizadas que as matérias são produzidos com “meia dúzia” de telefonemas e, portanto, sem ouvir os vários lados da informação. Sim, porque nem sempre a fonte está disponível para atender esses telefonemas. E a matéria precisa ser fechada, precisa ser publicada no dia seguinte. Então se escreve com o material que se tem em mãos, mesmo que apresente apenas um lado da informação.

Esse tipo de notícia, reportagem tem se constituído no corriqueiro, no dia a dia das páginas dos jornais. E a fonte mais comum para esse tipo de jornalismo é o tal do “BO”, boletim de ocorrência. No máximo, com as fontes digitais e com as mídias sociais, o repórter recorre a internet para “rechear” sua matéria. Lamentavelmente esse é o cotidiano de muitos jornais, mesmo para as edições produzidas na e para a internet, onde deveria haver uma dinâmica maior da produção e uma apuração mais rigorosa e completa.

O cotidiano jornalístico provoca um desânimo entre os profissionais do jornalismo. São poucas as situações, mesmo em matérias de BO, que o repórter se sente instigado, desafiado a produzir uma material de melhor qualidade. Diga-se! A qualidade do jornalismo atual está abaixo do peixe aprodrecido do dia seguinte para usar a metáfora de que o jornal do dia seguinte serve unicamente para embrulhar o peixe. E falar em qualidade do jornalismo significa fazer uma crítica séria, qualificada, uma função de ombudsman tão necessária no jornalismo atual. Nesse aspecto, é importante destacar o trabalhos dos chamados “observatórios de imprensa”, projeto implementado no curso de Jornalismo da UFMS, por meio do Laboratório Observe,  financiado pelo CNPq. O projeto objetiva realizar, semanalmente, análise e crítica do que é produzido no jornalismo local, seja no impresso, na internet ou na televisão.


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