Semana On

Quarta-Feira 14.abr.2021

Ano IX - Nº 438

Coluna

Mitomania

Idelber Avelar fala da síndrome presidencial, drogas, loucuras e pandemia

Postado em 03 de Março de 2021 - Idelber Avelar

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O bolsonarismo mente. Não mente como outros políticos mentem. A mentira é o seu modo de operação.

“A mentira é o único recurso dos canalhas. O bolsonarismo mente sobre o STF ter delegado somente a estados e municípios as ações de combate a pandemia, o STF apenas fez cumprir a autonomia prevista no nosso regime federalista, mas em momento algum impediu que o governo federal agisse. O bolsonarismo mente sobre os repasses a estados e municípios, confundindo repasses constitucionais com repasses extraordinários para o combate a pandemia, esquecendo-se que muitos estados, mesmo levando em conta a pandemia, repassam volume MUITO maior de recursos a Brasília do que recebem de volta. O bolsonarismo mente em sua retórica de que o "dinheiro para abertura de leitos foi dado", esquecendo-se que somente leitos não bastam, que faltam insumos, faltam profissionais, que mesmo países desenvolvidos veem seus sistemas de saúde colapsarem se a disseminação do vírus sai de controle. O bolsonarismo mente sobre o uso de máscaras, mente sobre estudos e eficácia de "tratamentos precoces", mas, sobretudo, mente sobre as vacinas, mentiu sobre os testes destas, mente sobre os efeitos adversos destas, mente sobre o porque de não ter assinado contratos de compra, mente sobre absolutamente TUDO, Jair inclusive mentiu sobre a vacina que a própria mãe tomou, a região onde foi aplicada só tinha a coronavac no dia, o lote era da coronavac, mas o presidente do Brasil resolveu literalmente INVENTAR uma historia e acusar um profissional de saúde de ter falsificado o cartão de vacinas, pior, expôs o nome desse profissional em sua live, se isso não é CRIME, eu não sei mais o que é, se isso não escancara nossa miséria completa enquanto país, enquanto sociedade, eu não sei mais o que o fará...e ninguém faz nada...e esse absurdo só se soma a tantos outros que acabam sendo esquecidos no mar de absurdos que nos afogamos diariamente, anestesiados demais para sentir a falta de ar(a sensação horrível de quem morre de covid). A culpa é sempre dos outros, nunca de Jair, a responsabilidade é sempre dos outros, nunca de Jair. Jair é o perseguido, o injustiçado, o herói incompreendido...se você ainda crê nisso, meu amigo, você está doente e a sua desordem psíquica é responsável direta pelo fosso em que nos encontramos.”

Por Sérgio Pessanha

DROGAS, LOUCURAS E PANDEMIA

Para distraí-los das desgraças, vou contar-lhes uma história sobre drogas e loucura pandêmica.

Aconteceu comigo, ontem. A única prova que tenho é que eu seria incapaz de inventar uma coisa dessas.

Fui a um Walgreens, uma "drugstore", comprar o último presente do Benjamin. Como muita gente sabe, drugstore nos EUA é a farmácia onde você também compra bugiganga eletrônica, sorvete, revista, cigarros, cerveja. Aliás, é dos únicos lugares que vendem cigarro.

Peguei o presente de Benjamin -- de plástico, colorido, lindo -- e entrei na fila. Todo mundo distanciado, de máscara, e tal e cousa. Na minha frente, desesperado, um cabra tentava comprar algo sem ter identificação com sua idade. Ele era claramente maior de 21, tinha talvez 25, 30, talvez 35, mas com certeza não era adolescente.

A Sra. do caixa se recusava a vender o produto porque ele não tinha prova de que era maior de idade.

A ironia é que o produto que ele tentava comprar era um patch de nicotina, e ele argumentava que, sofrendo na pandemia, já estava sem fumar há um mês, mas que naquele momento ele não tinha um documento de comprovação de idade e, para piorar, TINHA a droga dentro do bolso, um maço de cigarros.

Naturalmente, a Sra. do caixa olhou para ele com a cara de total desentendimento e eu, atrás dele, viciado em nicotina há 36 anos, mirei-o com o olhar de total compreensão enquanto pensava, estupefato, se eu estava em um romance de Saer ou de James.

A situação se prolongou o suficiente até que eu disse: "eu compro a porra do patch de nicotina pra você. Tenho documento aqui, pago, você me dá o dinheiro; você está pagando em cash mesmo, fim do problema".

Mal sabia eu que, naquele momento, eu estava me oferecendo para cometer um crime segundo o código penal da Louisiana. Mas a Sra. do caixa se adiantou e disse: "não, se você está dizendo que é para ele, eu também não posso lhe vender o produto".

A situação se prolongou mais um pouco, como se fosse uma peça de Beckett em que Godot não chegava, até que o cabra perdeu a paciência, saiu dizendo "tudo bem, resolvo de outro jeito" e, no meio do caminho, deu a volta para acenar e me agradecer.

Paguei o presentinho de Benjamin e saí imaginando qual história louca ainda falta para acontecer, e me conformando com a ideia de que nunca vou saber se o sujeito fumou ou não fumou os cigarros que trazia no bolso.

TERMÔMETRO

Um amigo meu, o Sarubo, fez ontem uma observação muito aguda.

O Jornal Nacional é um termômetro do Brasil em muitos aspectos, e olhando os números do Ibope durante a primeira grande onda de mortes por covid no país, você nota uma subida acelerada da audiência do telejornal.

Agora, nesta segunda onda do morticínio, bem pior, aliás, a audiência do JN tem se mantido mais ou menos estável, com os números de sempre.

A sociedade brasileira, ou quase a totalidade dela, já está anestesiada, naturalizando o morticínio.

CHAMADO À ORGANIZAÇÃO

Um chamado à organização de emergência, de autodefesa da sociedade civil brasileira, feito pelo Thomas Conti, pesquisador que tem estado com a mão na massa ao longo da pandemia.

A situação é grave, desesperadora mesmo.

“1.910 mortes nas últimas 24hrs

Nem o país, nem governos estaduais fazem ação de identificar quem teve contato com suspeitos de covid e isolá-los para conter transmissão.

Agora voltamos a debater lockdown como se fosse possível resolver o problema em 2-4 semanas. O problema é de 2021 inteiro, especialmente com uma vacinação lenta como a nossa.

Desde o começo do ano passado, a motivação central de se recomendar "lockdown" era baixar o número de novas infecções para um nível que seja possível controlar com rastreio e isolamento de contatos. Conseguindo baixo número de novas infecções, reabre com segurança que por muitos meses a situação estará sob controle pelo rastreio de contatos. Diversos países mostraram que é possível, dentre eles Austrália, Nova Zelândia, Taiwan, Coreia do Sul, Japão, Vietnã, Uruguai.

Sem rastreio, ao relaxar o "lockdown" casos voltam a crescer, recolocando o problema.

Para ilustrar, é como se Brasil estivesse com pé pisado no acelerador (contágio sem rastreio ativo) e quando fica perigoso debate puxar freio de mão ("lockdown"). Mas mantém o pé no acelerador mesmo com freio de mão puxado. E depois que solta o freio de mão, continua acelerando. É irracional.

E não haverá política de redução de contágio pelo governo federal. Não por falta de pressão, mas porque governo já deixou muito claro que não quer. Não quis no último ano inteiro, não quis nem recomendar uso de máscara. Não será agora. Então precisamos de uma campanha massiva da sociedade civil, porque o problema não vai desaparecer por milagre. Pautas mínimas dessa campanha:

+ Máscaras melhores (PFF2/N95) - Leia: http://bit.ly/3qdxyuJ

+ Comunicação imediata de contatos caso suspeite de Covid

+ Distanciamento

+ Uso de espaços bem ventilados

Inclusive, cada um de nós pode ajudar muito a romper cadeia de transmissão da Covid. Se você estiver com suspeita de Covid, NÃO ESCONDA ESSA INFORMAÇÃO! Inclusive, sequer espere o resultado do teste de covid. Informe imediatamente todas as pessoas que você teve contato na última semana. Peça para elas ficarem atentas a sintomas e triplicarem cuidados, por exemplo evitando exposição a outras pessoas e usando máscaras melhores. Muita gente tem vergonha de dizer que está com suspeita ou que pegou, temos que combater esse estigma porque ele coloca muitas outras pessoas em risco.

Precisamos quebrar a transmissão da Covid-19 antes que ela quebre o país, ou que surja uma variante que quebre o poder das nossas vacinas. É urgente.”

O NÍVEL DA INSANIDADE

Um médico infectologista foi espancado em Toledo, no Paraná, após alertar um grupo de pessoas sobre os riscos da COVID-19. O ataque aconteceu na última sexta-feira (26/2) e acabou viralizando nas redes após o médico José Eduardo Mainart Panini fazer um relato das agressões no Instagram.


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