Semana On

Domingo 11.abr.2021

Ano IX - Nº 438

Saúde

Após fala irresponsável de Bolsonaro, OMS reforça importância do uso de máscara e isolamento

ONU denuncia governos que disseminam ‘desinformação mortal’ sobre covid-19

Postado em 26 de Fevereiro de 2021 - Jamil Chade e Josias de Souza (UOL) – Edição Semana On

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A Organização Mundial da Saúde (OMS) voltou a defender o uso de máscaras e a adoção de medidas de isolamento social, como forma de frear a pandemia da covid-19. Nesta sexta-feira (26), a entidade deixou claro que tais medidas funcionam.

Na quinta-feira (25), enquanto o Brasil registrava um recorde de mortes, com 1.582 casos, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) optou por questionar o uso de máscaras e o isolamento social.

Questionado sobre qual seria a posição da OMS sobre o uso de tais medidas, o porta-voz da entidade, Tarik Jašarević, confirmou que máscaras e isolamento "ajudam".

"Temos dito de forma consistente que, por si só, usar máscaras não é suficiente. Precisa ser parte de uma série de medidas tomadas", afirmou. "Distanciamento ajuda, reduz os riscos de ser infectado. Máscaras ajudam, especialmente quando o distanciamento não é possível", declarou.

"Cada um de nós pode reduzir os riscos de exposição. Isso não quer dizer que autoridades não devem colocam em práticas suas ações, o que inclui monitorar a transmissão do vírus e quebrar cadeias de transmissão, por meio de rastreabilidade, isolar e testar pessoas", completou.

Para o escritório da OMS para a Europa, foram as medidas de isolamento e o uso de máscaras que permitiram que o número de novos casos no continente fosse reduzido pela metade entre dezembro e fevereiro.

Citando um suposto estudo feito na Alemanha, Bolsonaro afirmou que as máscaras são "prejudiciais" às crianças, causando irritabilidade, dor de cabeça e dificuldade de concentração.

"Começam a aparecer os efeitos colaterais das máscaras", disse, depois de listar uma série de problemas supostamente causados pelas máscaras. "Eu tenho minha opinião sobre as máscaras, cada um tem a sua, mas a gente aguarda um estudo sobre isso feito por pessoas competentes", afirmou.

O presidente também criticou o isolamento social. "Quem quer auxílio emergencial e a cidade está fechada... Vão cobrar do prefeito, vão cobrar do governador, já que ele quer que você fique em casa eternamente e quer mandar a conta para nós [governo federal] pagarmos. Eu teria o maior prazer de pagar eternamente um salário para todo mundo viver numa boa, sem trabalhar, mas isso não existe", declarou.

Nesta semana, o chanceler Ernesto Araújo também criticou as medidas de confinamento. Num discurso na ONU, ele alertou que "as liberdades fundamentais são hoje ameaçadas por desafios crescentes e a crise da covid-19 apenas contribuiu para exacerbar essas tendências".

"Sociedades inteiras estão se habituando à ideia de que é preciso sacrificar a liberdade em nome da saúde. Não critico as medidas de "lockdown" e semelhantes que tantos países aplicam, mas não se pode aceitar um "lockdown" do espírito humano, o qual depende fundamentalmente da liberdade e dos direitos humanos para exercer-se em sua plenitude", disse.

Bolsonaro é inimigo com máscara de presidente

Muita gente acredita que o maior problema de Bolsonaro é saber por onde começar a gestão da pandemia. Engano. O seu maior problema é saber onde parar. Costuma-se dizer que o chefe da nação não gosta de usar máscara. Lorota. Instalou-se no Planalto um inimigo camuflado sob a máscara de presidente.

O Brasil foi transformado numa zona de guerra. O vírus não é o único adversário. Os brasileiros estão sendo violentamente atacados pelo governo. A biblioteca do Palácio da Alvorada virou trincheira. É dali que, em transmissões ao vivo, Bolsonaro faz ataques regulares. Cada frase é um míssil que atinge o país.

"Pessoal, começam a aparecer estudos aqui —não vou entrar em detalhes, né?—sobre o uso de máscaras", disparou o inimigo durante sua penúltima live. "Num primeiro momento aqui, uma universidade alemã fala que elas são prejudiciais a crianças. Começam a aparecer aqui os efeitos colaterais das máscaras..."

Bolsonaro é o efeito colateral de si mesmo. Cada gesto estapafúrdio que ele encena sob a máscara de presidente parece ter sido planejado para confundir o brasileiro, obrigando-o a usar a palavra "estapafúrdio" —um vocábulo quase tão esdrúxulo quanto Pazuello, outro morteiro que atinge a nação.

Num instante em que os mortos da Covid ultrapassam a marca macabra de 250 mil, o capitão do Planalto invade a Petrobras. E o general da Saúde envia para o Amapá as doses de vacina destinadas ao Amazonas.

Aguarda-se a explicação que o general Joaquim Silva e Luna, novo chefe da estatal petroleira, dará sobre as artimanhas logísticas que levam o colega Pazuello a tomar decisões como uma dona de casa cega que guarda sal numa lata de açúcar, na qual está escrito café.

Num bombardeio de dezembro, Bolsonaro soltou sobre o campo de batalha a previsão de que o Brasil vive "um finalzinho de pandemia". Hoje, decorridos dois meses, o país vive a pior fase da pandemia —um caos crescente, com viés de colapso nacional.

Segundo Pazuello, o esdrúxulo, há na praça uma mutação viral que multiplica por três o poder de contágio. O que não impede o presidente mascarado de realizar ataques frontais à inteligência alheia.

"Quem quer auxílio emergencial e a cidade está fechada... Vão cobrar do prefeito, vão cobrar do governador, já que ele quer que você fique em casa eternamente e quer mandar a conta para nós pagarmos."

O presidente mascarado revela-se capaz de tudo, exceto de se enxergar como um corresponsável pela devastação sanitária. O estapafúrdio não se reconhece no reflexo do espelho.

ONU denuncia governos que disseminam desinformação

O secretário-geral da ONU, Antonio Guterres, denunciou líderes que impedem o acesso à informação sobre a pandemia da covid-19 que salva vidas e que usam seus cargos para disseminar "desinformação mortal" sobre o vírus. Para ele, há uma "pandemia de abusos" no planeta, incluindo ataques contra a imprensa, contra a democracia e contra mulheres.

O alerta ocorreu na abertura do Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas e que, no último dia 22.

O evento também ouviu da alta comissária de Direitos Humanos, Michelle Bachelet, um ataque contra governos que limitam o trabalho da imprensa. "O que acabará com esta pandemia - e acelerará uma recuperação duradoura e resiliente - é a aplicação efetiva dos princípios dos direitos humanos, baseada na confiança pública", defendeu a ex-presidente do Chile. "E para construir confiança, deve haver um governo transparente, responsável e inclusivo, fundamentado em uma imprensa livre, instituições democráticas eficazes e uma participação significativa do público nas políticas", disse.

Nem Bachelet e nem Guterres citaram nomes de países. Mas insistiram sobre o fato de que a pandemia tem levado governos a violações de direitos humanos.

"O vírus também está infectando os direitos políticos e cívicos e encolhendo ainda mais o espaço cívico", disse Guterres. "Usando a pandemia como pretexto, as autoridades de alguns países implantaram respostas de segurança e medidas de emergência de mão pesada para esmagar a dissidência, criminalizar as liberdades básicas, silenciar relatórios independentes e restringir as atividades de organizações não governamentais", alertou.

"Defensores dos direitos humanos, jornalistas, advogados, ativistas políticos - e até mesmo profissionais médicos - estão sendo detidos, processados e sujeitos a intimidação e vigilância por criticar as respostas governamentais à pandemia - ou a falta delas", disse. "Restrições relacionadas à pandemia estão sendo usadas para subverter processos eleitorais, enfraquecer as vozes da oposição e suprimir as críticas", apontou.

"O acesso à informação sobre a covid-19 salvadora de vidas foi ocultado - enquanto que a desinformação mortal foi ampliada - inclusive por aqueles no poder", denunciou.

Nos últimos meses, o governo brasileiro foi criticado pela falta de transparência na divulgação de dados sobre a pandemia, além de ter feito promoção em suas redes sociais e discursos de medidas sem comprovação científica. O governo também minou o uso da máscara e, de maneira deliberada, promoveu aglomerações com a presença do presidente Jair Bolsonaro.


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