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Ano IX - Nº 438

Especial

Nem-nem

Um em cada cinco jovens brasileiros entre 15 e 29 anos não estudava nem trabalhava em 2013.

Postado em 18 de Dezembro de 2014 - Redação Semana On

Um em cada cinco jovens brasileiros entre 15 anos e 29 anos (20,3%) não estudava nem trabalhava em 2013. Um em cada cinco jovens brasileiros entre 15 anos e 29 anos (20,3%) não estudava nem trabalhava em 2013.

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Um em cada cinco jovens brasileiros entre 15 anos e 29 anos (20,3%) não estudava nem trabalhava em 2013. Os dados são da Síntese de Indicadores Sociais, estudo divulgado pelo IBGE no último dia 17. De acordo com o Instituto, a faixa etária que mais concentra os chamados “nem-nem” – os inativos, que não estudam e nem trabalham - é de 18 anos a 24 anos. Entre os jovens de 25 anos a 29 anos, a proporção é 21,8%.

De acordo com os dados do IBGE, os “nem-nem” são proporcionalmente mais numerosos entre as mulheres e as pessoas com até o ensino fundamental incompleto, residentes na região Nordeste. Também estão mais concentrados nos domicílios com renda per capita de até meio salário mínimo.

“Nesse grupo de 15 a 29 anos, 70,3% de quem não trabalhava nem estudava eram compostos por mulheres. E, dentre elas, 58,4% já tinham pelo menos um filho. Quando olhamos a escolaridade, percebemos que 32,4% não tinham o Ensino Fundamental completo, e somente 5% tinham o Superior completo ou incompleto”, diz Cíntia Agostinho, pesquisadora do IBGE.

A média de escolaridade dos jovens “nem-nem” é 8,6 anos, enquanto a média da faixa etária chega aos 9,4 anos. Enquanto a média de jovens com filhos é 35%, entre aqueles que não estudam nem trabalham ela ultrapassa os 57%. Um em cada quatro desses jovens (26,3%) até chega a procurar emprego, mas não encontra, de acordo com pesquisa.

O estudo comparou o mercado de trabalho de 2013 com o de 2004. Segundo a análise, no período, a população de 16 anos ou mais aumentou 18,7%, mas a população economicamente ativa, ou seja, aquela que trabalha ou procura emprego, cresceu apenas 13,6%. A maior parte dessa população acabou se deslocando para a população não economicamente ativa que não trabalha nem procura emprego, gerando um percentual de 30,6%.

“O crescimento da população não economicamente ativa pode ser explicada, por exemplo, por um prolongamento dos estudos dos jovens. Como você tem o mercado de trabalho exigindo mais qualificação, você tem a possibilidade hoje, pela ampliação da oferta de vagas no ensino superior, do não trabalho para permanecer estudando”, disse a coordenadora da Síntese, Barbara Cobo.

De acordo com a pesquisa, o aumento de 44,8%, acima da média, de homens fora do mercado de trabalho de 2004 a 2013 pode indicar a saída deles a fim de se qualificarem a espera de uma oportunidade melhor de emprego.

É o que aponta Felipe Leroy, professor de economia do Ibmec. Para ele, um fator "determinante" e pouco mencionado é o efeito da queda da fecundidade sobre o rendimento per capita, que ocorreu principalmente nos últimos 20 anos. Com menos filhos, as famílias tiveram mais renda disponível para mantê-los sem trabalhar e investir no estudo e na qualificação.

Mesmo assim, entre as pessoas não economicamente ativas, 22,2% eram jovens de 16 anos a 24 anos. Quarenta por cento deles tampouco estavam estudando. “É uma questão preocupante para as políticas públicas. Esse é o momento essencial para saber se esses jovens estão estudando e se qualificando, porque eles serão a força de trabalho dos próximos anos”, disse a pesquisadora do IBGE Cristiane Soares.

Renda, educação e contexto social

O pesquisador do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) Herton Araújo afirma que é preciso compreender que o fenômeno dos “nem-nem” deve ser observado sob as lentes da faixa etária, do contexto social e da renda destes jovens. Ele explica que, em termos de pesquisa, costuma-se a separar os jovens de 15 a 29 anos em faixas de 15 a 17 anos (época em que ele deve estar na escola), 18 a 24 anos (época em que as pessoas que chegam ao ensino superior estão finalizando esta etapa e podem estar, inclusive, se qualificando com cursos antes de entrar no mercado de trabalho), e a última faixa, de 25 a 29 anos – os jovens adultos.

“Muitos jovens nestas duas últimas faixas etárias, oriundos de classe sociais mais altas, estão se preparando para concurso publico, estão se qualificando, e acabam entrando nas cotas dos ‘nem-nem’. É diferente daquele jovem que nem mesmo concluiu o segundo grau, abandonou os estudos e agora encontra dificuldades ou desanimo para ser inserido no mercado de trabalho. São duas realidades diferentes categorizadas entre os ‘nem-nem’”, afirma.

No artigo “Juventude, trabalho e desenvolvimento: elementos para uma agenda de investigação", o sociólogo Adalberto Cardoso, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), também afirma que a análise do fenômeno deve levar em conta aspectos como a oferta de emprego nas cidades, o acesso à educação e o perfil familiar por não se tratar de um problema com respostas e soluções iguais para todos os casos.

Para o sociólogo Adalberto Cardoso, o fenômeno deve ser observado sob as lentes da faixa etária, do contexto social e da renda destes jovens.

No Brasil, o fator renda é um dos que mais influencia o crescimento de jovens com o perfil “nem-nem”. “Em 2000, famílias entre as 10% mais pobres tinham 233% mais chances de ter um “nem-nem” entre os seus do que famílias entre os 10% mais ricos. Em 2010, esse valor havia aumentado para quase 800%. Isto é, a disponibilidade de recursos familiares, tal como expressa pela renda enquanto capacidade de aquisição de bens como saúde e educação para seus membros, por exemplo, confere um caráter de classe às mudanças ocorridas no período, com aumento da vulnerabilidade dos mais pobres. Isto é, é maior a proporção de ‘nem nem’ em 2010 entre as famílias que, em termos relativos, tinham menores condições materiais de dar respaldo a eles”, afirma Cardoso.

Para o jurista e professor Luiz Flávio Gomes, diretor-presidente do Instituto Avante Brasil, os fatores econômico-sociais não explicam totalmente o fenômeno.

“É uma geração com baixa autoestima, desconectada, que não pensa no futuro. Ela tem medo de assumir responsabilidades, e o que nos trouxe a isso foi o estilo de vida que levamos hoje. Tudo é transitório, passageiro, nada mais é sólido”, avalia, citando o filósofo Zygmunt Bauman, autor de Modernidade Líquida.

De acordo com o ex-promotor, ao menos uma parcela dos jovens, incentivada pela fluidez da internet, está “inerte e anestesiada”, sem conseguir se encontrar “nem nos relacionamentos com os pais, nem com os amigos, nem com a sociedade”.

Outro fermento nesse bolo seria o aprimoramento das condições de vida. “Há gerações que passam por muitas dificuldades e sabem como é difícil sobreviver. A geração seguinte encontra muita coisa pronta. Não sabe o quanto custou para chegarmos a esse ponto porque não lutou, é uma geração que nasceu com a comida no prato”, sustenta Gomes, acrescentando que a rotatividade imposta pelas empresas também desanima os jovens.

Fenômeno

O crescimento dos “nem-nem” superou todos os demais contingentes pesquisados pelo IBGE. Sua expansão foi mais acelerada do que a alta de 13,6% das Pessoas Economicamente Ativas (PEA), que agregam quem procura trabalho ou está ocupado. Superou ainda o aumento de 18,7% do total de pessoas em idade para trabalhar (16 anos e mais) e de 13,6% do total de pessoas ocupadas. Dentre os 153 milhões de pessoas em idade ativa em 2013, os inativos somavam 61 milhões de pessoas em 2013.

Segundo Cristiane Soares, o aumento das pessoas fora do mercado de trabalho segue a evolução do nível de atividade da economia – que pode atrair mais pessoas em períodos de maior crescimento do PIB ou afastá-las em fases de estagnação como a atual. Também se orienta, diz, pela a melhora da renda familiar, que permite aos jovens estudarem mais.

Outro ponto importante apontado por Leroy, diz, é que o mercado de trabalho se fechou ainda mais para os jovens nos últimos anos em razão de "uma profunda mudança da estrutura produtiva do país", que passou a exigir mão de obra mais qualificada. Essa nova tendência, afirma, não foi acompanhada por uma alteração da grade curricular do ensino médio, com mais foco na formação técnica.

"O ensino médio não prepara para o mercado de trabalho. Tenta preparar para o ingresso na faculdade. O jovem de 17 ou 18 não está pronto para entrar no mercado de trabalho. Há 20 anos, não era necessária a qualificação exigida agora", afirma o professor do Ibmec.

Mulheres

Cerca de 70% dos "nem-nem" são mulheres e a maternidade parece ser o principal fator que explica a discrepância: 58,4% das mulheres neste grupo tinham pelo menos um filho. Entre as “nem-nem” com idade entre 25 e 29 anos, 74% já são mães.

A opção de ficar em casa com os filhos reflete um custo de oportunidade, já que as vagas de creche são insuficientes para atender a demanda. Atualmente, apenas duas em cada 10 crianças brasileiras com idade até três anos frequentam creche.

"Você precisa de estruturas para permitir que a mulher concilie sua educação, emprego e cuidado da família, e o Brasil ainda tem vários gargalos nessa área", nota Cristiane Soares.

Aparece aí também uma diferença de renda relevante: no caso das famílias mais pobres, a vaga na creche particular pode sair mais cara do que o eventual salário que aquela mãe poderia ganhar se voltasse ao mercado de trabalho.

A proporção de crianças com idade entre dois e três anos que frequentavam creche era quase o triplo para o quinto da população mais rica (63%) em relação ao quinto mais pobre (21,9%). 

Bomba relógio

Boa parcela dos milhões de jovens que não estudam nem trabalham conta com estrutura familiar. O restante é desfamiliarizado (não tem uma constituição familiar sólida nem amparo social). Para a socióloga Flávia Mestriner Botelho, esse grupo é uma bomba-relógio social.

“Nos países de capitalismo selvagem e extrativista, como o Brasil e os EUA é uma verdadeira bomba-relógio, em termos sociais, de potencial criminalidade e de violência. Os fatores negativos começam a se somar (não estuda, não trabalha, não procura emprego, não tem família, não tem projeto de vida...). Se a isso se juntam más companhias, uso de drogas, convites do crime organizado, intensa propaganda para o consumismo, famílias desestruturadas etc., dificilmente esse jovem escapa da criminalidade. Milhões de jovens, teoricamente, estão na fila da criminalidade”, afirma.

Mas, nem todos os especialistas no tema concordam com a leitura “negativa” dos números da Síntese de Indicadores Sociais. Herton Araújo, por exemplo, aponta um contraponto. Para ele, os números não refletem de forma justa a imagem dos jovens brasileiros.

“A proporção de jovens ocupados entre os sensos de 2001 e 2010 aumentou muito. E além de aumentar a proporção de pessoas ocupadas, aumentou também a escolaridade regular dos jovens. Não é justo classificar esta geração como ‘nem-nem’. Na verdade, eles estão participando mais e ocupando melhores postos de trabalho”, afirma.

Geração Canguru

Os adultos (de 25 a 34 anos) que adiam a saída de casa estão mais concentrados em famílias de renda mais alta: 14,7% dos domicílios com renda per capita superior a dois salários mínimo abrigavam filhos nessa faixa etária, que integram a chamada geração canguru.

Já na faixa de lares com rendimento de até meio salário mínimo por pessoa, o percentual era de 6,7%. Segundo o IBGE, os "cangurus" eram 24,6% do total de pessoas entre 25 e 34 anos em 2013 – acima dos 21,2% de 2004.

Na média do país, 11,4% das famílias mantinham esses jovens em casa. Esse percentual é maior em áreas mais "ricas", como São Paulo (14,1%).

"Esse grupo tinha, em 2013, escolaridade média de 10,9 anos de estudo [superior à média dessa faixa etária], indicando que a opção de viver na casa dos pais pode estar ligada à maior dedicação aos estudos", diz o IBGE.

Fenômeno mundial

Os “nem-nem” não são uma particularidade do Brasil, são um fenômeno mundial, como aponta o relatório anual da Organização Internacional do Trabalho (OIT) com as tendências globais para o emprego em 2014.

A entidade chama atenção para o aumento dos jovens que não estudam ou trabalham, ou, na sigla internacional, os NEET (neither in employment, nor in education or training).

Entre 2007 e 2012, a proporção de pessoas entre 15 e 29 anos nesse grupo cresceu em 30 dos 40 países analisados. Na Irlanda e na Espanha, o percentual avançou em 9,4 e 8,7 pontos no período e passou de 20%, patamar considerado alto. "Jovens entre os NEETs podem ser menos comprometidos e menos satisfeitos com suas respectivas sociedades do que aqueles empregados ou que fazem parte do sistema educacional", afirma a Organização.

De acordo com a OIT, o desemprego bastante alto entre os jovens no mundo dificulta ou desestimula cada vez mais a entrada no mercado de trabalho - e essa poderia ser uma das razões do crescimento dos “nem-nem” lá fora. Entre 2012 e 2013, a taxa de desocupação entre jovens aumentou de 12,9% para 13,1% globalmente, contra 6% da média geral. E as estimativas da organização preveem que ela suba a 13,4% neste ano.

Mas, se engana quem pensa que este é um fenômeno novo. Esse perfil de jovens já é tema de estudos da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) desde o final dos anos 1990. Entre 1997 e 2010, jovens com idade entre 20 e 24 anos, que não trabalhavam nem estudavam já eram 13% da população europeia, chegando a 17,6% em 2010. “O que se nota hoje é um aumento desse fenômeno”, disse o diretor-geral da OIT, Guy Ryder.


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