Semana On

Terça-Feira 13.abr.2021

Ano IX - Nº 438

Coluna

O BBB como fator civilizatório

Raphael Tsavkko Garcia fala do fascismo na cultura do cancelamento

Postado em 03 de Fevereiro de 2021 - Raphael Tsavkko Garcia

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Eu nunca pensei que o BBB fosse ter uma função civilizacional no Brasil. Mas no meio de uma pandemia e com um governo de extrema-direita contribuindo com a morte de milhares de pessoas por Covid, tudo pode acontecer e o que antes parecia absurdo se torna possível.

"Cancelamento é coisa de fascista", "cancelamento é desumanização"... A gente está dizendo isso há muuuuuito tempo, anos até. Demorou, eim?

Aparentemente tem lacrador descobrindo que cancelamento não é legal... Claro, só não é legal porque é com "um deles", mas... É um começo. Bom ver lacradores sendo lacrados e rebolando pra escapar, mas é preciso ir além – até porque emular o comportamento e cancelar os canceladores apenas recria o ciclo.

Comportamento doentio de rede social é fofo na rede (na verdade nem aqui). Quando sai pro mundo real todo mundo vê que o lacrador é apenas um imbecil com ego que não cabe em si, em desespero pra aparecer e não ser contrariado ou forçado a encarar a vida real.

É o escapismo 2.0.

Aliás, escapismo só não, tem muito de reserva de mercado, de tentativa de lucrar em cima da desgraça alheia (com cargo, coluna, curso, patrocínio).

De repente vejo gente defendendo que as pessoas devem ter direito ao benefício da dúvida quando são acusadas de qualquer coisa nas redes (aparentemente um dos participantes negros foi acusado de abuso e, vejam só, era uma acusação falsa https://is.gd/wd4NLb), que as pessoas não devem ser submetidas à humilhação e situações vexatórias e até vi quem esteja surpreso que os brancos, agroboys e "padrãozinhos" da casa são, vejam sé, pessoas normais com alguma coerência e decência e não monstros terríveis como a turma da lacração pinta nas redes.

Parece que finalmente compreenderam que às vezes a vítima de verdade é quem é acusada e não quem acusa. E que, enfim, a vida em sociedade é mais complexa do que cabe no Facebook ou no Twitter e nas reuniões do DCE.

A vida real é muito complexa e bondade ou maldade de pessoas não respeita gênero, raça, orientação sexual... Nada disso livra alguém de ser desprezível, mas até hoje eram argumentos usados para silenciar qualquer um que não pertencesse ao grupo "correto", ao grupo com lugar de fala e detentor divino do "protagonismo".

Enfim, bom ver que a lacração (em sua face mais abominável, ainda que seja virtualmente a única) agora foi de vez pro mainstream e os estragos estão mais visíveis do que nunca. Tem tempo que militância se tornou sinônimo de intolerância e, com isso, prejudica lutas sociais importantes. Enquanto tem gente realmente sendo vítima de violência, de abuso, nas redes sociais tentam cancelar quem errou um pronome inventado, quem ousou não dizer amém para a diva da lacração do momento, quem ousou discordar (mesmo com argumentos sólidos) ou mesmo quem cometeu o “erro” de em algum momento não estar do “lado certo da história”.

Militância tem se tornado segregação e autoritarismo. E isso precisa acabar.

Uma sociedade saudável é aquela em que existe espaço para diálogo, em que os direitos básicos das pessoas são garantidas, em que todos tem direito a falar, comentar, opinar e... a errar. E não são punidas por isso - ou existe ao menos proporcionalidade diante de uma possível ofensa.

Que seja o começo de uma mudança, que se busque mais o diálogo e não o confronto e o cancelamento. Não creio que será um processo simples ou rápido, mas ao menos parece existir agora um espaço para que o debate seja feito – necessário para derrotar o bolsonarismo que se alimenta de lacração.

PS: Nem todo mundo parece ter entendido a situação.

Meteram lacradores no BBB.

Galera militante comemorou.

Os lacradores são pessoas desprezíveis.

A CULPA É DA GLOBO QUE ESCOLHEU AS PESSOAS ERRADAS

Eu mereço.... Impressionante como setores da esquerda são iguaizinhos aos Bolsominions em seu ódio infantil pela mídia e pela Globo em particular.



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