Semana On

Quarta-Feira 14.abr.2021

Ano IX - Nº 438

Coluna

Pólvora, grana e autoritarismo

O jornalista Victor Barone resume a semana política, com humor e acidez

Postado em 03 de Fevereiro de 2021 - Victor Barone

Clique aqui e contribua para um jornalismo livre e financiado pelos seus próprios leitores.

O ministro Edson Fachin publicou um forte artigo na Folha, na quinta (4) em que aborda o risco de uma “ascensão populista autoritária” no país. “Cumpre proteger a democracia. Dobrou o alarme”, diz o ministro do STF.

O raciocínio de Fachin se ampara no drama norte-americano vivido durante a invasão de radicais ligados a Donald Trump ao Capitólio: “A invasão do Capitólio, em Washington, captou a atenção do planeta, alçando à evidência os riscos inerentes à farsa democrática dos intolerantes. Cumpre proteger a democracia. Dobrou o alarme. A esfera pública assiste à ascensão populista autoritária que cobiça o monopólio do futuro, promovendo a subversão dos saberes históricos, a manipulação da memória coletiva e a poluição do discernimento. O crepúsculo da política desponta num horizonte discursivo tóxico”.

Para Fachin, o maior desafio da política, na atual quadra vivida, é neutralizar a “banalização do discurso odioso e práticas linguísticas antipolíticas”. Só com atitudes contra tais venenos será possível, na visão do magistrado, “estimular a capacidade humana de imaginar um mundo melhor, como passo inicial para que um estado de coisas mais justo e favorável possa, de fato, ser concretizado”. 

“A demonização do dissenso e o empreendimento da política do inimigo rompem com os protocolos de uma democracia saudável. A perpetuação das instituições e dos valores que elas representam é vital para o sistema democrático. Órfãos de seus anteparos, as democracias balançam ante o furor populista, tanto mais quando acompanhado de ameaças despóticas”, diz Fachin.

O ministro do STF também manda um claro recado aos que colocam em dúvida o voto e as instituições eleitorais, não aceitando previamente o resultado das eleições, como aconteceu nos Estados Unidos — diante da simpatia de autoridades do governo brasileiro.

“O prenúncio da recusa, não obstante, põe abaixo o edifício do entendimento e arrisca, enfaticamente, a estabilidade do sistema político. Autorizar-se à desobediência implica, por conseguinte, consentir com a rebelião alheia. A rejeição antecipada da ocasional derrota nas urnas, em conclusão, germina o falecimento da política e o caos social, como se apura da experiência concreta no Capitólio. Se o voto cidadão previne a violência, a depreciação das instituições eleitorais constitui um inaceitável chamado ao conflito”, escreve Fachin.

Por Robson Bonin

O chavismo estabeleceu uma sólida ditadura na Venezuela não apenas como resultado da truculência golpista do falecido caudilho Hugo Chávez e de seu herdeiro, Nicolás Maduro, mas também – e talvez principalmente – pelo sucesso do assalto promovido pelos gângsteres bolivarianos às instituições de Estado. E esse assalto foi bem-sucedido, entre outras razões, pela ausência de uma oposição organizada, unida e com propósitos claros.

O tenebroso exemplo venezuelano deve ser lembrado justamente no momento em que o bolsonarismo avança insidiosamente sobre as instituições democráticas brasileiras. Cada dia que passa sem reação à altura desse desafio ajuda a consolidar esse desmonte do sistema de freios e contrapesos, que limita o poder numa democracia representativa.

Tal como ocorreu na Venezuela, a oposição a Bolsonaro claramente perdeu-se em lutas internas, movidas por objetivos imediatos e paroquiais, que só dizem respeito aos interesses eleitorais de seus caciques, sem qualquer conexão com os anseios da sociedade. A mediocridade das forças que poderiam obstar a marcha bolsonarista permitiu que o presidente Jair Bolsonaro, malgrado suas inúmeras agressões à democracia e seu criminoso desserviço ao povo em meio à pandemia de covid-19, conseguisse eleger seus candidatos ao comando da Câmara e do Senado. Para adicionar insulto à injúria, vários parlamentares supostamente de oposição aderiram às candidaturas patrocinadas por Bolsonaro, ávidos por participar do festim governista no Congresso e por obter espaços nas Mesas Diretoras e nas comissões. Nem na Venezuela a oposição foi tão pusilânime. Os partidos com maior consistência ideológica – PSDB, DEM e PT – parecem perdidos com questiúnculas de poder e profundas contradições internas, que embaralham seu discurso e enfraquecem a mensagem com a qual pretendem motivar o eleitorado.

Com a fragilização desses partidos tradicionais, restam no horizonte político pouco mais de duas dezenas de legendas que só existem para aproveitar as oportunidades fisiológicas abertas pelo governismo. Há de tudo nesse balaio: de partidos cujos proprietários foram condenados por corrupção a agremiações que se alugam para quem pagar mais. No topo de tudo, temos um presidente da República que já foi de oito partidos e hoje nem partido tem, o que dá a exata medida do menosprezo bolsonarista pelo debate partidário próprio das democracias. O que une esses indigitados é sua absoluta indiferença às necessidades do País e sua associação com lobbies empenhados na manutenção de privilégios. Para eles, a democracia é mero instrumento de apropriação do poder e de suas benesses.  Para interromper essa putrefação da democracia, é necessário que haja uma oposição digna do nome. Para começar, é preciso ser oposição de verdade, sem hesitação.

FHC advertiu que “o PSDB precisa tomar rumo, precisa ter uma palavra afirmativa forte” – do contrário, corre o risco de acelerar seu “ciclo descendente”. Ou seja, o PSDB e os demais grandes partidos de oposição talvez continuem a existir, mas perderão a razão de sua existência caso se permitam confundir com as siglas que mercadejam votos e só pensam na próxima eleição. É tudo o que o Chávez de Eldorado quer.

JOGO SUJO COM A SAÚDE ALHEIA

Uma Medida Provisória aprovada pelo Senado ontem (4) retira da Anvisa a prerrogativa de analisar tecnicamente vacinas contra a covid-19 em um amplo rol de situações – beneficiando diretamente a Sputnik V. 

A agência reguladora brasileira já tinha revisto suas regras para facilitar a aprovação dessa e outras candidatas na quarta-feira (3), ao retirar a obrigatoriedade de ensaios de fase 3 no Brasil. Porém, o que a MP faz é exigir que a aprovação da Sputnik V seja automática. A legislação atual prevê que a Anvisa tem 72 horas para conceder autorização emergencial caso o imunizante tenha obtido registro pelas agências dos Estados Unidos, da União Europeia, do Japão ou da China. Já o texto aprovado pelos senadores estende este prazo para cinco dias mas inclui outras: as da Rússia, Argentina, Reino Unido, Canadá e Coreia do Sul. Os dois primeiros países autorizaram o uso da Sputnik V, que então estaria contemplada. 

O parecer do relator, o senador Confúcio Moura (MDB-RO), esclarece que não é necessário o registro em agência estrangeira, bastando a autorização emergencial (veja aqui).

Olhando agora, em janeiro de 2021, qualquer medida que garanta celeridade na aprovação da Sputnik V tende a ser comemorada – ainda mais porque o imunizante apresentou dados tão bons. Mas é preciso ter cuidado. A Rússia deu aval à Sputnik V há seis meses, quando os ensaios de fase 3 ainda nem haviam começado; as fases 1 e 2 haviam sido concluídas (com apenas 76 voluntários), mas seus resultados eram desconhecidos. Isso significa que, se o texto aprovado ontem estivesse em vigor, poderíamos ter iniciado o uso de um produto sem nenhum único dado sobre sua segurança e eficácia.

Do fundador e ex-presidente da Anvisa Gonzalo Vecina, no Estadão: “As regras de registro de vacinas do Brasil são as regras de todos os países desenvolvidos, não são mais nem menos. (…) Queremos destruir esse ambiente? É isso que os industriais e o povo querem? Um governo que não governa pode querer, mas nós, o que queremos do futuro?”

Também está havendo muita pressão para a autorização de outro imunizante por aqui: a Covaxin, desenvolvida pela pelo laboratório indiano Bharat Biotech. É aquela que o setor privado tenta comprar para venda em clínicas e que, mais recentemente, o Ministério da Saúde decidiu negociar também. Seus resultados de fase 3 ainda não foram concluídos e a Índia é o único país que a aprovou até agora – num processo apressado e muito criticado por especialistas. Como a Índia não está na lista de países mencionados na MP que passou no Senado, a autorização desse imunizante não deve ser automaticamente concedida. 

Mas isso pode mudar. Segundo a apuração do Estadão, a deputada federal Jandira Feghali (PCdoB-RJ) apresentou uma emenda em outra MP, a  1.026, pedindo justamente que a Índia seja incluída no rol.

A medida aprovada ontem (4) segue agora para sanção presidencial. Ela também autoriza o acesso do Brasil à Covax Facility e prevê que os imunizantes adquiridos no consórcio sejam incluídos automaticamente no plano nacional de vacinação. 

“VAMOS ENQUADRAR”

Mais cedo, o líder do governo na Câmara, Ricardo Barros (Progressitas-PR) conversou com o Estadão e afiou a língua ao falar da Anvisa: “Eu opero com formação de maioria. O que eu apresentar para enquadrar a Anvisa passa aqui (na Câmara) feito um rojão. Eu vou tomar providências, vou agir contra a falta de percepção da Anvisa sobre o momento de emergência que nós vivemos. O problema não está na Saúde, está na Anvisa. Nós vamos enquadrar”. A Anvisa, sabemos, é uma agência autônoma. 

Barros é um contato frequente do ex-deputado federal Rogério Rosso, lobista da União Química (empresa que pretende comercializar a Sputnik V no Brasil). Na entrevista, ele foi além: “Eles não entenderam ainda. Estão fora da casinha, não sabem que estamos numa pandemia, que precisamos de coisas urgentes, que precisamos facilitar a vida das pessoas”, disse, completando que os técnicos da agência não estão “nem aí” para o problema. O jornal lembra que os atritos entre Barros e Anvisa são antigos – houve problemas graves quando o atual deputado chefiava o Ministério da Saúde no governo Temer.

As declarações repercutiram durante toda a tarde e atingem o presidente da Agência, escolhido por Jair Bolsonaro. No mesmo jornal, Antônio Barra Torres disse que o deputado “está no dever de formalizar uma denúncia no canal competente ou se retratar”: “Acho que para ele não tem mais outra saída: Ou ele denuncia ou se retrata“. À GloboNews, afirmou que as colocações tiveram “um impacto muito ruim, principalmente no corpo de servidores da Anvisa“, e que a agência devia ser blindada de pressões ou influências.

À noite, Jair Bolsonaro saiu em defesa de Barra Torres, que apareceu ao lado do presidente em sua live semanal. “Uma agência não pode sofrer pressão de quem quer que seja. Eu não interfiro em agência nenhuma. Eu posso é conversar com o pessoal, sem problema nenhum. Assim como ninguém pode, acredito, que pressione a Anvisa“, disse Bolsonaro, antes de ser convidado pelo contra-almirante a eventualmente se vacinar (o presidente riu e recusou a oferta).

CORTE NOS LEITOS

Este mês, o Ministério da Saúde cortou pela metade os leitos de UTI destinados a pacientes com covid-19 financiados pela pasta. Em janeiro eram 7,1 mil; em fevereiro são 3,1 mil. Isso num momento em que oito capitais estão com mais de 80% dos seus leitos ocupados e a média móvel de óbitos anda acima de mil há 15 dias seguidos. 

Segundo o Conass, que reúne os secretários estaduais de saúde, os cortes já vinham acontecendo desde meados do ano passado – no El País, o presidente do Conselho Carlos Lula lembra que já chegou a haver 17 mil leitos. “É como se o Ministério dissesse que agora estados e municípios terão que manter sozinhos [a assistência]. Isso pode levar ao limite da falta de leitos”, alerta. De acordo com ele, vários estados que precisariam ampliar a rede estão na verdade fechando leitos, por não conseguirem mantê-los.

PAZUELLO E BOLSONARO

O procurador-geral da República, Augusto Aras, abriu uma investigação preliminar sobre presidente da República e o Ministro da Saúde com relação à crise da covid-19 no Amazonas e no Pará. No ofício enviado ao STF, ele afirma que “caso, eventualmente, surjam indícios razoáveis de possíveis práticas delitivas”, será pedido um inquérito no Supremo. O movimento de Aras é resultado de um pedido de deputados do PCdoB. 

Como se sabe, já há um inquérito aberto no STF para investigar apenas o ministro Eduardo Pazuello. Ontem ele depôs à Polícia Federal durante mais de quatro horas; o conteúdo completo não foi divulgado, mas a assessoria da pasta disse que ele “detalhou todas as ações” realizadas e em andamento no Amazonas. 

Na semana que vem, Pazuello deve comparecer ao plenário do Senado para explicar a demora do país em colocar em prática o plano de vacinação, além das ações do governo na pandemia. Como diz a matéria do Valor, o encontro não deve ser amistoso… “Negacionista, está sujando o nome das Forças Armadas, receitou cloroquina. Ele vai ouvir. Maldito seja. Vamos estar aqui, chamo todos os senadores. Não vai ser com conversinha, vamos cobrar”, prometeu o senador Major Olímpio (PSL-SP). 

NÃO FALTA MAIS NADA

A Merck, que fabrica a ivermectina, publicou ontem um comunicado avisando que não há dados que sustentem o uso do vermífugo contra a covid-19. O texto ainda alerta que há uma “preocupante falta de dados de segurança na maioria dos estudos”. 

Se as drogas do kit-covid funcionassem, o Brasil estaria bem demais: matéria do G1 mostra o quanto subiu a venda de várias delas nas farmácias do país. No caso da ivermectina, 8,1 milhões de unidades foram vendidas em 2019, contra inacreditáveis 53,8 milhões no ano passado. Para a hidroxicloroquina, as vendas mais do que dobraram, passando de 963 mil para 2 milhões de unidades. 

A propósito, o presidente Jair Bolsonaro disse ontem que “tudo bem” se cloroquina não funcionar. “Deixa de ser otário. Estamos vivendo um momento de crise. São vidas que estão em jogo. Pode ser que lá na frente falem que a chance é zero, que é placebo. Tudo bem. Paciência, me desculpem, tchau. Mas pelo menos não matei ninguém”. Problema nenhum…

Para garantir, o MPF decidiu salvar os vídeos em que Bolsonaro e Pazuello aparecem defendendo o tratamento precoce com esse tipo de medicamento. Vão ser usados como provas em um procedimento aberto para investigar improbidade administrativa no uso de verba pública para distribuir drogas comprovadamente ineficazes. 

VERGONHA

O único país latino-americano que se manifestou na reunião da OMC ontem sobre a quebra de patentes na pandemia foi a Venezuela. O Brasil não pediu a palavra. Estados Unidos, Canadá, Reino Unido, Suíça e Japão reafirmaram sua posição contrária. 

A África do Sul, uma das proponentes, rebateu os argumentos contrários, como narra a matéria do Valor. A indústria farmacêutica e as nações mais ricas dizem, por exemplo, que não haveria laboratórios com capacidade para produzir as vacinas, mesmo que as patentes estivessem livres. “A delegação sul-africana retrucou que, na verdade, países em desenvolvimento têm capacidades científica e técnica e que a escassez de vacinas é também resultado de uso inapropriado de proteção da propriedade intelectual. A África do Sul afirmou que, de 154 vacinas pré-qualificadas sob um programa da Organização Mundial da Saúde (OMS), 72 são produz”, diz a reportagem. 

Em artigo publicado na Neues Deutschland, o médico Andreas Wulf resume o fracasso dos dois outros mecanismos propostos para promover a distribução equitativa das vacinas: o  Covid-19 Technology Access Pool, baseado na ideia de agrupar licenças voluntárias; e a Covax Facility, que, como falamos ontem, caminha a passos curtíssimos. “As grandes empresas (com exceção da Pfizer / Biontech) nem se deram ao trabalho de acelerar o registro de suas vacinas na OMS – o que aceleraria consideravelmente o processo de registro em países mais pobres com recursos limitados de suas autoridades farmacêuticas”, critica Wulf, que atua na Medico International. A organização é uma das criadoras do manifesto internacional Patentes matam

Por Outra Saúde

FASCISTA!

A abertura do ano legislativo de 2021, no último dia 3, conduzida pelo presidente do Congresso Nacional, senador Rodrigo Pacheco (DEM-MG) e pelo presidente da Câmara dos Deputados, deputado Arthur Lira (PP-AL), contou com a presença do procurador-geral, Augusto Aras, o presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Luiz Fux, além do presidente da República, Jair Bolsonaro. Logo após a execução do hino nacional, deputados de oposição gritaram "fascista" e "racista" para o presidente. Já congressistas bolsonaristas gritaram "mito". Às manifestações, Bolsonaro respondeu com "nos vemos em 2022".

O ESCÁRNIO

Alto lá! Por que a deputada federal Bia Kicis (PSL-DF) não pode presidir a Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania da Câmara? Só por que ela é bolsonarista de raiz?

Só por que ela é investigada pelo Supremo Tribunal Federal no inquérito que apura a distribuição de fake news e o financiamento de movimentos hostis à democracia?

Só por que ela já postou vídeos nas redes sociais ensinando a não usar máscaras contra a Covid-19? Só por que em dezembro último ela incitou os amazonenses a romperem o isolamento social?

A Comissão é a mais importante da Câmara. Cabe a ela analisar a legalidade e a constitucionalidade de todos os projetos que ali chegarem – entre eles, pedidos de impeachment.

É verdade que a presidência da Comissão sempre foi reservada para políticos de renome, de passado ilibado e com grande conhecimento jurídico. Ou então para ex-presidentes da Câmara.

Kicis não atende a tais pré-requisitos. Mas, e daí? A Câmara também não é mais o que foi até o final dos anos 90. Há seis anos, seu presidente, Eduardo Cunha (MDB-RJ), foi cassado e preso.

De resto, se o deputado Arthur Lira (PP-AL) pode presidir a Câmara, por que Kicis não pode presidir a Comissão? O passado de Lira depõe mais contra ele do que o de Kicis contra ela.

Só no Supremo Tribunal Federal, Lira responde a cinco inquéritos. Três sobre a eventual prática de corrupção ativa e passiva – incluindo aquele onde se tornou réu.

O quarto inquérito investiga crime de formação de quadrilha. No quinto, ele foi denunciado por crime de lavagem de dinheiro.

Há ainda uma investigação no Tribunal Regional Federal da 5ª Região (TRF-5). A acusação, neste caso, é de crime contra a administração pública.

Lira é investigado no Tribunal de Justiça de Alagoas por crimes contra a honra. E tem contra si, ainda, uma acusação de agressão contra sua ex-mulher.

Presidente da Câmara é o segundo na linha de sucessão do presidente da República. Na ausência de Bolsonaro e do vice-presidente Hamilton Mourão, Lira os substituiria.

Deverá ser impedido de fazê-lo porque é réu em ação penal no Supremo. Quem substituirá Bolsonaro e Mourão é o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (DEM-MG).

Se a Câmara entende que está em boas mãos com Lira, por que não estará também com Kicis na presidência da Comissão? Os dois se merecem – e a Câmara merece os dois.

Por Ricardo Noblat

FALANDO EM GENTE ILIBADA...

Eleito presidente da Câmara dos Deputados, o alagoano Arthur Lira (PP) não poderá ocupar a presidência da República em caso de ausência de Jair Bolsonaro e o vice, Hamilton Mourão. O parlamentar está impedido de ocupar o cargo porque é réu em ações penais no Supremo Tribunal Federal (STF). Com isso, na ausência de Bolsonaro e Mourão, quem assumirá o Planalto será o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (DEM-MG). Depois dele, o próximo na linha sucessória presidencial é o presidente do Supremo Tribunal Federal, Luiz Fux.

Lira responde a oito investigações. O deputado é réu em um desses inquéritos no STF, acusado de receber R$ 106 mil de propina do então presidente da Companhia Brasileira de Trens Urbanos (CBTU), Francisco Colombo. Uma decisão do STF de 2016 impede a ocupação do cargo pelo chefe do Legislativo que seja réu.

Na Suprema Corte, ele responde a cinco inquéritos. Três analisam eventual prática de corrupção ativa e passiva – incluindo a que se tornou réu. Uma quarta investiga crime de formação de quadrilha. Na quinta, ele foi denunciado por crime de lavagem de dinheiro.

Há ainda uma investigação no Tribunal Regional Federal da 5ª Região (TRF-5). A acusação, neste caso, é de crime contra a administração pública. A sétima investigação está no Tribunal de Justiça de Alagoas (TJ-AL), por crimes contra a honra. O deputado tem contra si, ainda, uma acusação de agressão contra a mulher, apresentada por sua ex-esposa, Jullyene Lins. A acusação já passou pelo TJ-AL e pelo STF. Lira afirmou, em outros momentos, que as acusações são "requentadas".

MORO

O ex-deputado federal pelo PSOL, Jean Wyllys, usou as redes sociais para criticar o ex-juiz e ex-ministro da Justiça de Bolsonaro, Sérgio Moro. Diálogos da Vaza Jato que foram liberados pelo ministro Ricardo Lewandowski à defesa de Lula revelaram que o procurador Deltan Dallagnol, da Lava Jato, e Moro tramaram o vazamento do grampo ilegal que captou a conversa entre a ex-presidenta Dilma Rousseff e Lula em torno da nomeação do petista como ministro da Casa Civil.

“Moro sempre foi o vilão, qualquer pessoa honesta e inteligente sabia disto. A narrativa ‘jornalística’ que o construiu como ‘herói’ era tão embusteira e frágil quanto as ‘boas intenções’ de José Padilha e de Vladimir Netto em suas vergonhosas peças de propaganda política”, postou Wyllys.

“Moro pôde enganar muita gente um certo tempo (graças à mídia comercial que sustentou sua corrupção e sordidez); pode até seguir enganando idiotas por algum tempo (sempre há idiotas!); mas é fato que seu reino de enganação (e cafonice!) está em acelerada ruína. Mas é pouco…”, acrescentou o ex-parlamentar.

SAIA JUSTÍSSIMA

Na reabertura dos trabalhos do Supremo Tribunal Federal após o recesso, o presidente da Corte, Luiz Fux, utilizou parte de seu discurso para criticar o negacionismo e a falta de empatia com as vítimas da Covid-19 no Brasil. Ao lado do presidente Jair Bolsonaro, Fux direcionou uma crítica ao novo presidente do Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul, desembargador Carlos Eduardo Contar, que se manifestou contra as medidas de prevenção à Covid-19.

“Fiquei estarrecido com um presidente de um Tribunal de Justiça minimizando as dores desse flagelo. Pessoas que abusam da liberdade de expressão para propagar o ódio, desprezam as vítimas e desprezam através do negacionismo científico o problema grave que vivemos. É tempo de valorizarmos as vozes ponderadas, confiantes e criativas, que laboram diuturnamente, nas esferas públicas e privadas, para juntos vencermos essa batalha”, declarou Fux.

No último dia 22, durante sua posse no TJ-MS, Contar afirmou: “Voltemos nossas forças ao retorno ao trabalho, deixemos de viver conduzidos como rebanho para o matadouro daqueles que veneram a morte, que propagandeiam o quanto pior melhor, desprezemos pois o irresponsável, o covarde e picareta da ocasião que afirma ‘fiquem em casa’, ‘não procurem socorro médico com sintomas leves’, ‘não sobrecarreguem o sistema de saúde’”.

No dia seguinte, Bolsonaro compartilhou nas redes sociais o discurso de Contar contra o distanciamento social.

GENTE DE BEM

O arcebispo metropolitano de Natal, Dom Jaime Vieira Rocha, se desculpou após se recusar a conceder uma entrevista ao jovem comunicador Ricardo Sérgio após missa realizada na cidade de Espírito Santo (RN). Nas redes, usuários acusaram Dom Jaime de comportamento LGBTfóbico.

O arcebispo interrompeu a entrevista e disse: “Eu não tô gostando dessa entrevista não. Tô achando que estão me usando para me ridicularizar, não sei”, disse o arbecispo após ser questionado por Sérgio sobre a Festa de Nossa Senhora da Piedade. O rapaz integra a equipe da Pastoral da Comunicação da Igreja da Nossa Senhora da Piedade.

Em seguida, Sérgio questiona o arcebispo se ele pretende prosseguir com o depoimento. Dom Jaime, então, “agradece”, demonstrando que não pretende mais falar com o jovem. Constrangido, o comunicador então pergunta se o arcebispo pretende falar sozinho, que consente. “A gente vive num mundo complexo”, justificou.

Logo quando o jovem disse a primeira palavra, o arcebispo já arregalou os olhos e o encarou com um olhar de desprezo. Nas redes sociais, o comportamento do arcebispo foi visto como LGBTfóbico tendo em vista a voz fina e a fala efusiva do jovem. O vídeo de dois minutos viralizou no Twitter.

FRASES DA SEMANA

“Ele perguntou o que eu achava. Falei: ‘Nelson, é um governo de extrema-direita, a extrema-direita prendeu e torturou nosso pai’. Ele falou: ‘É verdade, irmão. Vou pensar’.” (Fábio Trad, deputado federal, PSD-MS, sobre o senador Nelsinho Trad, sondado para ministro de Bolsonaro)

“Nos encontramos em 2022”. (Jair Bolsonaro, presidente do Brasil, recebido no Congresso aos gritos de ‘genocida’, ‘fascista’, por deputados da oposição, e de ‘Mito” por deputados que o apoiam.)

“Nós temos que encerrar com essa preocupação midiática de julgar o Lula tendo em vista esse desiderato: fazê-lo inelegível. Eu digo sempre: Lula é digno de um julgamento justo”. (Gilmar Mendes, ministro do Supremo Tribunal Federal) 

“O discurso de paz e harmonia durou 10 minutos. Foi sucedido por outro discurso, revanchista e odioso. E mostrou o tom de como ele vai conduzir a Câmara”. (João Doria, sobre a decisão de Arthur Lira de anular a eleição dos demais membros da direção da Câmara, só valendo a dele)

“Esse negócio de covid não é como todo mundo fala. Olha eu, aqui, sem máscara. Não pega nada. Todo mundo é livre para usar ou não a máscara. Isso aí é só uma gripezinha, é só tomar remédio e cuidar em casa”. (Eduardo Gomes dos Santos, banhista das praias de Santos, em São Paulo) 

“O que vejo sobrando de apoio para este governo provavelmente não inclui a maioria do empresariado. A turma já entendeu que aquela promessa de governo liberal na economia e mais manso nos costumes já era.” (Arminio Fraga, ex-presidente do Banco Central) 

“Às vezes se acusa a ex-presidente [Dilma Rousseff] de uma eventual desonestidade. Convivi com ela, claro que muito decorativamente, mas devo dizer que é de uma honestidade ímpar”. (Michel Temer, ex-presidente da República)


Voltar


Comente sobre essa publicação...