Semana On

Segunda-Feira 01.mar.2021

Ano IX - Nº 432

Coluna

Fora, fora, fora Bolsonaro!

Idelber Avelar fala de impeachment, bolsonarismo, lulopetismo e quetais

Postado em 28 de Janeiro de 2021 - Idelber Avelar

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Nos últimos três ou quatro dias, esquentou um pouco no Brasil, creio eu, a conversa sobre o impeachment. O minúsculo caiu um pouco em duas pesquisas, a familícia tem tido que ouvir essa palavra e responder a ela, ela chegou a ser mencionada por Rodrigo Maia, e em círculos de pessoas que não são necessariamente junkies políticos, tirar Bolsonaro é hoje um tema que circula com uma fluência que não circulava duas ou três semanas atrás.

Falta muito ainda, mas melhorou.

Por isso o minúsculo trabalha contra a vacinação. Não apenas porque o modus operandi do bolsonarismo é produzir morte e caos, mas também porque a possibilidade de mobilizações populares é o seu maior pesadelo hoje. O que acaba tornando, evidentemente, o impeachment uma emergência humanitária e sanitária maior ainda.

FORA, BOLSONARO.

O QUE VOCÊS QUEREM?

Bolsonaro tem 35%. Um pouco mais, ou um pouco menos, por aí.

O antipetismo, a galera que diz e vota “qualquer coisa menos PT”, tem pelo menos 55%.

Tem 1% ou 2% da população que vive obcecada com a ladainha do golpe, e que arrasta hoje uns 10% a 15%, podendo subir para 20% ou 25%, dependendo da circunstância e do poder de chantagem do petismo.

Álgebra simples: enquanto os 1% ou 2% da religião do golpe continuarem arrastando 15% da população, os 55% do antipetismo continuarão sendo desse tamanho e o Bolsonaro, mesmo que caia de 35%, continuará vencendo. É a matemática mais simples que há.

Aí vocês decidem o que querem.

DEGENERAÇÃO BOLSONARO

A degeneração que o bolsonarismo impõe à linguagem é tal que -- creio que isso não foi assinalado ainda -- popularizou-se no português brasileiro dos últimos seis meses uma expressão na qual AS DUAS palavras não significam o que elas deveriam significar, corrompidas, ambas, totalmente, pela máquina de guerra bolsonarista.

"Tratamento precoce" é o nome que se deu a um pacote fake que o governo empurra como engabelação e bate-bumbo na sua produção da morte. Não é necessário ser epidemiologista, basta abrir os jornais para saber que se trata de um pacote com drogas (cloroquina, hidroxicloroquina, azitromicina, ivermectina) que nada têm a ver com "tratar" ou "curar" o coronavírus.

Por que, então, continua-se chamando isso de "tratamento", mesmo que entre aspas? Esse uso da língua é uma vitória do bolsonarismo.

O adjetivo "precoce", quando não é neutro, é de conotação positiva (pense em "criança precoce"). E não há nada "precoce" em entupir alguém de cloroquina ou ivermectina se a ciência não os receita EM NENHUM MOMENTO. O termo "precoce" não faz sentido.

Chamem de pacote fake, pseudotratamento, ou falso coquetel anti-Covid, chamem do que queiram, a língua oferece inúmeras possibilidades.

Mas enquanto a expressão "tratamento precoce" circular por aí como se fosse séria, o bolsonarismo continuará vencendo.

CRIMINOSO

“Bolsorono é o chefe da mais letal organização criminosa em atividade no país. Removê-lo é uma questão de sobrevivência, o exercício mais elementar e legítimo do direito de resistência: o direito de autodefesa das nossas próprias vidas. Da vidas de todas e todos que amamos."

Contem comigo aí, eu estou dentro e este espaço está à disposição.

CONSPIRAÇÃO

Saiu uma reportagem impressionante de Stuart A. Thompson no New York Times, uma espécie de etnografia de um grupo conspiracionista trumpista durante as três semanas anteriores à posse de Biden. É uma reportagem multimídia, que contém áudios que as pessoas enviavam explicando suas viagens loucas (era um grupo aberto de internet, com a premissa tácita de que eram arquivos públicos).

São as viagens mais loucas do universo: os anúncios de que Trump decretaria lei marcial, que haveria tribunal militar para os democratas e o ex vice de Trump, Mike Pence, por traição, que Trump teria uma 'carta mágica' na manga para reverter o resultado etc.

É uma aula sobre como uma base política (ou uma parte dela) vai virando seita: a realidade está incessantemente dizendo uma coisa, esfregando essa coisa em suas fuças, e a cada porrada da realidade o sujeito dá um triplo carpado para incorporar aquela porrada na sua narrativa alucinatória.

Recomendo pra todo mundo, mas para a galera da antropologia, especialmente, essa reportagem é imperdível.

MIRIAM, IMPECÁVEL

Reproduzo, para quem não tenha visto, o artigo de ontem da Miriam Leitão. Está impecável demais, assino da primeira à última linha.

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Impeachment pelo passado e futuro

Míriam Leitão, O Globo (24/01/2020)

Dos argumentos contra o impeachment do presidente Jair Bolsonaro, o mais fraco é o de que não podemos “banalizar” esse instrumento. A lei é para ser usada, e em nenhum outro caso anterior a este fez tanto sentido iniciar o processo de punição que é previsto na Constituição e em lei de 1950 para o caso de o presidente cometer crime de responsabilidade. Bolsonaro incorreu em vários crimes, inclusive comuns, desde que assumiu o cargo.

Não é a primeira vez que escrevo isso neste espaço. Em maio do ano passado escrevi que era necessário não ter medo de encarar o impedimento, sempre traumático, mas agora necessário para salvar vidas. Em outras colunas, listei os artigos das leis do país que ele tem ferido constantemente. No ano passado ele escalou nos ataques às instituições justamente quando o Brasil começava o enfrentamento a um vírus mortal. É uma dupla perversidade.

O impeachment da presidente Dilma não foi apenas por um preciosismo fiscal, por uma singela pedalada, como ficou na memória de muita gente, da mesma forma que Collor não foi abatido por um Fiat Elba. Com seus erros de decisão, sequenciais, Dilma desmontou a economia. A recessão destruiu 7% do PIB em dois anos, a inflação voltou a dois dígitos, o desemprego escalou, o déficit e a dívida deram um salto. Tudo isso derrubou sua popularidade e ela não teve sustentação política. Não foi um golpe. Foi o uso do impeachment por crime de responsabilidade fiscal, e num contexto de descobertas de assalto aos cofres da Petrobras para financiamento político.

Os crimes de Jair Bolsonaro estão em outro patamar de gravidade, porque atentam contra a vida. A falta de coordenação federal da pandemia matou brasileiros. Ele estimulou o agravamento da pandemia por atos, palavras e omissões. Se permanecer intocado e com o seu mandato até o fim, a história será reescrita naturalmente. O impeachment da presidente Dilma parecerá injusto e terá sido. E isso porque diante de crimes muito mais graves do que os que provocaram a desordem econômica, as instituições cruzaram os braços e lavaram suas mãos deixando Bolsonaro protegido.

O presidente faz seus movimentos ameaçadores diante de instituições inertes ou coniventes. A nota do procurador-geral da República, Augusto Aras, é inconcebível. Ele não apenas diz que não fará seu papel constitucional, como ameaça o país com uma insinuação de estado de defesa. Isso é a antessala de um golpe. Bolsonaro mais uma vez, nos últimos dias, usou as Forças Armadas para intimidar o país. E elas silenciam.

Ajudaram desde o início o presidente com seus silêncios, suas palavras ambíguas, e sua presença ao lado de um ex-tenente que virou capitão quando passou, com desonra, para a reserva.

O Congresso é o próximo passo que está sendo dado pelo presidente. Ter políticos submissos na presidência das duas Casas será a etapa final para a blindagem. Bolsonaro avança nesse propósito com a ajuda inclusive dos partidos de esquerda, como PT e PDT, que deram oficialmente seu apoio a Rodrigo Pacheco (DEM-MG), o senador que diz serem “escusáveis” os erros do governo. Que escusa existe para o caso de Manaus? Pessoas morreram sufocadas porque o governo não ouviu os alertas dos próprios funcionários do Ministério da Saúde, numa terrível cronologia da tragédia. O ministro lá esteve e voltou prescrevendo tratamento que a ciência comprovou que é ineficaz. E o estado precisava de oxigênio. Na Câmara também avança o candidato com o apoio do Planalto.

Bolsonaro quer demonstrar superioridade e que tudo está dominado. Tem chances de colocar submissos nas presidências das duas Casas, a PGR já está em suas mãos, as Forças Armadas aceitam ser o espantalho dos democratas. Muitos dizem não ser estratégica a defesa do impeachment agora, porque ele seria barrado pela anomia das instituições. Isso não é argumento para não defender o impeachment do presidente Bolsonaro. Ele cometeu inúmeros crimes e precisa responder por eles. Se a democracia brasileira não tiver forças para tanto, ela mudará o passado. Serão injustos os impeachments anteriores. O mais grave, contudo, não é a mudança do passado, mas a do futuro. Brasileiros estão morrendo hoje pela gestão criminosa da pandemia. Em nome dos sem futuro a democracia brasileira precisa encarar o seu maior desafio.


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