Semana On

Quarta-Feira 14.abr.2021

Ano IX - Nº 438

Especial

O ovo da serpente

Extrema-direita na política e nas redes preocupa autoridades de todo o mundo. No Brasil, sua infiltração na Polícia e nas Forças Armadas é promovida pelo bolsonarismo

Postado em 26 de Janeiro de 2021 - Gian Amato (O Globo), Katrin Bennhold e Michael Schwirtz (New York Times), Jamil Chade (UOL), Raphael Veleda (Metrópole), Marcelo Godoy (O Estado de S.Paulo) – Edição Semana

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Os mais de 500 mil votos obtidos por André Ventura, do partido de extrema direita Chega!, na eleição presidencial do último domingo em Portugal deram  relevância nacional a uma legenda criada há apenas dois anos e que só tinha um deputado, o próprio Ventura. O partido obteve o terceiro lugar nas eleições presidenciais. Projeções apontam que a legenda teria quase 10% do Parlamento português, 19 deputados. Seria o único partido a aumentar a sua participação parlamentar. “Isso significa que Portugal passa por uma reconfiguração da representação partidária à direita”, diz o cientista político António Costa Pinto.

O que ocorreu em Portugal nesta semana não é um fato isolado. Redes de extrema-direita têm ganhado projeção em todo o mundo, no campo da democracia representativa e, especialmente, por meio de grupos organizados na sociedade civil. Quando atacaram o Capitólio em Washington no início deste mês, pessoas ligadas à extrema direita vibraram do outro lado do Atlântico. Jürgen Elsässer, editor da mais famosa revista de extrema direita alemã, estava assistindo tudo ao vivo de seu sofá. “Era como se fosse um jogo de futebol”, disse.

Quatro meses antes, Elsässer participou de uma marcha em Berlim, quando um grupo de manifestantes de extrema direita tentou — e fracassou em — forçar a entrada no prédio que abriga o Parlamento alemão. O paralelo não se perdeu para ele. “O fato de eles terem invadido elevou as esperanças de que há um plano. Ficou claro que isso era algo maior”, declarou.

E é. Defensores de movimentos de extrema direita pelo mundo compartilham mais do que apenas uma causa em comum. Extremistas alemães viajaram aos EUA para competições de tiro. Neonazistas americanos visitaram companheiros na Europa. Militantes de vários países se unem em campos de treinamento na Rússia e na Ucrânia até a África do Sul

Por anos, a extrema direita trocou ideias e inspiração nas margens da sociedade e nos cantos mais obscuros da internet. Agora os eventos do dia 6 de janeiro no Capitólio deixaram claro seu potencial para a violência.

Em conversas nas redes sociais usadas pelos extremistas, muitos consideraram que a invasão ao Capitólio foi uma bobeira amadora. Alguns ecoaram mentiras dos canais ligados à conspiração QAnon nos EUA, alegando que a confusão foi montada por pessoas da esquerda para justificar uma repressão aos apoiadores de Donald Trump. Mas outros viram como um momento de aprendizado — sobre como ir adiante em seu objetivo de derrubar governos democráticos de formas mais concretas.

É uma ameaça que a comunidade de inteligência, em especial na Alemanha, leva a sério. Tanto que, logo depois da violência nos EUA, as autoridades locais aumentaram  a segurança ao redor do Parlamento, que manifestantes da extrema direita — levando algumas das mesmas bandeiras e símbolos vistos em Washington — tentaram invadir no dia 29 de agosto.

O presidente Joe Biden ordenou que fosse feita uma análise profunda da ameaça do extremismo interno nos EUA.

Por enquanto, não foram encontrados planos para ataques na Alemanha, segundo agentes de segurança. Mas alguns estão preocupados que os efeitos do dia 6 de janeiro tenham o potencial de radicalizar extremistas de direita na Europa.

“Pessoas de extrema direita, coronacéticos e neonazistas estão se sentindo inquietos. Há uma mistura perigosa de louvor ao quão longe os invasores foram e a frustração de não terem conseguido uma guerra civil ou um golpe”, declarou Stephan Kramer, chefe da inteligência interna no estado da Turíngia.

É difícil dizer exatamente o quão profundos e duráveis são os laços entre a extrema direita nos EUA e seus pares na Europa. Mas os governos estão cada vez mais preocupados com uma rede de ligações internacionais difusas, e temem que essas redes, já encorajadas durante os anos Trump, tenham se tornado mais determinadas depois de 6 de janeiro.

Um relatório recente do governo alemão descreve “um novo movimento de extrema direita transnacional, sem líderes, com pensamento apocalíptico e violento” que surgiu na última década.

Os extremistas são movidos pelas mesmas teorias da conspiração e narrativas de “genocídio branco” e “grande substituição” de populações europeias por imigrantes, diz o relatório. Eles ocupam os mesmos espaços on-line e também se encontram em festivais de música de extrema direita, eventos de artes marciais e protestos.

“As cenas neonazistas são bem conectadas. Não estamos falando de curtidas no Facebook. Estamos falando de neonazistas viajando, se encontrando e celebrando juntos”, disse Kramer.

Os campos de treinamento provocaram ansiedade na inteligência e entre agentes de segurança, que temem que tais atividades pavimentem o caminho para um tipo mais organizado e deliberado de violência.

Dois nacionalistas brancos que estiveram em um acampamento paramilitar mantido pelo extremista Movimento Imperial Russo, nos arredores de São Petersburgo, foram acusados por promotores suecos de planejar ataques a bomba contra imigrantes em busca de asilo. No ano passado, o Departamento de Estado designou o Movimento Imperial Russo como uma organização terrorista, o primeiro grupo nacionalista branco a receber tal qualificação.

Em 2019, o diretor do FBI, Christopher Wray, alertou que os supremacistas americanos estavam viajando para o exterior para treinar com grupos nacionalistas estrangeiros. Um relatório daquele ano do Centro Soufan, um centro de estudos independente, descobriu que 17 mil estrangeiros, muitos deles nacionalistas brancos, viajaram à Ucrânia para lutar nos dois lados do conflito no Leste do país. Muitos eram russos, mas havia dezenas de americanos.

Em algumas ocasiões, um inspira o outro a matar.

Os manifestos cheios de ódio de Anders Breivik, que matou 77 pessoas na Noruega em 2011, e de Dylann Roof, um supremacista branco americano que matou nove pessoas em uma igreja na Carolina do Sul quatro anos antes, influenciaram Brenton Harrison Tarrant, que em 2019 transmitiu ao vivo o assassinato de mais de 50 muçulmanos em Christchurch, na Nova Zelândia.

O manifesto de Tarrant, intitulado “A grande substituição”, por sua vez inspirou Patrick Crusius, que matou 22 pessoas em El Paso, assim como um atirador norueguês que foi dominado quando tentava atirar em pessoas em uma mesquita de Oslo.

Muitos extremistas imediatamente interpretaram os eventos de 6 de janeiro como uma vitória simbólica e uma derrota estratégica com cujos errados deveriam aprender.

Elsässer, editor da revista Compact, apontada pela inteligência interna alemã como extremista, descreveu o ataque ao Capitólio como uma “tentativa honrada” que fracassou por conta do planejamento inadequado.

“O ataque do Parlamento por manifestantes é o começo de uma revolução que pode funcionar", escreveu um dia depois do ataque. “Mas uma revolução só pode ter sucesso se for organizada. Na hora mais tensa, quando você quer derrubar o regime, precisa de um plano e uma equipe.”

Movimento global?

Entre os que se sentem encorajados pela mobilização vista desde o dia 6 de janeiro estava Martin Sellner, líder da seção austríaca do movimento de extrema direita europeu Geração Identidade, que defende a não violência mas ajudou a popularizar ideias como a da “grande substituição”.

Depois do ataque ao Capitólio, Sellner escreveu que “a raiva, a pressão e o ânimo revolucionário entre os patriotas é em princípio potencialmente positivo. Apesar da falta de foco no ataque ao Capitólio, deixando para trás nada além de alguns memes e vídeos virais, poderia ser criada uma abordagem planejada a partir desse sentimento rumo a uma resistência mais efetiva”.

Sellner, que disse em entrevista que Trump poderia ser ainda mais eficiente na oposição, personifica o alcance de um movimento cada vez mais global, com seus laços com ativistas na Europa e nos Estados Unidos. Ele é casado com Brittany Pettibone, uma americana que é estrela do YouTube com seus vídeos da “alt-right”, onde aparece entrevistando extremistas conhecidos no continente, como o nacionalista britânico Tommy Robinson.

Vários integrantes dos Proud Boys estavam entre os que atacaram o Capitólio. No dia 19 de outubro, o grupo compartilhou em seus grupos no Telegram ter visto um “grande salto no apoio vindo da Alemanha nos últimos meses”.

“Uma grande parte de nossos vídeos está sendo distribuída pela Alemanha”, diz uma mensagem, que também foi traduzida para o alemão. “Agradecemos o apoio e estamos rezando por nosso país. Estamos com os nacionalistas alemães que não querem imigrantes destruindo seu país.”

Enquanto os EUA exportam as teorias da conspiração QAnon pelo Atlântico, teorias similares vindas da Europa e desinformação estão chegando a terras americanas. Dias depois da eleição de novembro, seguidores do QAnon na Alemanha espalhavam uma ideia falsa de que provaram que a votação foi manipulada por um servidor operado pela CIA em Frankfurt, apesar de milhões de votos terem sido enviados em papel e por correio.

A desinformação, que o pesquisador Josef Holnburger rastreou ter sido originada em uma conta em alemão, foi amplificada por pelo menos uma seção da Alternativa para a Alemanha, a AfD. Também foi destacada pelo deputado americano Louie Gohmert e por Rudy Giuliani, aliado e advogado de Trump e ex-prefeito de Nova York.

Daí, a publicação viralizou nos EUA — algo até então inédito para os conspiracionistas QAnon alemães, aponta Holnburger.

Os laços transnacionais são mais inspiradores do que focados em organização, afirma Miro Dittrich, especialista em redes extremistas de direita. “Não se trata de criar um plano concreto, mas sim criar um potencial violento”, declarou.

Especialistas se mostram céticos sobre o potencial de criação de relações mais duradouras entre os grupos de extrema direita. Quase todas tentativas nesse sentido desde a Segunda Guerra fracassaram, afirmou Anton Shekhovtsov, especialista da Universidade de Viena.

Há uma divisão entre os seguidores desses grupus a respeito do valor ou a viabilidade dessas alianças. Para muitos, a ideia de um movimento nacionalista internacional é um oxímoro.

“Há um clima comum e uma troca de ideias, memes e imagens. Mas os campos políticos nos EUA e na Europa são muito diferentes”, declarou Sellner, o ativista de extrema direita austríaco.

Rinaldo Nazzaro, fundador do grupo supremacista branco internacional A Base, agora vive em autoexílio em São Petersburgo, na Rússia, mas diz não ter interesse em estabelecer laços com grupos nacionalistas russos. “Nacionalistas nos EUA precisam fazer a parte mais pesada (do trabalho). O apoio vindo de fora pode ser apenas suplementar, no máximo”, disse.

Por democracia, UE quer pacto mundial para frear "lado escuro" da Internet

A Comissão Europeia indica que quer costurar com o governo dos EUA e outros parceiros pelo mundo um pacote de regras para a Internet, com o objetivo de defender a democracia e direitos humanos.

O anúncio foi feito na terça-feira (26) pela presidente da Comissão, a Ursula von der Leyen. Num discurso no Fórum Econômico Mundial, que ocorre de forma virtual neste ano, a alemã deixou claro que sua iniciativa é uma consequência direta das cenas que o mundo presenciou diante da invasão do Capitólio, nos EUA no começo de janeiro.

"Vimos o lado escuro do mundo digital", disse. "O que ocorreu no Capitólio foi um choque. Sempre dissemos que a democracia é parte de nosso código genético. Mas precisamos alimentar todos os dias e defender as instituições da ataques de fake news e ódio", defendeu.

"Descobrimos que é um passo curto entre teorias de conspiração e a morte de um policial", alertou, numa referência a uma das pessoas que morreram no dia 6 de janeiro em Washington.

Segundo ela, o mundo digital "tem impacto, não apenas na questão da concorrência, mas também para a democracia, segurança e na qualidade de informação", disse.

Para a europeia, chegou o momento de os governos adotarem medidas para lidar com essa realidade. "Precisamos conter esse poder imenso das plataformas online. Queremos que os valores offline sejam defendidos online", defendeu. "O que é ilegal offline deve ser ilegal online", insistiu.

Para isso, ela propõe que governos estabeleçam um acordo mundial de regras baseadas em direitos humanos e proteção de privacidade.

"As plataformas precisam ser transparentes sobre como algarismo funcionam", disse. "Democracia não pode depender de computadores", insistiu.

Para ela, as gigantes do mundo online precisam ter responsabilidades sobre como "removem e promovem conteúdo".

Von der Leyen, porém, deixou claro que é contra deixar às empresas a decisão de quem deve ou não usar as redes sociais.

"Por mais tentador que fosse Twitter fechar a conta de Donald Trump, isso não pode ser só uma decisão de empresas. Precisamos de leis", defendeu. Para ela, esse será um dos principais aspectos para a defesa da democracia nos próximos anos.

Limitada por grandes redes na internet, extrema direita no Brasil se refugia em serviços com regras frouxas

No último dia 15, próceres da extrema direita brasileira tentaram fazer frente as big techs que têm limitado seu campo de ação. Promoveram o chamado “Dia do Silêncio”, uma espécie de greve de postagens e likes, uma manifestação pontual contra o que influenciadores digitais do campo da direita ligada ao escritor Olavo de Carvalho chamam de “censura das big techs”. O movimento marcou também uma tentativa de migrar a militância para ambientes virtuais com menos amarras contra o extremismo e a propagação de desinformação.

O banimento do ex presidente norte-americano, Donald Trump, do Twitter foi o ponto alto da insatisfação de internautas conservadores nos Estados Unidos e no Brasil. Acuados pela política dessas grandes redes que restringem, por exemplo, notícias com acusações sem provas de fraude eleitoral e desinformação sobre a gravidade do coronavírus, esses militantes estão se mobilizando para tornar populares serviços de troca de mensagens e de relacionamento virtual até agora obscuros para a maioria dos internautas.

A busca não é simples. Primeira opção, a rede social Parler, parecida com o Twitter, acabou banida das grandes lojas de aplicativos sob a justificativa de não agir para coibir o discurso de ódio, e saiu do ar após perder até os servidores que eram fornecidos pela Amazon. No traumático processo, segundo a imprensa dos EUA, o serviço ainda foi hackeado, expondo dados privados de todos os usuários.

Sem o Parler, a aposta conservadora de rede social é a norte-americana Gab, criada em 2016, e que, pela política de total liberdade de expressão, é acusada no país de origem de abrigar discursos de ódio contra judeus, gays, imigrantes, mulheres e minorias em geral. O terrorista que cometeu um atentado contra uma sinagoga em Pittsburgh em outubro de 2018, deixando 11 mortos, era ativo no Gab e compartilhava memes racistas sem ser incomodado.

Influenciadores digitais bolsonaristas, como Allan dos Santos, investigado no STF pela suposta promoção de atos antidemocráticos, estão usando suas contas nas redes tradicionais para convencer a militância a migrar para o Gab.

O esforço conservador também busca uma opção ao WhatsApp para a troca de mensagens e difusão de propaganda. Uma das opções é o aplicativo Signal, que foi catapultado como o mais baixado na loja de aplicativos da Apple e na Google Play Store. Garantindo que jamais irá vender dados de usuários nem exibir anúncios, o programa saltou de 20 milhões de usuários ativos em dezembro para 27,5 milhões até 10 de janeiro (uma alta de 37,5%), segundo sites especializados, como o da Sensor Tower.

Mais popular, inclusive no Brasil, é a opção Telegram, de origem russa e que também promete total proteção dos dados. No ambiente é possível criar grupos, e até o presidente Jair Bolsonaro lançou um, no último dia 12, para distribuir suas postagens. Em um dia, o grupo do presidente angariou 222 mil participantes.

É bastante, mas nada próximo dos 13 milhões de seguidores que o presidente cultiva, por exemplo, no Facebook. Por causa desse “patrimônio” nas redes famosas, a ordem não é abandoná-las, mas conquistar novos espaços, para não ficar sem voz no caso de medidas drásticas como a tomada pelo Twitter contra Trump.

Em março do ano passado, o Twitter chegou a apagar publicações da conta de Bolsonaro por violação de regras. Nas postagens deletadas, o presidente se mostrava causando aglomeração e pregando contra o isolamento social enquanto a pandemia de coronavírus ceifava vidas de brasileiros.

Também cerceado pela plataforma após postar um vídeo do pai defendendo a cloroquina como cura para a Covid-19 (o que não tem comprovação científica), o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) resolveu acompanhar um movimento de perfis direitistas e trocou a foto pessoal pela de Trump como protesto contra o Twitter. Segundo o próprio filho do presidente, uma substituição definitiva. Veja a justificativa dele:

Para servir aos propósitos dos conservadores, os serviços não podem ser apenas a concorrência das big techs norte-americanas, mas precisam ter algum alinhamento ideológico. O chinês TikTok, apesar de ser a plataforma que mais cresce no mundo entre as redes sociais, não está recebendo novos usuários do campo conservador justamente por ser chinês – e não ser claro quanto ao tratamento dos dados de usuários.

Para a pesquisadora em democracia digital Maria Carolina Lopes de Oliveira, mestre em democracia pela Universidade de Salamanca e em ciência política pela UnB, o discurso de fuga das redes que os censuram não é a única explicação para o movimento desses perfis conservadores em direção a serviços em que podem falar sem muita oposição.

“É uma estratégia num momento em que políticos que eles apoiam passam a ser mais contestados, quando aumenta a dissidência. Incomoda ser contestado o tempo todo, e migrar para grupos mais fechados, em que podem disseminar suas visões de mundo sem essa contestação, faz sentido neste momento, pode deixar o grupo mais coeso”, analisa ela, que faz doutorado em comunicação na Universidad Pompeu Fabra, em Barcelona.

“Pode parecer que eles estão se isolando, mas pode ajudar a mantê-los mobilizados, o que interessa ao presidente Bolsonaro, que age sempre para aumentar a polarização política e fortalecer o núcleo do bolsonarismo, que ele acha ser suficiente para levá-lo ao segundo turno em 2022”, avalia ainda a pesquisadora, que diz ser cedo para saber se a estratégia vai funcionar.

“Uma consequência é que, nesses ambientes sem oposição, esse grupo tende a ficar mais radicalizado, pois não há outros grupos contestando as posições”, conclui Maria Carolina.

Infiltração da extrema-direita é ameaça para Forças Armadas e polícias

Durante toda a Guerra Fria, os comandantes de Forças Armadas e de órgãos de segurança do Ocidente viviam preocupados diante da influência comunista em suas unidades. Diziam que o problema era ter em um posto-chave algum oficial identificado com as ideias do inimigo em razão do risco para a segurança de suas forças. A situação seria pior em caso de guerra em sociedades divididas, como a italiana, onde um embate com o Pacto de Varsóvia podia facilmente reacender o conflito civil que o país conhecera nos anos finais da 2.ª Guerra Mundial.

No Brasil, o medo da infiltração comunista e da constituição de células do PCB no Exército se nutria da lembrança da rebelião de 1935 e do impacto do caso do capitão Carlos Lamarca, do 4º Regimento de Infantaria. Os relatórios periódicos de informação produzidos pelos generais Tamoyo Pereira das Neves e Sérgio Augusto de Avellar Coutinho nos anos 1980 mostram o grau de preocupação com a agitação nos quartéis e a vigilância mantida pelo Centro de Informações do Exército (CIE).

O relatório de fevereiro de 1989, assinado por Coutinho, fazia um balanço sobre a participação de militares da ativa e da reserva nas eleições municipais de 1988. Ele mostrava que 40 oficiais e praças haviam se apresentado aos eleitores - 18 da ativa, entre os quais o capitão Jair Bolsonaro. Com o atual presidente, outros 21 oficiais haviam se candidatado (nove da reserva). Para o general Coutinho, o quadro mostrava que a política sensibilizava pouco os militares da ativa, onde haveria "certa imunidade para aliciamento político". "Entretanto, estes dados não indicam a impossibilidade do aliciamento ideológico, que pode estar ocorrendo clandestinamente dentro e fora dos quartéis."

A afirmação do general era seguida por informações sobre o ataque ao quartel do 23.º Regimento de Infantaria Blindada, em La Tablada, na Argentina, onde um grupo esquerdista liderado pelo guerrilheiro Enrique Gorriarán Merlo tentou tomar a unidade. Entre os assaltantes estava a brasileira Aldira Pereira Nunes, uma das 39 pessoas mortas na ação. O movimento comunista era vigiado e monitorado pelos militares. E as manifestações de grupos de esquerda continuaram a ser alvo de vigilância de militares da inteligência, como demonstrou em 2016 o trabalho do capitão William Pina Botelho, o Balta.

Na Europa e nos Estados Unidos outro tipo de infiltração preocupa chefes militares e políticos: a de ativistas de extrema-direita. Eles são hoje o principal perigo para a democracia em países como Alemanha, Espanha e Estados Unidos. Foi isso que levou a Alemanha a dissolver uma companhia do Comando de Forças Especiais (KSK), uma tropa de elite das Forças Armadas alemãs. A medida foi anunciada pela ministra da Defesa do país, Annegret Kramp-Karrenbauer, em razão do envolvimento de integrantes da unidade com extremistas da direita alemã.

As Forças Armadas e as polícias alemãs mantêm investigações permanentes sobre a possível radicalização de seus integrantes. No caso da companhia dissolvida, seus homens organizaram uma festa de despedida para um comandante na qual fizeram a saudação nazista.  Em 2017, o governo alemão colecionava 391 investigações sobre infiltração da extrema-direita no Exército. No mesmo ano, o Alternativa para a Alemanha (AfD), partido da extrema-direita, obteve 12,6% dos votos e se tornou a 3ª maior bancada da Câmara baixa, o Bundestag, com 94 deputados.

No começo de dezembro, o Ministério da Defesa espanhol enviou ao Ministério Público cópias de mensagens de um grupo de WhatssApp de militares do país nas quais se discutia um golpe. Em novembro, 73 deles haviam enviado uma carta ao rei Felipe VI declarando se oporem ao governo espanhol, liderado pelo socialista Pedro Sánchez. Entre as mensagens, havia uma do major-general Francisco Beca: "Não há outra opção senão começar a fuzilar 26 milhões." O grupo foi denunciado por outro militar, que acusou os colegas de serem franquistas influenciados pelo Vox, o partido da extrema-direita espanhola, que obteve 15% dos votos na última eleição e fez 52 parlamentares.

Nos Estados Unidos, a infiltração de grupos da extrema-direita ligados ao presidente Donald Trump voltou ao debate depois da facilidade com que os extremistas invadiram e vandalizaram o prédio do Capitólio. Havia a suspeita de que policiais e militares de folga tivessem participado da ação. Uma das vítimas fatais da baderna foi a trumpísta e veterana da Força Aérea Ashli Babbit, morta pela polícia no ataque. Nos EUA não existe - como na Alemanha - um controle permanente nas forças policiais e nas militares para lidar com o fenômeno.

No Brasil, a infiltração da extrema-direita nas forças policiais e nas Forças Armadas é promovida pelo bolsonarismo. O guru Olavo de Carvalho ofereceu seus cursos online de graça a policiais e a militares. Enquanto alguns militares ainda se preocupam com movimentos sociais e organizações não governamentais, os quartéis são invadidos a partir da base pelo radicalismo bolsonarista, primo-irmão do extremismo trumpista. Em São Paulo, as polícias mantém um acompanhamento da ação de grupos de ódio e de extremistas. A Polícia Civil, por meio de uma delegacia, e a PM pelo Departamento Político de seu Serviço de Inteligência. 

O foco, porém, ainda é o antigo extremismo, aquele de grupos punks e skinheads ou neonazistas. Há, porém, novas facções. Elas se articulam na internet e divulgam suas ideias, como o QAnon, cujos membros participaram do assalto ao Capitólio, onde cinco pessoas morreram - entre elas o policial Brian Sicknick, que tentava conter os vândalos. O grupo se transformou em um centro irradiador de radicalismo e teorias conspiratórias em todo mundo. Não há notícia ainda que a Contrainteligência ou as Corregedorias da Polícia tenham aberto investigações para apurar a infiltração desses extremistas em suas fileiras. O mesmo vale para as Forças Armadas.

Esses grupos podem encontrar um terreno fértil na simpatia que o radicalismo bolsonarista desperta entre policiais e militares. É ele que explicaria a razão pela qual um policial militar se preocupa em fotografar a Kombi da Pastoral dos Povos de Rua, da Arquidiocese de São Paulo, no que foi compreendido como uma tentativa de constranger os assistentes sociais que distribuíam pães a moradores de rua, no sábado, dia 9, na Praça Princesa Isabel, no centro. Em vez de se dedicar a reprimir traficantes na vizinha cracolândia, o policial gastou seu tempo e o dinheiro dos impostos do contribuinte com o qual é pago para controlar os agentes da pastoral. Talvez a turma dos direitos humanos seja mais perigosa do que os bandidos do PCC.

Essa conivência com o extremismo também estava no policial que abraçou uma manifestante bolsonarista que carregava um taco de beisebol em uma passeata na Avenida Paulista em vez de apreender o objeto e identificar a suspeita. Ou ainda no policial que se sentiu à vontade para postar em suas redes sociais que ia descer a borracha em manifestantes contrários a Bolsonaro em São Paulo. Denunciado, o policial foi afastado do trabalho naquele dia. Foi pouco. Um policial sem isenção e partidário não serve para a defesa da sociedade e da democracia. Torna-se braço-armado de uma facção extremista que ameaça o País com baderna igual à americana nas eleições de 2022.

O mais grave na desatenção das forças de segurança em relação aos extremistas de direita é o fato de que, nos últimos anos, eles passaram a disputar com grupos islâmicos a primazia das ações terroristas ao redor do mundo. Em 2011, um deles matou 77 pessoas em um acampamento de jovens na Noruega. Em 2019, outro assassinou 51 pessoas na Nova Zelândia. Nos Estados Unidos, supremacistas brancos foram responsáveis por massacres em uma igreja em Charleston, em 2015, em uma sinagoga em Pittsburgh, em 2018, e em um supermercado em El Paso, em 2019. Os alvos eram muçulmanos, negros, judeus e hispânicos. Antes da eleição nos EUA, o FBI desbaratou um plano de extremistas para sequestrar a governadora democrata de Michigan, Gretchen Whitmer.

Não adianta dizer que a democracia não está em perigo no Brasil, se a ideia que alguns dela têm é meramente instrumental. A oposição não pode desempenhar apenas um papel simbólico, e a alternância de poder não deve ser tratada como ameaça ou risco de anomia. Achar que o perigo vem de um comunismo internacional que não existe mais ou de uma Guerra Fria do século passado é uma luta contra moinhos de vento, enquanto outra ameaça - real - deixa uma fila de cadáveres mundo afora. Se os chefes militares e policiais querem manter a política fora dos quartéis, devem começar a se preocupar com a infiltração da extrema-direita em suas organizações. Ela pode arrastar o País ao caos em nome dos delírios de terroristas que pretendem entregar o poder a promotores de badernas armadas.


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