Semana On

Sábado 27.fev.2021

Ano IX - Nº 432

Saúde

Médicos alertam para ineficácia de 'tratamento precoce' da Covid: 'Famílias inteiras morrendo'

Entenda como a vacina protegerá não apenas você, mas também quem está ao seu lado

Postado em 22 de Janeiro de 2021 - Maria Lúcia Gontijo (G1 Minas), Carolina Dantas (G1) – Edição Semana On

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Um idoso que, em dois dias, piorou e precisou de oxigênio. Uma família inteira infectada, e só a mãe sobreviveu. Um homem que passou o Natal com os pais, mesmo contaminado, e morreu dias depois.

Estas são três histórias de pessoas que foram contaminadas recentemente pelo coronavírus em Belo Horizonte. Elas têm em comum o uso de medicamentos sem comprovação científica para o tratamento da Covid-19 ou como tentativa de prevenir contra o vírus.

Dois médicos infectologistas que estão atuando desde março na linha de frente do combate à pandemia em BH relatam os casos.

Paciente ficou surpreso com diagnóstico

O médico Guilherme Lima, que atua no Centro de Tratamento Intensivo (CTI) do Hospital Eduardo de Menezes, referência no atendimento de infectados em Belo Horizonte, contou que atendeu um paciente que, antes mesmo de apresentar sintomas da Covid-19, fazia uso de medicamentos como cloroquina, ivermectina e azitromicina, para o "tratamento precoce" ao vírus.

Esse paciente se contaminou e precisou de oxigênio para sobreviver.

"Fui atendê-lo pela primeira vez depois que ele já estava no 5º dia de sintomas. A família fazia uso de medicamentos antes e durante o diagnóstico de coronavírus. No oitavo dia, o paciente foi internado com desidratação e pneumonia, ele precisou de oxigênio e ficou uma semana no hospital. É uma prova de que medicamento não tem eficácia comprovada na prevenção nem no tratamento da doença", disse Guilherme.

O médico contou que o paciente ficou surpreso com o diagnóstico positivo para coronavírus, mas ao mesmo tempo, disse que tomava o remédio porque "mal não ia fazer".

Família inteira contaminada

O infectologista relembrou também de um atendimento a toda uma família que estava contaminada pelo coronavírus. Segundo o médico, todos eles usaram cloroquina durante o tratamento. Apenas a mãe sobreviveu.

"Tive oportunidades de cuidar de famílias inteiras que tiveram adoecidas que viajaram, se reuniram em festas, pessoas que argumentavam contra a prevenção que é realmente eficaz, como o distanciamento, uso de máscara, e argumentavam a favor do medicamento. Chegaram a falar, mesmo adoentadas, que não se cuidavam porque tomavam os remédios e que eles protegiam elas", contou.

Nesse caso específico, segundo o médico, o pai e filho morreram.

"Só sobrou a mãe, só a matriarca sobreviveu. Não foram um ou dois casos que atendi iguais a estes, foram vários. Eles acreditavam que a medicação os protegiam e muitas pessoas morreram neste contexto, famílias inteiras morrendo", lamentou o médico.

'Maioria que vai para UTI fez uso de medicamento'

O infectologista e presidente da Sociedade Mineira de Infectologia de Minas Gerais, Estevão Urbano, também contou que a maioria dos pacientes que ele atende em hospitais faz o uso de algum medicamento sem comprovação acreditando que combateria a doença.

“Vários pacientes que chegam em hospital já graves, maioria deles, em algum momento, fez a utilização de terapia precoce, seja ivermectina ou cloroquina, é muito mais comum que a gente acredita. A maioria dos pacientes que vão para UTI fizeram uso de medicamento.”

O infectologista, que também é membro do Comitê de Enfrentamento à Covid-19 de BH, contou que atendeu um paciente que passou o Natal com febre, sentindo dores pelo corpo, e só no dia 31 de dezembro procurou ajuda médica, com sintomas já avançados.

Ele fazia uso de três medicamentos intercalados. O homem morreu dias depois.

“Um homem de alto nível socioeconômico de BH, que começou com sintomas antes do Natal, não queria procurar o hospital pois confiava na 'terapia precoce' com o uso de cloroquina, ivermectina e doxiciclina. Ele fez questão de viajar com a família e encontrar com os pais idosos na festa de Natal, mesmo com diagnóstico confirmado para coronavírus. Ele se refutou a procurar ajuda médica, pois fazia uso dos medicamentos e acreditava neles", contou Estevão.

"O atendimento foi de imediato. Ele estava com a saturação de oxigênio muito baixa e foi imediatamente entubado. Foi de casa para o tubo. Já estava numa fase avançada. Ficou por 10 dias entubado lutando para viver, mas infelizmente morreu", contou ele.

Estevão alertou ainda que o grande perigo do tratamento precoce é esse: procurar atendimento depois que as condições "são inaceitáveis e críticas".

"Infelizmente o paciente pagou com a vida por não ter procurado assistência médica", disse ele.

Estudos sobre medicamentos contra a Covid

Em novembro de 2020, um estudo brasileiro mostrou que pacientes que tomam cloroquina há anos têm o mesmo risco de desenvolver a Covid-19 do que aqueles que nunca tomaram. Participaram cerca de 400 estudantes de medicina e quase 10 mil voluntários espalhados por 20 centros do Brasil.

Antes disso, outras pesquisas já haviam mostrado a ineficácia das substâncias para prevenção e tratamento da infecção pelo coronavírus. A revista científica "Nature", uma das mais renomadas do mundo, publicou dois estudos que apontaram que a cloroquina e a hidroxicloroquina não são úteis contra a Covid-19.

Em 16 de julho de 2020, outra revista, a "Annals of Internal Medicine", mostrou que a administração de hidroxicloroquina em pacientes com quadro leve de Covid-19 também não se mostrou eficaz.

Em outubro, a Organização Mundial da Saúde divulgou seus próprios resultados: mais de 30 países envolvidos em um estudo com mais de 11,2 mil participantes.

No artigo, os cientistas afirmaram que quatro antivirais utilizados contra a Covid-19 são ineficazes: remdesivir, hidroxicloroquina, lopinavir/ritonavir (combinação) e interferon beta-1a.

Entenda como a vacina que você toma protege quem está ao seu lado

Por envolver uma atitude individual, em que cada pessoa vai até o posto de saúde, à primeira vista pode parecer que a vacinação é algo totalmente pessoal, na linha do "toma vacina quem quer". Mas não é bem assim: segundo especialistas, a vacinação é um ato de proteção coletiva.

"É importante a gente salientar por que a gente procura a alta cobertura vacinal no nosso PNI [Plano Nacional de Imunização]: quando atinge um certo percentual para cada vacina e situação, você está visando não só a proteção individual, mas a proteção coletiva", aponta Juarez Cunha, presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm).

A perspectiva, de acordo com os especialistas, é que quanto mais gente se vacinar logo no início, menos gente terá a versão grave e, assim, será mais fácil de tratar nos hospitais eventuais pessoas que ainda não receberam suas doses.

Outra questão é que quanto mais pessoas vacinadas, mais protegidas estarão as que não podem se vacinar — caso de grávidas, mulheres amamentando e alérgicos, por exemplo. Além disso, ao menos por enquanto, crianças não estão previstas na estratégia de vacinação por causa da falta de estudos para a faixa etária.

Em dezembro, o Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu que a vacinação deve ser obrigatória, mas que isso não significa vacinar alguém contra a sua vontade, de forma forçada. A Corte autorizou que sejam impostas medidas restritivas para quem não se vacinar, como perda do direito a receber benefícios do governo ou impedimento de fazer viagens internacionais.

O STF também negou que autorização para que pais deixem de vacinar os filhos pelo calendário oficial em razão de crenças pessoais. As vacinas para Covid-19 disponíveis no Brasil até agora, no entanto, não têm autorização para vacinação de menores de 18 anos.

Principais objetivos da vacina

Além de proteger o indivíduo imunizado, a vacina contra a Covid-19 tem dois objetivos principais com importantes reflexos na coletividade:

- desafogar o sistema de saúde sobrecarregado, garantindo que não faltem vagas

- reduzir a capacidade de disseminação da doença

Desafogar o sistema

O papel a médio prazo para os primeiros grupos a serem vacinados – no Brasil, serão 3 fases, incluindo profissionais de saúde, indígenas, quilombolas, idosos, pessoas com comorbidades, entre outros - é desafogar um sistema que já voltou a lotar. Exemplo disso é o colapso dos hospitais de Manaus na última quinta-feira (14), quando pacientes com Covid-19 ficaram sem oxigênio.

Segundo Domingos Alves, pesquisador da faculdade de medicina da Universidade de São Paulo em Ribeirão Preto, a taxa de eficácia das vacinas é satisfatória, mas, mais que isso, é muito alta quando se trata de proteger contra casos mais graves. E são esses pacientes que lotam as unidades de saúde.

"As vacinas que temos aqui no Brasil, elas têm essa característica: vão reduzir sensivelmente a possibilidade de internação de casos graves, e então vamos diminuir a necessidade de atenção médica. Ou seja, vai virar, finalmente, uma ‘gripezinha’.", disse o pesquisador.

No caso da CoronaVac, uma das vacinas em aplicação no país, Alves explica que o grupo que recebeu a vacina, em comparação com o que não recebeu durante os estudos, não apresentou casos graves da Covid-19. O Instituto Butantan mostra que a grande maioria dos vacinados (92%) apresentaram apenas a versão muito leve da doença, sem precisar ir ao médico.

Como as vacinas não garantem que o paciente não terá Covid-19 novamente, apenas diminuem a chance de infecção e também a gravidade da doença em relação às pessoas que não receberam, o uso da máscara ainda será fundamental, assim como o isolamento.

"Nenhuma vacina é 100% eficaz. Você só consegue maior proteção quando a maior parte da população se vacina, porque quando tem muita gente vacinando, o vírus diminui a circulação e, então, acaba protegendo também quem não está vacinado. Por isso que não é 'toma quem quer'", explica Denise Garret, epidemiologista e vice-presidente do Instituto Sabin de Vacinas.

Imunidade de rebanho

Ainda é difícil de definir o prazo para atingir a imunidade de rebanho contra a Covid-19 – quando a cobertura vacinal atinge um índice que começa a frear a transmissão para quem ainda não foi imunizado. Um dos motivos é a falta de definição de qual será a quantidade de doses disponíveis por mês no Brasil, além de uma certa incerteza dos cientistas com relação à porcentagem da população que é necessária para barrar a transmissão.

Por enquanto, o governo federal prevê mais de 340 milhões de doses das duas principais vacinas, a CoronaVac, da Sinovac, e a ChAdOx1, da Universidade de Oxford em parceria com AstraZeneca. O ministro da saúde, Eduardo Pazuello, chegou a cogitar a aplicação de apenas uma dose na população para ampliar a margem de vacinados. Há, ainda, a chance de uma produção maior caso o Instituto Butantan e a Fundação Oswaldo Cruz tenham acesso a mais insumos e, no caso dos estados, material para aplicação, como as seringas.

Com todas essas dúvidas, fica difícil determinar uma data final da campanha, quando todos – ou quase todos - os integrantes do grupo de risco estarão vacinados. Esse seria o momento em que chegaremos à imunidade de rebanho.

"Individualmente, estou oferecendo uma proteção para cada pessoa, mas a coletividade se beneficia se tiver um número elevado de pessoas se vacinando e chegando mais perto da imunidade de rebanho", explica Juarez Cunha.

Independente dessas indefinições, não é possível chegar ao índice mínimo da imunidade de rebanho sem o apoio da população, a consciência coletiva da vacinação. As pesquisas falam em taxas que variam de 60% a 80%, mesmo número citado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) em suas reuniões, e também por Anthony S. Fauci, um dos principais integrantes da força-tarefa criadas pelos Estados Unidos para responder à pandemia.

A pergunta é: quanto tempo será necessário para atingir 60% a 80% da população? Os pesquisadores ainda estão tentando determinar, mas acreditam que não será em 2021. Independente disso, só será possível chegar lá se as pessoas aceitarem se vacinar. Receber uma dose é chegar mais perto da taxa que vai reduzir a transmissão para toda a população.


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