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Sábado 27.fev.2021

Ano IX - Nº 432

Comportamento

É possível começar o ano de 2021 com mais otimismo?

Confira dicas dos especialistas em comportamento

Postado em 19 de Janeiro de 2021 - João Pedro Malar - O Estado de S.Paulo

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O ano de 2020, marcado pela pandemia do novo coronavírus, deu poucos motivos para se alegrar, e deve ficar marcado negativamente na vida da maioria das pessoas. Mas diante de todos os impactos ao longo dos últimos meses, é possível começar 2021 com mais otimismo? A verdade é que não há uma resposta universal para essa pergunta, mas existem, sim, formas de nutrir uma visão mais otimista da realidade.

Mas, antes, é preciso entender o que é o otimismo. A neurocientista e professora da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS), Carla Tieppo, considera que o otimismo, e o seu opositor, o pessimismo, servem como “temperos” sobre as visões de mundo que as pessoas têm. Para ela, as duas palavras representam filtros, com uma focando nos ganhos, e o outro, nas faltas.

Para além de formas de analisar uma situação, o otimismo tem um efeito prático em nosso sistema nervoso. Tieppo explica que o cérebro possui quatro sistemas produtores de hormônios, que funcionam como lâmpadas de cores diferentes. Há um ligado à energia, outro à motivação, outro à adaptação e outro ao descanso. É pela combinação dessas quatros “luzes”, com suas diferentes intensidades, que chegamos a um determinado humor.

O otimismo, e o pessimismo, influenciam diretamente nesses sistemas, podendo aumentar, ou diminuir, a intensidade deles e, assim, deixar uma pessoa mais bem-humorada ou mal-humorada. No caso das pessoas otimistas, há um fornecimento de energia maior para essas 'luzes' como a da motivação e energia, que ganham mais intensidade.

Já Christian Dunker, professor do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (IP-USP) vê o otimismo e o pessimismo como "perpectivas sobre o tempo”. Ele considera que uma pessoa pessimista pode lidar melhor com perdas ou fracassos, com menos decepção, pois para ela “a perda está garantida”, assim, “o que vier é lucro”.

“Mas a coisa não é bem assim. Registramos nossas perdas no cérebro multiplicando-as por cinco, ao passo que as grandes conquistas e ganhos, na hora valem por dez, mas logo depois se incorporam com um mero três”, explica Dunker, ligando essa ação às diferentes perspectivas que damos para diferentes acontecimentos ao longo do tempo.

Para Tieppo, o otimismo, e o pensamento positivo que ele traz, é mais vantajoso, pois permite enxergar melhor as oportunidades da vida, mas ela alerta: “não basta a palavra ou o pensamento positivo para mudar a vida. O otimismo é um filtro, mas precisa de ação, ver onde pode mudar, realizar a mudança, encontrar, explorar e investir em oportunidades”.

Excesso de otimismo faz mal?

Se uma pessoa mais otimista pode ser mais motivada e ativa, uma pessoa mais pessimista corre o risco de se tornar mais receosa, ou, como Dunker se refere, até “preguiçosa”. Para ele, a pessoa otimista é a que aposta em alguma coisa, uma mudança para seu futuro, enquanto que a pessoa pessimista prefere não agir pois dá o fracasso como certo.

Apesar disso, um excesso de otimismo pode fazer com que alguém realize apostas sem base na realidade, o que é danoso. Pessoas assim, segundo o psicólogo, possuem uma “positividade tóxica”. “O que você consegue com a positividade tóxica é aumentar a fragilidade do seu eu contra as rugosidades e quinas da realidade”, explica.

“Usar o otimismo para coisas que não são verdadeiras beira a ingenuidade, deixa a pessoa meio cega, ingênua. Então, nesse sentido, o otimismo é completamente descabido, porque não está pautado em oportunidades reais, genuínas, não adianta tentar modificar a partir de um mundo imaginário”, alerta Tieppo.

Ou seja, é importante que uma pessoa otimista não feche os olhos para a realidade, e entenda os riscos e possíveis consequências de suas ações, separando, assim, o que é uma oportunidade real e o que é uma oportunidade imaginária.

Como se tornar mais otimista?

Para Carla Tieppo, um aumento do otimismo envolve “retrabalhar a visão de mundo e ter mais foco no presente”. “Muitas pessoas abrem mão do comportamento positivo pois estão focadas em eventos passados desagradáveis ou eventos futuros que as deixam ansiosas”, explica.

Assim, práticas como a meditação, leitura, exercícios e outros hobbies ajudam a manter a pessoa no tempo presente, “que em geral é menos dramático do que como projeta o futuro e lembra do passado”. Com isso, é possível evitar uma “dinâmica ansiosa”, que traz prejuízos para o corpo. A ansiedade, explica a professora, diminui a energia dos quatro sistemas citados, e chega a, inclusive, favorecer o adoecimento.

“A ansiedade também é uma questão natural em um ambiente de mudanças, tem que ter um espaço para a acomodação dessas mudanças”, comenta. Tieppo pondera, porém, que o cenário de pandemia impactou as pessoas de forma diferente, e é importante se atentar a isso.

“As coisas mudam de uma hora para outra, com mudanças muitas vezes radicais, com perdas importantes, não podemos dizer para pessoas que passaram por isso ‘pense positivo que vai dar tudo certo’. É necessário ter um espaço para reconhecer e acomodar essas perdas, que estamos vivendo um momento muito especial”. 

Para ela, diante de um cenário como o de 2020, o simples ato de ter paciência “também é otimismo”. Outro ponto que ela considera importante para quem busca ter pensamentos mais positivos no próximo ano é repensar as coisas, e pessoas, que estão ao seu redor.

“As pessoas com quem você anda são cruciais, se conectar com pessoas nas redes sociais que pensam de forma mais ampla, evitar ficar o tempo inteiro vendo noticiário, youtubers falando sobre, não porque não seja importante, mas se eu já estou mexido é melhor ficar desconectado um pouco. Se conectar com pessoas que estão fazendo coisas pra mudar o mundo, a vida delas”, sugere ela.

Ela destaca que, no geral, são as informações negativas que mais chamam atenção, e geram conexão com temas difíceis de lidar e mais pesados. Somado a esse cenário de instabilidade, acaba-se criando um ambiente mais propício para um pensamento mais pessimista.

Além disso, é importante ficar atento para possíveis quadros de doenças psicológicas em meio a todo esse cenário, como crises de ansiedade ou depressão, e procurar o diagnóstico e tratamento apropriados com profissionais. “O pessimismo pode ser confundido com ansiedade, depressão, e não pode diminuir isso, pois é estar negligenciando uma necessidade médica de alguém”, observa.

Dunker reforça a importância da meditação, além da tentativa de se aproximar do “incógnito e do desconhecido”, seja por meio da literatura ou por meio de contato com outras pessoas. “Conviva um pouco com crianças para ver se o seu otimismo não aumenta de temperatura”, finaliza o psicólogo.

Práticas para melhorar o bem-estar

A instrutora de ioga Evelyn Penna considera que existem práticas simples, e diárias, que podem ajudar as pessoas a começar o ano de 2021 com mais equilíbrio e investindo em um bem-estar maior. 

Uma delas envolve o controle da respiração: “Comece puxando o ar por três segundos e solte o ar por seis segundos. Evolua a inspiração por cinco segundos e expire por dez segundos. Se ainda estiver fácil, aumente o nível aos poucos, inspirando seis segundos e expirando doze e assim por diante. Use esse método ao entrar e descer do carro.  A dica também vale para outras situações que possam provocar ansiedade, como antes de uma reunião, por exemplo.”

A instrutora também recomenda que as pessoas se atenham a uma limpeza, tanto do ambiente interno quanto externo, ou seja, manter a casa limpa, mas também a mente e o corpo. Beber mais água, por exemplo, já é uma ação benéfica para isso.

“Quais canais você assiste? O que você está ouvindo? Você está se nutrindo? Isso está me tirando energia ou me dá energia? Sempre é importante fazer esse questionamento para escolhas mais benéficas para a saúde mental e física”, explica. 

Além disso, é importante tentar aprender coisas novas ao longo do ano, mantendo o cérebro e o corpo ativos. “2020 trouxe uma lição muito importante, de nos conectarmos mais com as pessoas que amamos, com a família. Não espere ficar doente para entender o quanto a saúde oferece infinitas possibilidades de fazer coisas novas todos os dias”, defende ela.


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