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Sexta-Feira 05.mar.2021

Ano IX - Nº 432

Coluna

Este estranho e irreconhecível mundo que nos cerca

Neste início de ano estou com a sensação de ter sido abduzida. Talvez na noite da virada de 2021

Postado em 14 de Janeiro de 2021 - Theresa Hilcar

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Neste início de ano estou com a sensação de ter sido abduzida. Talvez na noite da virada de 2021, quando eu dormia sossegadamente na minha cama, algum evento tenha me levado para outro mundo.

Este sentimento de não pertencer mais a determinado lugar vem me perseguindo há algum tempo. Ele só ficou maior, mais robusto, mais presente. Está tão visível que quase posso tocá-lo.

A bem da verdade, não sei se fui eu quem sai ou se forma os outros. Talvez estejamos vivendo em universos paralelos, vai saber. Pode ser que eu não passe de um avatar deixado numa terra estranha.

Através da tela do computador, celular e TV, o mundo que vejo lá fora me parece hostil. Às vezes bizarro. Não reconheço sequer as pessoas que o habitam ou frequentam. Alguns se assemelham a zumbis, outros a bestas feras. Sou capaz de jurar que muitos parecem ter sido lobotomizados.

Talvez o ex-chefe do Departamento de Astronomia da Universidade de Harvard, EUA, Abraham Loeb, tenha razão ao dizer que espaçonave alienígena se aproximou de nosso planeta setembro de 2017. Talvez eles estejam por aqui ocupando outros corpos como na série de ficção da Netflix “Travelers”. Vai saber?

Seja o que for uma coisa é certa: está tudo muito estranho ultimamente. Quando vejo pessoas curtindo férias nas praias, postando fotos de tudo e de todos, participando de festas e convescotes, imagino que um de nós vive em outro planeta. E nem vou falar aqui das aglomerações porque, estas, sinceramente, estão além da minha imaginação.

Muitas vezes me questiono se apenas eu (e meia dúzia de amigas) tenho medo, preocupação, receio com a Pandemia que aí está. Só eu passei os festejos de final de ano tendo a mim mesma como companhia? Só eu continuo trabalhando em home office? Só eu deixei de ir à missa dos domingos? Só eu não vou ao supermercado desde março do ano passado? Somente eu que sinto a ausência dos netos?

Li em algum lugar esta semana que tudo aquilo que o homem ignora não existe para ele. Por isto o universo de cada um se resume ao tamanho do seu saber. Mas num mundo tão conectado apelar para a simples ignorância é um tanto reducionista, a meu ver.

Felizmente o espaço em que vivo continua igual. E eu gosto disto. Gosto do fato de ele continuar sendo aconchegante, mesmo não tendo ninguém para dividi-lo. Considero seguro o lugar em que vivo. Aliás, é o lugar mais seguro do mundo atualmente.

Quem diria que meros 120 metros quadrados (talvez um pouco menos, não sei precisar) de concreto, cravado no sétimo andar de um edifício antigo, se tornariam meu porto seguro? Bem diferente, claro, daquele pedaço de mar que foi invadido recentemente por bárbaros sedentos.

No meu pequeno grupo familiar, há quem reclame do excesso de informações que publico. Vício de jornalista, talvez. É como se fosse minha obrigação compartilhar artigos, opiniões abalizadas, tudo que pode passar desapercebido aos olhos dos que ainda são jovens.

Mas prometi a mim mesma que vou me controlar mais este ano. Para isto, para não sucumbir ao desejo de escrever o tempo todo sobre a situação e implorar que se protejam, comecei a fazer duas meditações diárias. Elas minimizam a ansiedade e nos dão mais foco. Cada vez me convenço que a Meditação é o antídoto. 

É através deste breve intervalo de tempo em que paramos para olhar nossa respiração, o ar que entra e sai de nós, é que podemos perceber o mundo interior. Que vai muito além das aparências, das ilusões, do caos e da dor. Ir para dentro é simples e poderoso. Para isto é necessário disciplina e a dedicação. 

A recompensa, no entanto, vale o esforço. São nestes preciosos minutos que passo “olhando” para dentro que o falso mundo desaparece. E desaparece também o julgamento, o controle inútil, a raiva, a indignação e todos as emoções que nos tiram do eixo. Um eixo chamado consciência e que, como sabemos, anda muito em falta ultimamente. Recomendo.

Publicado originalmente no jornal Correio do Estado


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