Semana On

Sábado 27.fev.2021

Ano IX - Nº 432

Viver bem

Criando resistência mental como um atleta profissional

Atletas que resistem aos testes mais extenuantes têm muito a dizer sobre como seguir adiante em meio à pandemia

Postado em 12 de Janeiro de 2021 - Talya Minsberg - The New York Times

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Há um tipo especial de exaustão que os melhores atletas do mundo procuram. Alguns chamam de masoquista, outros consideram arrojado. Quando as pernas e o pulmão são levados ao seu limite, os músculos respondem de uma maneira que vai além do limite da dor.

Esses atletas encaram a fadiga não com temor, mas como um desafio, uma oportunidade. É uma qualidade que permite a um ultramaratonista resistir num segmento mais acidentado de uma corrida de mais de 100 quilômetros, ou um velejador avançar quando está no meio do oceano sozinho enfrentando furacões.

O ímpeto para perseverar é algo com que algumas pessoas nascem, mas é também o músculo que qualquer pessoa pode aprender a flexionar. Num certo aspecto, todos nós somos uma espécie de atleta de resistência durante esta pandemia, numa corrida sem linha de chegada. Alguns dos melhores atletas da modalidade no mundo disseram o que fazem quando acham que chegaram ao limite das suas forças.

E como eles não apenas resistem, mas avançam e superam os desafios diários? Uma mensagem que todos enviaram é esta: você é mais forte do que imagina e todo mundo é capaz de se adaptar de maneiras que não achava possível. Mas existem algumas técnicas que ajudam.

Mantenha seu ritmo

Treinar para se tornar um atleta de resistência significa aprender a aceitar o desconforto. Em vez de se esconder da dor, os atletas aprendem a trabalhar com ela. E grande parte disto se resume no ritmo, diz a psicóloga esportiva Carla Meijen. Similarmente, à medida que busca forças para enfrentar uma pandemia você também tem de encontrar maneiras de aceitar a nova realidade, desconhecida e desconfortável.

“Quando pensamos no coronavírus, que vamos conviver com ele por um longo tempo, como manter nosso ritmo?", indaga Meijin, que dá aulas na St. Mary’s University em Londres. A recomendação dela é refletir sobre nossas rotinas, praticar pensamentos positivos e focar no processo, não no resultado. Você não sabe quando a pandemia vai acabar, mas pode ter controle sobre seus hábitos diários, disse ela.

Conrad Anker sabe disso. O famoso montanhista de 57 anos de idade, já escalou o paredão que leva ao Meru Peak Shark na Índia, chegou ao pico do Monte Everest três vezes – uma vez sem oxigênio suplementar – e sobreviveu a um ataque cardíaco quando escalava o Himalaia. O conselho dele para as pessoas é “ter sempre um pouco de reserva”. Se esgotar seus recursos muito cedo, vai ter problemas.

Focar nas atividades cotidianas vai compensar no longo prazo. Se usar toda a sua energia mental em um dia ou semana terá mais dificuldade para se adaptar quando as coisas não retornarem à normalidade tão rápido como espera. Existe um ritmo na vida do dia a dia, como na escalada. “Quando você chega ao pico e esgotou toda a energia e calorias para chegar lá e fica sem força para descer, então está se predispondo a um acidente ou para alguma coisa dar errado”, disse Anker. “Não esgote todos os recursos de uma vez, mantenha alguma coisa de reserva”.

Estabelecer miniobjetivos

Psicólogos esportivos com frequência recomendam pequenas etapas no caminho na direção de um grande objetivo. O ultramaratonista profissional Coree Woltering é um especialista no estabelecimento de miniobjetivos. O corredor já chegou ao pódio em maratonas de longa distância. Seu objetivo foi quebrar o recorde na Ice Age Trail, uma rota de cerca de 1.800 quilômetros através da região de Wisconsin.

Ele correu mais de 80 quilômetros por dia, durante três semanas, para concluir a façanha. “Sou realmente bom em dividir as etapas em até 10 segundos cada vez. Você tem de estar presente no que está fazendo e tem de saber que pode não ser muito divertido, nem demasiado doloroso agora, mas isso pode mudar em 10 segundos no trajeto.

Criar estrutura

Dee Caffari, navegadora britânica e a primeira mulher a velejar sozinha, sem pausas, pelo globo em ambas as direções, disse que manter uma estrutura é imprescindível para combater a solidão e a monotonia. No mar, ela baseia sua estrutura em torno de um informe do tempo duas vezes por dia e todas as decisões que toma são com base nesses dados. E ela vem seguindo o mesmo método durante a pandemia, em casa, na costa sul da Inglaterra, substituindo as previsões climáticas por atividades ao ar livre. “No seu dia a dia, você tem de ter estrutura. Precisa levantar de manhã sabendo que vai ter de fazer algo acontecer”.

Focar em algo novo

Quando tudo o mais dá errado, procure algo novo, um novo hobby, objetivo ou experiência. “Todos nós desejamos a resistência mental, ela é algo importante para lidar com coisas difíceis”, disse Michael Gervais, psicólogo especializado em alta performance e que apresenta o podcast Finding Mastery.

“A definição hoje de resistência mental é a capacidade de mudar de direção, ser ágil e flexível”. Neste momento, Dee Caffari passa muito tempo no seu jardim, algo que ela não tinha muito tempo para fazer antes pois velejava a maior parte do ano. “Os vizinhos estão muito contentes com isto”, disse ela. Anker colocou sua energia extra na caligrafia. “Ontem transcrevi citações de John Lewis e acho isto gratificante”, afirmou.

Quando suas trilhas favoritas foram fechadas por causa dos lockdowns, Woltering decidiu correr por todas as ruas da sua cidade, Ottawa, Illinois. O percurso total foi de cerca de 320 quilômetros. “O momento seguinte sempre é totalmente incerto e é sempre assim”, disse Gervais. Mas se você se adapta, ajusta suas expectativas e descobre novos objetivos ou hobbies, isto permite criar uma resistência mental”. Resultado? “O otimismo é o antídoto para a ansiedade”, disse ele.

Tradução - Terezinha Martino


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