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Sexta-Feira 05.mar.2021

Ano IX - Nº 432

Poder

Derrota no Senado expõe pressão por saída de Araújo

Política externa desastrada ameaça interesses do país e afasta parceiros internacionais

Postado em 18 de Dezembro de 2020 - Felipe Frazão, Jussara Soares e William Waack (O Estado de S.Paulo), Camila Zarur (O Globo) – Edição Semana On

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A pressão para que o presidente Jair Bolsonaro substitua o ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, e adote uma política externa menos ideológica aumentou nesta semana, quando o Senado rejeitou a indicação do embaixador Fabio Mendes Marzano para o cargo de delegado permanente do Brasil nas Nações Unidas em Genebra, na Suíça. Com o revés, senadores se juntam a integrantes da ala militar e representantes do agronegócio, que apontam o estilo ideológico do chanceler como um entrave para o avanço em acordos internacionais, além de uma ameaça ao comércio exterior.

O placar que derrubou o embaixador (37 votos contra e 9 a favor) surpreendeu o Itamaraty e integrantes do governo. No total, 47 senadores participaram da votação, mas um se absteve. No plenário, Marzano recebeu menos votos do que os 13 conquistados após sabatina na Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional.

A mudança ocorreu após o senador Major Olímpio (PSL-SP) conclamar seus colegas a mandar o chanceler “para o inferno”. “Peço aos senadores, em nome da altivez do Senado, que não votem nessa indicação. Se o Senado votar com esse cara – é cara –, estamos negando nossa própria existência, o respeito a cada um de nós. Vamos votar contra, o Senado todo. Que se faça outra indicação no começo do ano. “'Ah, mas eu sou do time do chanceler’. Para o inferno o chanceler!”, bradou Olímpio.

Na véspera, Marzano havia se recusado a responder a uma pergunta da senadora Kátia Abreu (Progressistas-TO), durante sua sabatina, passo prévio para a votação em plenário. Ex-ministra da Agricultura, Kátia queria ouvir as impressões do embaixador sobre a tese corrente entre diplomatas e ruralistas de que o desmatamento na Amazônia é usado como pretexto pelo agronegócio estrangeiro para barrar o Acordo Mercosul-União Europeia.

Marzano alegou que o tema não era de sua alçada. Kátia protestou. A senadora, que também presidiu a Confederação Nacional da Agricultura (CNA), disse que o Itamaraty virou uma “casa de terrores”, onde os diplomatas não podem mais opinar. Os demais senadores tomaram a negativa como sinal de desprezo aos congressistas.

Em conversas reservadas, auxiliares do presidente Jair Bolsonaro debitaram a derrota na conta do ministro da Secretaria de Governo, Luiz Eduardo Ramos, que comanda a articulação política do Planalto com o Congresso e teria feito corpo mole. O vice-presidente Hamilton Mourão, o ministro da Casa Civil, Walter Braga Neto, e o secretário de Assuntos Estratégicos, Flávio Rocha, também seriam responsáveis pela fritura de Araújo. Todos são militares.

Diplomatas avaliaram que a expressiva votação contra Marzano, secretário de Assuntos de Soberania Nacional e Cidadania, não foi só uma retaliação deliberada a Araújo como um recado a Bolsonaro de que o chanceler precisa ser substituído.

Atualmente, dois grupos fazem lobby pela demissão de Araújo: o agronegócio e os militares. Ambos, por sinal, pilares da eleição de Bolsonaro. A seu favor, o chanceler conta o apoio da ala ideológica do governo, da militância virtual e do deputado Eduardo, filho ‘03’ do presidente.

Na avaliação de diplomatas, Marzano chegou ao Senado “marcado”. O posto de delegado permanente em Genebra trata de temas sensíveis na agenda bolsonarista, como direitos humanos, direitos da mulher e indígenas, entre outros. É uma pauta que perdeu prestígio e se alinhou a países não democráticos.

“O recado foi dado ao Bolsonaro de que eles (senadores) não estão gostando e querem colocar o Ernesto contra a parede. Há uma conjuntura favorável para acertarem o Ernesto, como os telegramas do Nestor sobre a eleição americana. Estão insatisfeitos com as topadas na China. Foi mais um prego naquilo que querem que se torne o caixão do Ernesto”, disse a embaixadora Maria Celina de Azevedo Rodrigues, presidente da Associação dos Diplomatas Brasileiros.

Presidente da Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional do Senado, o senador Nelsinho Trad (PSD/MS), atribuiu o resultado da votação a um erro coletivo. “Um avião não cai sozinho por um razão só. Nessa situação houve vários erros cometidos tanto pelo presidente da comissão, tanto por quem fez a pergunta, tanto por quem respondeu”, disse Trad. “Agora é página virada. É aguardar e mandar outra indicação em outro momento”, completou.

Mais desgaste

Além de ter seu indicado barrado, Araújo viu outro aliado sob desgaste: o embaixador em Washington, Nestor Forster. Forster municiou Bolsonaro com análises e notícias falsas que questionavam a lisura da eleição nos EUA, vencida por Joe Biden. Telegramas obtidos pelo jornal por meio da Lei de Acesso à Informação (LAI) mostram a atuação de Foster na missão de orientar o governo, demonstrando sintonia com o discurso de fraude entoado pelo presidente americano, Donald Trump.

Ernesto Araújo disse na quinta-feira (17) que “ainda não é o momento” para o governo brasileiro se aproximar da equipe do futuro presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, e que seria "precário" fazê-lo durante o período de transição. O presidente Jair Bolsonaro foi o último líder mundial de destaque a reconhecer a vitória democrata, fazendo-o apenas na última terça, dia 15 de dezembro, quase seis semanas após a imprensa americana projetar Biden como vencedor da eleição presidencial, em 7 de novembro.

“[Biden] ainda não tomou posse. Então, qualquer contato com uma equipe de transição sempre é mais ou menos precário. O que conta mesmo é a partir da tomada de posse”, disse Araújo, em uma entrevista ao SBT News, afirmando que o governo estará pronto para aproximação com o democrata quando ele assumir a Presidência.

Biden, enquanto isso, ignorou Brasil, Colômbia e México — cujo presidente, Andrés Manuel López Obrador, cumprimentou-o no mesmo dia que Bolsonaro — em seus primeiros contatos, indo na contramão de seu antecessor. Semanas antes de o presidente brasileiro parabenizá-lo pela vitória, o democrata deu seus primeiros telefonemas para presidentes latino-americanos. Os escolhidos foram o peronista Alberto Fernández, da Argentina; o conservador Sebastián Piñera, do Chile; e o costa-riquenho Carlos Alvarado Quesada, um presidente de centro-esquerda de apenas 38 anos.

“Vamos continuar conversando com o presidente se tivermos a oportunidade de mais algum contato até lá. Mas ainda não é realmente o momento de construção dessa linha da nova parceria, que a gente espera seja uma continuação muito boa da parceria que nós temos desenvolvido”, afirmou o chanceler na entrevista.

O brasileiro foi o penúltimo líder mundial a reconhecer a vitória de Biden, atrás apenas do norte-coreano Kim Jong-un. Perguntando se a demora criaria alguma animosidade com o futuro governo democrata, Araújo negou que isso possa acontecer e afirmou que a espera é “plenamente normal”:

“É plenamente normal, porque os resultados que foram anunciados em novembros foram anunciados basicamente pela imprensa, com todo respeito à imprensa. Mas eles se tornaram oficiais com a votação no Colégio Eleitoral”, afirmou.

Bolsonaro só reconheceu a vitória de Biden após o Colégio Eleitoral confirmá-la, no último dia 14. A etapa, que habitualmente é vista como uma formalidade, ganhou os holofotes diante das alegações falsas de fraude promovidas por Trump e de sua tentativa de reverter o resultado da eleição — narrativa que foi endossada pelo presidente brasileiro.

Das mais de 50 ações impetradas por Trump e seus aliados, nenhuma foi bem-sucedida em reverter ou anular votos. As derrotas se acumularam em nível estadual e federal, chegando até a Suprema Corte. Autoridades estaduais, democratas e republicanas, e observadores internacionais não constataram qualquer irregularidade no processo eleitoral americano que pudesse ter alterado o resultado.

Sobre essas alegações, Araújo disse apenas que o governo acompanhou as notícias que questionavam a legitimidade da votação, “dando conta de fraudes sérias”. No entanto, reconheceu que a Justiça americana concluiu o oposto ao rejeitar as ações de Trump e seus aliados.

Análise

O Brasil não é participante relevante de nenhum agudo conflito internacional, seja ele de fronteiras, geopolítico, étnico, religioso ou comercial (estamos ensaiando um na questão ambiental). Por um lado, não deixa de ser uma bênção: nenhuma família brasileira vai dormir preocupada se um integrante seu estará na linha de fogo de algum confronto internacional – a não ser que se considerem como “internacional” as balas perdidas em comunidades controladas pelo narcotráfico e milícias.

Por outro, é uma espécie de “maldição”. A nossa distância dos grandes conflitos ajuda a entender o estado de “anestesia” pelo qual a sociedade brasileira contempla confrontos internacionais. É uma espécie de mentalidade de “isolamento esplêndido”, dado nosso tamanho e posição geográfica, que nos tira o senso de urgência ou de “ameaça” de problemas vindos de fora. Política externa é um assunto para especialistas, e de escasso apelo ao grande público e só em circunstâncias excepcionais – não é parte relevante de campanhas eleitorais.

Foi preciso que no caso da vitória de Joe Biden a política externa brasileira, entregue por Jair Bolsonaro a uma desastrosa mescla de diletantes amadores e profissionais ideologizados, produzisse uma incomparável vergonha internacional para que o Senado humilhasse o Itamaraty e declarasse que o rei está nu. E que assim pelado fosse “para o inferno”, conforme as palavras do senador Major Olímpio dirigidas ao chanceler Ernesto Araujo.

A mistura de soberba com ignorância dos que formularam as posturas externas no governo Bolsonaro não permitiria mesmo prever nada diferente dos atuais resultados, mas o problema é mais grave. Integram os círculos palacianos militares com passagens por excelentes instituições de ensino (como as academias e escolas de Estado Maior), com formação profissional em relações internacionais, segurança e estratégia, e com experiência pessoal direta em confrontos lá fora, inclusive militares (como as missões de paz em vários países).

Sabe-se por relatos e conversas pessoais que esses profissionais desprezam o amadorismo e a estupidez dos conselhos dados ao presidente pelas figuras nas quais confia em matéria de assuntos internacionais, à testa delas um de seus filhos. Lamentam abertamente os disparates do ministro das Relações Exteriores, tido nesses círculos como figura patética, e o fato de que energias políticas preciosas são gastas apenas para minimizar danos (como no caso da política comercial com a China).

Nesse caso os militares são vítimas da própria formação e do respeito à hierarquia. Não há nada mais difícil para um fardado do que rebelar-se contra um chefe, mesmo achando que está produzindo besteiras (como é o caso atual). Ocorre que é tênue e, para quem está envolvido nas decisões, difícil de ser identificada a linha que separa “lealdade” e “cumprimento da missão” da cumplicidade com a irresponsabilidade com que são tratados os interesses da Nação.

Os danos causados ao País pela política externa de Bolsonaro são graves em várias áreas e as consequências de isolamento, de ser “pária” internacional (do qual, espantosamente, se orgulha o chefe do Itamaraty) estão apenas no início – e isto não se refere apenas à derrota de Trump. Se é que admitem que a reputação das instituições às quais pertencem também estão sendo arranhadas, esses oficiais ou ex-oficiais nos círculos de decisões relevantes preferem permanecer quietos.

Mais um caso na longa galeria de militares profissionais que, ao se calarem, consentem.


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