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Sábado 23.jan.2021

Ano IX - Nº 427

Coluna

O cinema nas encruzilhadas do blues

De trilhas sonoras a roteiros sobre a própria magia da música, o blues e o cinema formam afinada parceria

Postado em 16 de Dezembro de 2020 - Clayton Sales

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A cor de caramelo é absorvida por uma textura que exala submundo. No cenário, músicos e seus instrumentos prontos para ensaios de volúpia. À frente, a presença majestosa, imperativa, de pele escura coberta de brilhos dourados. A mulher negra com olhos que carregam a aspereza da vida na Chicago dos anos 1920 liberta sua voz estrondosa. Era Gertrude Ma' Rainey, a "mãe do blues", interpretada pela sempre genial Viola Davis. Seus gestos diante do microfone são manifestos corporais do tipo de verdade que apenas o blues é capaz de desamarrar. Seu canto atravessa as camadas da pele, injeta alma na carne, estremece os ossos e se aloja no interior do espírito. Uma tempestade de sensações arrebata em uma das várias cenas com a mesma fervura em "A Voz Suprema do Blues" (2020) de George C. Wolfe, baseado na peça teatral homônima de August Wilson. A trama da produção da Netflix é centrada no set de gravação, transformado no microcosmo das tensões da sociedade americana da época. Nada como o blues, gênero que experimentava um processo de urbanização, para temperar esse mundo. O blues é guia para essa crônica cinematográfica sobre racismo, ambições, sonhos e frustrações. 

Embora suas bases tenham surgido no século 19, nos derradeiros suspiros da escravatura estadunidense, o blues adquiriu a forma definitiva no começo do século 20, primeiro nas fazendas arrendadas por endividados descendentes de pretos libertos sem qualquer perspectiva. Livres dos feitores, presos nas correntes da segregação e desigualdade social. O blues então se tornou uma das muitas formas das pessoas de cor expressarem seus lamentos pela vida difícil. Aos poucos, o blues consolidou sua estrutura harmônica e canções eram concebidas sob esse molde. Com a música se popularizando, as dores, prazeres e mazelas de negros e negras se tornavam conhecidos, embora isso não tenha atenuado a discriminação racial, até os anos 1960, institucionalizada em leis e práticas cotidianas. Porém, a partir dessa década, começava a chamar a atenção do cinema, que descobria histórias por trás das músicas e um rico material a ser explorado. Um exemplo é "O Ocaso de uma Estrela" (1972), baseado em "Lady Sings The Blues", autobiografia da cantora Billie Holiday, interpretada no longa-metragem por Diana Ross. A saga da eterna e sofrida Lady Day era digna de filme. Seu blues, na voz e na vida, era argumento e trilha sonora. 

Através das jornadas de nomes importantes, a sétima arte encontrava uma constelação de sentimentos, realidades e lendas. As origens do blues possuem zonas obscuras, apesar de abundantes estudos históricos, principalmente nos EUA. Em áreas de sombra, há sempre espaço para ocupações mitológicas. Uma delas relaciona o talento dos tocadores de blues aos pactos sobrenaturais com forças das trevas. Sobre essa fascinante premissa, o filme "A Encruzilhada" (1986) de Walter Hill conta a história de Eugene, jovem branco estudante de violão clássico que deseja tocar blues. Para isso, ele liberta do asilo o velho gaitista negro Willie Brown e o ajuda a desfazer o acordo com o capeta celebrado na juventude. Na viagem rumo ao epicentro blueseiro no Mississipi e ao cruzamento onde, à meia-noite, o trato foi sacramentado, os dois passeiam por amores fugazes, problemas com a polícia e racismo. É uma produção icônica dos anos 1980, em parte pela presença de Ralph Macchio no elenco, dois anos depois do sucesso de "Karatê Kid". O blues conquistava corações nessa divertida época. 

Diversão jorra aos montes em outra obra cultuada da mesma década. Sob a direção de John Landis, o filme "Blues Brothers" (1980) apresenta Jake e Elwood Blues, irmãos vigaristas que tentam montar uma banda de blues e soul para arrecadar dinheiro ao orfanato onde foram criados. Nesse trajeto, eles se envolvem em encrencas hilárias e cruzam com figuras do quilate de John Lee Hooker, Ray Charles, Cab Calloway, Matt Guitar Murphy e Aretha Franklin. No fim das contas, os irmãos Blues alcançam seu objetivo, por caminhos tortuosos, mas com som de primeira. O diretor John Landis também realizou a sequência "Blues Brothers 2000" (1998), protagonizada por Elwood Blues tentando reorganizar o grupo para a mesma finalidade de angariar recursos financeiros para a instituição de acolhimento às crianças órfãs. Mais confusão, mais risadas, mais música e mais encontros, desta vez com B.B.King, John Popper, Wilson Pickett e Jonny Lang, entre outros. O blues também se casava com comédia, ação e aventura.

A partir dos anos 1930, o blues experimentou um crescimento exponencial e as gravadoras foram decisivas a esse impulso. Uma delas foi a Chess Records, fundada pelo imigrante bielorusso Lejzor Czyz. Quando chegou aos EUA nos anos 1920, mudou seu nome para Leonard Chess, cujo sobrenome utilizou para batizar seu empreendimento. Antenado e visionário, ele se interessou pelo potencial da música negra dos arredores marginais de Chicago e arrebanhou artistas amadores que tocavam nas ruas da cidade em troca de moedas. Dois deles foram os talentosíssimos Muddy Waters e Little Walter, que rapidamente se tornaram estrelas do elenco da Chess. Com o prestígio crescente, outros nomes chegaram à gravadora como Howlin' Wolf, Etta James e um guitarrista atrevido e brincalhão chamado Chuck Berry. Essa saga é contada no filme "Cadillac Records" (2008) de Darnell Martin. No elenco, estão Adrien Brody, Jeffrey Wright, Mos Def, Columbus Short e a cantora Beyoncé. O blues vivenciava sua fase de mercantilização.

É verdade que o blues gerou filhos. Um deles se chama rock'n'roll, como cantava Muddy Waters em famosa composição. Essa transição, porém, não foi tranquila. Às vezes a novidade gera desconfiança e receio em grande parte das pessoas que a testemunham. Para músicos negros de blues já inseridos na feroz e instável cadeia produtiva da música americana, o avanço arrasador do novo gênero representou a diminuição de espaços para tocar e sobreviver. Esse fenômeno não se restringiu às grandes cidades americanas dos anos 1950 e nem aos artistas. Em remotas localidades, pequenos botecos que ferviam ao som do blues, passaram a amargar uma dolorosa decadência. Nessa linha oscilante entre o fracasso e a redenção nascida da ousadia em se adaptar, é desenvolvida a narrativa de "Honeydripper - Do Blues ao Rock" (2007) de John Sayles, estrelado por Danny Glover e Lisa Gay Hamilton, com os músicos Gary Clark Jr. e Keb'Mo em papéis cruciais. O blues gerava sua prole mais célebre em parto trabalhoso. 

Blues é uma sinfonia de derrotas. Como pororoca vigorosa capaz de fundir águas, essa música provoca a união dos desgraçados. Na junção das lamúrias, pode estar o caminho solidário para o recomeço. Na América atemporal, o muro que separa os territórios branco e negro ainda está erguido na alma. Havia o mundo de Lazarus, negro ancião abandonado pela esposa e vivendo solitariamente. Havia o mundo de Rae, garota loura entregue à ninfomania após o noivo ser convocado para o serviço militar. Um infortúnio coloca seus destinos na mesma órbita. Nasce uma inimaginável amizade, catalisada pela guitarra de Lazarus, que desaloja o instrumento do estojo depois de longo tempo e faz do blues um exorcismo curativo para as dores de ambos. Essa é a história de "Entre o Céu e o Inferno" (2006) de Craig Brewer, com Samuel L. Jackson e Christina Ricci. O blues também é uma sinfonia dos renascimentos. 

De trilhas sonoras frequentemente usadas para cenas de ação, sensuais ou momentos dramáticos, a roteiros sobre a própria magia da música, o blues e o cinema formam afinada parceria. Como a experiência humana é uma galáxia de sentimentos, o blues se transformou em um modo de comunicar as angústias mais ocultas. Porém, é fundamental lembrar que, se o blues serve para qualquer pessoa desopilar suas mágoas, antes, foi o amargo lamento e expurgante alívio de negros e negras estadunidenses no enfrentamento, em seu cotidiano e seu íntimo, dos efeitos daquela sociedade racista. No geral, o cinema parece ter capturado essa ideia. Traduzir para a linguagem de luzes e movimentos algo tão misterioso e profundo como o blues exige respeito e empatia. Quando compreende as nuances sociais e emotivas da frase "o blues é a dor criada para curar a dor", o cinema colabora para que a música continue acesa. E sua voz suprema siga ecoando roucamente pela eternidade.  


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