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Segunda-Feira 12.abr.2021

Ano IX - Nº 438

Entrevista

Bolsonaro ficará 'isolado em autoritarismo' sem 'companheiro Trump', diz ex-chanceler do México

O ex-ministro das Relações Exteriores do México, Jorge Castañeda, acredita que o Brasil ficará muito isolado, em termos de mudança climática, na era do presidente eleito dos Estados Unidos, Joe Biden

Postado em 07 de Dezembro de 2020 - Marcia Carmo - BBC News Brasil

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O ex-ministro das Relações Exteriores do México (2000-2003), Jorge Castañeda, acredita que o Brasil ficará muito isolado, em termos de mudança climática, na era do presidente eleito dos Estados Unidos, Joe Biden.

Segundo ele, o isolamento brasileiro envolve ainda a "falta de responsabilidade" durante a pandemia do novo coronavírus e atitudes em relação aos direitos individuais. "Muito isolado em seu autoritarismo, em sua postura contraria a tudo sobre os direitos de gênero, de outras minorias, de LGBT e etc. O Brasil está indo, claramente, contra a corrente. Bolsonaro achava que com sua aliança com Trump tinha um companheiro. Tinha. Já não tem mais", disse.

Professor da Universidade de Nova York, autor de uma biografia sobre o ex-guerrilheiro argentino-cubano Ernesto 'Che' Guevara, Castañeda disse ainda que as esquerdas na América Latina têm o desafio de se modernizar e que para Biden "não será fácil" tentar retomar iniciativas do governo do ex-presidente Barak Obama.

Nesta entrevista, ele falou ainda sobre as semelhanças entre Bolsonaro e o presidente do México, Andrés Manuel López Obrador (AMLO), que, apesar de opostos ideologicamente, são, na sua visão, muito parecidos. "Os dois odeiam os meios de comunicação, os dois são populistas, são autoritários e nepotistas", disse. E ligados a Trump, acrescentou.

 

Qual a sua expectativa para a relação entre o governo Biden e a América Latina, depois que ele anunciou nomes da época do ex-presidente Obama para a área de política externa (Antony Blinken, secretário de Estado) e um latino (Alejandro Mayorkas, nascido em Cuba) para a área de política migratória?

Jorge Castañeda - Antes de mais nada, são pessoas competentes e com experiência. Mas, ao mesmo tempo, são pessoas que não têm grande vocação latino-americana. Não é que não saibam, e não conheçam (a região). Mas não tem ninguém com grande envolvimento com a América Latina. Mas acho que o importante não é quem são eles, mas sim o que Biden disse sobre os diferentes assuntos vinculados com a América Latina.

Ele já falou sobre os temas migratórios, que são muito importantes para o México, para a América Central, para o Caribe e para o Equador, pelo menos. Ele já disse que mudará as políticas de restrição, racista e punitiva, de Trump. Biden também já disse que buscará caminhos alternativos, no caso da Venezuela, mas sem definir, porém, quais serão estes caminhos alternativos. E também disse que enfatizará o assunto de mudança climática. E aí sim acho que haverá certas tensões com o Brasil.

Quando ainda era candidato, em um dos debates com o presidente Trump, Biden sugeriu que o Brasil poderia receber sanções econômicas diante do desmatamento na Amazônia brasileira. Como ex-chanceler e por sua experiência, o senhor acha que essa 'tensão' seria específica sobre a Amazônia? Ou algo mais amplo?

Acho que pode ser algo pontual. Mas é também importante ressaltar que para Biden o assunto mudança do clima é uma prioridade interna e externa. A nomeação de (John) Kerry, neste sentido, é muito marcante. O retorno ao Acordo de Paris, que ocorrerá nos primeiros dias do governo, também é muito marcante. Portanto, onde existam políticas claramente diferentes das que Biden colocará em prática nos âmbitos interno e externo, haverá tensões. Neste caso, tanto com Brasil como com México.

O governo mexicano colocou muito foco em fontes de energia não renováveis, no petróleo e no carvão. E, então, certamente, também haverá tensões com México. Acho que estas tensões com o Brasil poderão ser encapsuladas, restritas ao tema da Amazônia, mas vai depender muito da posição do Brasil. As posições de Biden são muito claras. Não acho que chegarão ao grau de sanções econômicas, mas acho que Biden terá uma postura mais parecida, digamos, a de (Emmanuel) Macron (presidente da França) do que a de Trump.

O que o senhor quer dizer com 'encapsular'? Isolar este tema ambiental?

Sim, que o tema ambiental não contamine os outros assuntos (dos EUA) com Brasil. Mas isso não é simples. É um assunto muito sensível no Brasil, mas também nos EUA.

Os presidentes do Brasil e do México ainda não tinham reconhecido a vitória de Joe Biden. Eles são antíteses em termos ideológicos. Qual a sua opinião sobre esta atitude de Bolsonaro e de López Obrador? Esse fato pode chegar a complicar a relação com o governo Biden?

Em primeiro lugar, os dois podem estar em lados ideológicos opostos, mas se parecem muito. Os dois odeiam os meios de comunicação, os dois são populistas, são autoritários e nepotistas. O fato que os dois, junto com (Vladimir) Putin, não tenham parabenizado Biden reflete que são muito parecidos e que os dois eram partidários e amigos de Trump. Não acho que essa atitude (de não parabenizar Biden) afetará a relação no longo prazo, mas a afetará, no curto prazo, de maneira inevitável. Deixa, digamos, um gosto ruim. Não necessariamente por parte de Biden, mas as equipes (dele) são mais sensíveis, mais pé no chão, e podem sentir esta falta de amabilidade por parte de Bolsonaro e de López Obrador.

O senhor observa o Brasil isolado do mundo na era Bolsonaro?

O Brasil ficará muito isolado, em termos de mudança climática, com Biden. Muito isolado por não ter sido responsável com a pandemia. Muito isolado em seu autoritarismo, em sua postura contraria a tudo sobre os direitos de gênero, de outras minorias, de LGBT e etc. O Brasil está indo claramente contra a corrente. Bolsonaro achava que com sua aliança com Trump tinha um companheiro. Tinha. Já não tem mais.

Pode aparecer outro protagonista na América Latina na era Biden, já que Brasil e México, nas eras de Bolsonaro e Obrador, tinham afinidade com Trump?

Não. Os dois países têm peso muito grande.

O senhor escreveu uma biografia do ex-guerrilheiro argentino-cubano Ernesto Che Guevara (A vida em vermelho) e é estudioso das esquerdas na América Latina. Como o senhor vê as esquerdas na região hoje?

Acho que a situação da esquerda hoje não se restringe ao fato de voltar ou não a governar, mas sim como governar e como governa onde já governa. Em muitos casos, como no México e, de certa forma, também na Argentina, esquemas muito antiquados, de outra época, com nostalgia de outras épocas.

A atualização da esquerda ocorreu sim no Chile (Concertación) e Uruguai (Frente Amplio) e em parte no Brasil, com Lula (ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva), mas não nestes outros casos que mencionei. E ainda na Venezuela, na Nicarágua ou em Cuba. Mas os dois casos mais decepcionantes são México e Argentina. Agora temos que ver se as esquerdas latino-americanas podem aproveitar as crises econômicas provocadas pela pandemia e como também os democratas nos EUA giram à esquerda para entrarem num processo de modernização.

Foram realizadas eleições municipais no Brasil e o Partido dos Trabalhadores (PT), dos ex-presidentes Lula e Dilma, teve um resultado fraco, principalmente em São Paulo, a maior cidade brasileira. O PT ficou em quarto lugar e o destaque, na esquerda, foi o candidato do PSOL para Prefeitura de São Paulo, Guilherme Boulos (que perdeu para Bruno Covas, do PSDB, neste domingo). Na sua visão, o PT continua sendo um partido importante?

Eu acho que sim, mas também acho que desde que Lula saiu do governo, ocorreram condutas muito erráticas. Em muitos casos e de muitos aspectos. De Dilma (Rousseff) e de outros, como governadores. E acho que isso fez com que o PT perdesse muito de seu prestigio e de sua liderança. Os resultados em São Paulo de certa forma confirmam isso. Mas o assunto é se o PT pode se refazer, se reinventar, ou se vai continuar com a nostalgia do passado e que, claramente, não é atraente para muitos brasileiros.

O fato de a esquerda latino-americano tenha sido acusada de corrupção, como nos casos de Rafael Correa, do Equador, Cristina Kirchner, na Argentina, Lula e etc., também pode ter afetado estes resultados?

Em termos gerais, em toda a América Latina, claro que sim. E, inclusive, no caso do Chile que não é um país com grande tradição de corrupção, mas também ocorreram pequenos escândalos de corrupção (durante o governo da ex-presidente Michelle Bachelet). Na Venezuela, são grandes escândalos. E todos conhecemos os efeitos (de casos de corrupção) no Brasil, na Argentina e, inclusive, na Bolívia, com Evo Morales, no Equador, com Correa, e na Nicarágua com Daniel Ortega. E se todos se mantém amarrados ao passado, será difícil que as pessoas voltem a acreditar numa esquerda que, em muitos casos, deixou um legado de corrupção e também de má administração econômica. Acho que estes temas vão surgir constantemente. Por isso, a pandemia é uma oportunidade para que a esquerda dê uma nova formulação de como construir um estado de bem-estar na América Latina. Bem-estar que não existe, como a pandemia mostrou.

Na sua visão, as esquerdas têm algum forma de responsabilidade diante da eleição de Bolsonaro?

Sempre que surge um líder autoritário, de extrema direita, racista, sexista, homofóbico e etc, quase sempre há, em alguma parte, uma responsabilidade da esquerda. No caso específico do Brasil não quero fazer um julgamento rigoroso porque não segui muito os fatos desde que Bolsonaro ganhou. Mas, claramente, quando isto acontece, em qualquer país, quase sempre a esquerda tem uma parte de responsabilidade.

O fato de Biden ter falado primeiro com o presidente do Chile, Sebastián Piñera, que é de direita, significa alguma coisa? Um jogo de cintura política de Biden? Ou o que significa na sua visão?

O lógico teria sido que Biden falasse com México, primeiro, junto com Canadá, e depois com o Brasil. Mas, bem, se o México e o Brasil não querem, e a Argentina é um assunto mais complicado... Por isso acho que ele falou com o presidente do Chile e não (necessariamente) com Sebastián Piñera. Ou seja, se a presidente chilena fosse Michelle Bachelet também teria falado com o presidente do Chile. Acho que para Biden o importante é o que Chile representa para a América Latina e não o governo de Piñera. Mas, sim, os últimos 30 anos e também o desafio de responder a um movimento social através de uma base institucional. Acho que Biden levou estes fatos em consideração.

A América Latina está, digamos, condenada, e ainda mais agora com a pandemia, a não reagir contra seus problemas? É a região mais castigada com a desigualdade social e pobreza. O que acontece?

De fato foi a região mais afetada pela pandemia. Talvez as exceções tenham sido Uruguai e Costa Rica. Os demais a administraram muito mal. O México, o Brasil, mal, muito mal. A Argentina muito mal também, não sei se por sua culpa, mas muito mal também. É muito difícil que as situações não sejam bem administradas e depois esperar que não aconteça nada. Tudo tem consequências.

O ex-presidente Barak Obama teve uma política de aproximação com Cuba. Havia uma preocupação com os imigrantes nos EUA e seus familiares na Ilha. O senhor acha que Biden seguirá esta mesma linha de Obama?

Acho que sim, mas também acho que será um assunto complexo para Biden. No caso de Cuba, da Venezuela, do Irã e dos imigrantes mexicanos, voltar a um estágio, sem levar em conta o período de Trump, vai ser muito difícil. Não vai ser fácil voltar ao acordo com Irã, como estava, suprimir todas as medidas migratórias de Trump para voltar a situação de Obama, suspender todas as sanções para os governantes venezuelanos e deixar de reconhecer a (Juan) Guaidó e etc.

E no caso de Cuba, voltar à normalização de Obama, exatamente como era, será muito difícil. Tudo isso será muito difícil porque vai significar ou significariam decisões unilaterais, controvertidas do ponto de vista de política interna dos EUA e, em alguns casos, com consequências complicadas para os EUA. Então, por exemplo, no caso de Cuba, há muito que pode ser feito, mas é preciso ver se será feito, unilateralmente, incondicionalmente, expondo-se a uma reação muito negativa na Flórida (imigrantes cubanos e com eleitorado de Trump) e afastando-se dos republicanos e dos conservadores ou se vai tentar voltar ao que Obama fez e pedindo aos cubanos alguns gestos novos e importantes que possam ir além do que foi acordado na época de Obama. Não sei. O que sei é que em qualquer uma das alternativas que falei, é difícil. Não é fácil ignorar Trump.

Trump teve uma votação maior do que era esperada. E seria complicado contrariar esse eleitorado? Seria isso?

O eleitorado e, principalmente, alguns senadores importantes, de Estados importantes. Não é tão fácil, simplesmente, voltar (à época de Obama). Biden queria voltar ao acordo conjunto com Irã, como era, mas não acho que poderá. Existe Trump, os republicanos, Israel. São muito fatores.


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