Semana On

Domingo 29.nov.2020

Ano IX - Nº 421

Cultura e Entretenimento

Jornalista de Campo Grande recria a Guerra do Paraguai com miniaturas e maquetes

Entusiasta do Wargame, Victor Barone lançará livro sobre o tema na Inglaterra e pretende levar o projeto a eventos públicos e privados

Postado em 18 de Novembro de 2020 - Redação Semana On

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Centenas de miniaturas de menos de 3 centímetros de altura, todas elas esmeradamente pintadas à mão, se espalham por uma mesa repleta de maquetes representando rios, bosques, estradas, casas. As miniaturas formam batalhões de infantaria, esquadrões de cavalaria e baterias de artilharia dos exércitos brasileiro e paraguaio durante o maior conflito bélico da história da América do Sul, a Guerra do Paraguai, ou Guerra da Tríplice Aliança, ou, ainda, Guerra Guasú (Guerra Grande) -  confronto travado entre o Paraguai e a Tríplice Aliança, composta pelo Brasil, Argentina e Uruguai, que se estendeu de dezembro de 1864 a março de 1870.

Não. Não se trata de uma maquete estática, feita apenas para ser observada de longe, mas o palco de um hobby centenário que surgiu na Europa, conquistou os Estados Unidos e chegou ao Brasil, ainda que aqui ainda seja pouco difundido: o Wargame, jogos de guerra com miniaturas.

O Wargame recria, através de regras, a formação e movimentação das tropas, o alcance de suas armas, a influência do comando dos oficiais e até mesmo como isso tudo afeta o moral dos soldados, permitindo aos jogadores assumir o papel de “generais”, recriando batalhas históricas ou, até mesmo, criando seus próprios cenários.

Em Campo Grande (MS), vive um dos principais exponentes deste hobby no Brasil, o jornalista Victor Barone, que há mais de 30 anos se dedica à atividade. “Quem vê pela primeira vez, imagina que se trata de um brinquedo de criança, mas não. O Wargame é uma ‘brincadeira de adulto’, pois envolve pesquisa histórica, artes plásticas, muita leitura e dedicação”, diz Barone, que terá um sistema de regras de Wargame de sua autoria, o ‘Fronteiras de Sangue’, focado na Guerra do Paraguai, publicado pela editora inglesa Caliver Books no primeiro trimestre de 2021.

Será a primeira vez que um ‘wargamer’ brasileiro publica um trabalho no exterior. “Vai ser algo muito importante para o hobby no Brasil e na América do Sul, e também para valorizar a história do nosso continente”, opina o jornalista, que também mantém a maior comunidade brasileira sobre o hobby no Facebook, o Wargame Brasil.

Segundo Barone, as regras exigiram extensa pesquisa histórica e bibliografia: “Li e continuo lendo boa parte das publicações mais importantes sobre o tema. É fundamental para desenvolver as regras”.

Ele também explica que o projeto não pretende exaltar o militarismo, muito menos a guerra.

“Não é nossa intenção fazer julgamento de valor sobre os motivos e ações de cada nação envolvida no conflito, muito menos glorificar atos de guerra que tanto sofrimento trouxeram a milhares de pessoas. O objetivo deste trabalho é manter viva a arte do Wargame, de forma lúdica e, também, valorizar a história sul-americana para que atos como os que levaram à Guerra do Paraguai nunca mais se repitam, a não ser em mesas de jogo, onde os adversários podem confraternizar, conversar sobre a história e apertar as mãos respeitosamente”, explica.

Barone pretende levar o projeto ‘Fronteiras de Sangue’, a partir do segundo trimestre de 2021, a demonstrações em convenções, eventos históricos e acadêmicos, em escolas, entidades públicas e privadas.

As demonstrações incluirão exibição de maquete, com centenas de miniaturas, explanação histórica sobre as origens do Wargame e, também, sobre a Guerra do Paraguai, além de jogos com a participação do público.

“Minha ideia é estender o alcance do jogo para além do lúdico, envolvendo também a questão da educação, da história e da necessidade de uma boa convivência entre os povos. Penso que, devido a importância que a Guerra do Paraguai teve na formação da cultura e da história brasileira, paraguaia, uruguaia e argentina, este projeto possa ter sucesso”, afirma o jornalista.

Além disso, a proximidade do Mato Grosso do Sul com a história da Guerra do Paraguai, pode ser um fator de incentivo para a divulgação do projeto. “Acredito que o Governo do Estado, a Assembleia Legislativa, executivos e legislativos municipais, além de universidades e  empresas possam ter interesse em ter este projeto entre seu case de ações”, diz Barone.

SAIBA MAIS SOBRE A HISTÓRIA DOS WARGAMES

O primeiro Wargame surgiu na Prússia, em 1780, pelas mãos de Johann Christian Ludwig Hellwig. O jogo tentava aproximar-se da realidade de modo a servir como ferramenta de treino para futuros oficiais do exército prussiano. Hellwig era um professor universitário e muitos de seus alunos eram aristocratas destinados ao serviço militar.

O jogo de Hellwig foi um sucesso comercial e inspirou outros inventores a desenvolver seus próprios jogos. Em 1796, outro prussiano, Johann Georg Julius Venturini, inventou outro sistema de regras. Em 1806, um austríaco chamado Johann Ferdinand Opiz desenvolveu um sistema voltado para os mercados civil e militar.  Mas foi em 1824 que um oficial do exército prussiano chamado Georg Heinrich Rudolf Johann von Reisswitz apresentou ao Estado-Maior da Prússia um jogo de guerra altamente realista que ele e seu pai desenvolveram ao longo dos anos.

Em vez de uma grade parecida com a do xadrez, característica de seus antecessores, este sistema de regras era jogado em mapas topográficos de papel, representando o terreno de forma mais realista. A escala do mapa era 1: 8000 e as peças eram feitas nas mesmas proporções das unidades que representavam, de modo que cada peça ocupava o mesmo espaço relativo no mapa que a unidade correspondente ocupava no campo de batalha.

O jogo modelou as capacidades das unidades de forma realista, usando dados coletados pelo exército prussiano durante as Guerras Napoleônicas. O manual de Reisswitz fornecia tabelas que listavam a distância que cada tipo de unidade poderia se mover em uma rodada, de acordo com o terreno que estava cruzando e se estava marchando, correndo, galopando, etc. O jogo também usava dados para determinar os resultados do combate e as baixas infligidas. Ao contrário das peças de xadrez, as unidades no jogo de Reisswitz podiam sofrer perdas parciais antes de serem derrotadas, que eram rastreadas em uma folha de papel. O jogo também tinha algumas regras que modelavam moral e exaustão.

O rei prussiano e o Estado-Maior endossaram o jogo de guerra de Reisswitz - que passou a ser conhecido como Kriegsspiel, que é a palavra alemã para "wargame" - e no final da década todos os regimentos alemães tinham um exemplar para treinamento.

Este foi, portanto, o primeiro jogo de guerra a ser amplamente adotado por militares como uma ferramenta séria para treinamento e pesquisa. Ao longo dos anos, os prussianos desenvolveram novas variações do sistema de Reisswitz para incorporar novas tecnologias e doutrinas.

Propagação mundial

Os jogos de guerra prussianos atraíram pouca atenção fora da Prússia até 1870, quando a os prussianos derrotaram a França na Guerra Franco-Prussiana. Muitos creditaram a vitória da Prússia à sua tradição de jogos de guerra. Como consequência, civis e militares de todo o mundo passaram a demonstrar grande interesse nos jogos de guerra militares alemães.

O primeiro manual do Kriegsspiel em inglês, baseado no sistema de Wilhelm von Tschischwitz, foi publicado em 1872 para o exército britânico e recebeu endosso real. O primeiro clube recreativo de jogos de guerra do mundo foi o University Kriegspiel Club, fundado em 1873 na Universidade de Oxford, na Inglaterra. Nos Estados Unidos, Charles Adiel Lewis Totten publicou Strategos, the American War Game em 1880, e William R. Livermore publicou The American Kriegsspiel em 1882, ambos fortemente inspirados nos jogos de guerra prussianos. Em 1894, o US Naval War College fez dos jogos de guerra uma ferramenta regular de instrução.

Jogos de guerra em miniatura

O escritor inglês H. G. Wells desenvolveu regras codificadas para brincar com soldados de brinquedo, que publicou em um livro intitulado Little Wars (1913), o primeiro livro de regras para jogos de guerra com o uaso de miniaturas. Little Wars tinha regras muito simples para torná-lo divertido e acessível a qualquer pessoa. O sistema não usava dados para resolver os combates. Para ataques de artilharia, os jogadores usavam canhões de brinquedo com molas que disparavam pequenos cilindros de madeira para derrubar fisicamente os modelos inimigos.

Little Wars foi projetado para ser jogado em um gramado ou no chão de uma grande sala. Um soldado de infantaria podia se mover até um pé por turno, e um cavaleiro pode se mover até dois pés por turno. Para medir essas distâncias, os jogadores usaram um pedaço de corda de 60 centímetros.

Wells também foi o primeiro wargamer a usar modelos em escala de edifícios, árvores e outras características do terreno para criar um campo de batalha tridimensional.

Em 1955, um cafiforniano chamado Jack Scruby começou a produzir miniaturas baratas para jogos de guerra, contribuindo muito para a difusão do hobby na América e no Reino Unido. Na época, a comunidade de jogos de guerra em miniatura era minúscula e os jogadores lutavam para se encontrar. Em 1956, Scruby organizou a primeira convenção de jogos de guerra em miniatura na América, da qual compareceram apenas quatorze pessoas.

Em 1956, Tony Bath publicou o primeiro conjunto de regras para um jogo de guerra em miniatura ambientado no período medieval. Essas regras foram uma grande inspiração para Chainmail de Gary Gygax (1971), que desembocou no surgimento de outro hobby muito difundido mundialmente – um neto dos wargames – o RPG.

De 1957 a 1962, Scruby publicou a primeira revista de jogos de guerra do mundo, intitulada The War Game Digest, por meio da qual os wargamers podiam publicar suas regras e compartilhar relatórios de jogos. Tinha menos de duzentos assinantes, mas estabeleceu uma comunidade que continuou crescendo.

Mais ou menos na mesma época, no Reino Unido, Donald Featherstone começou a escrever uma série de livros influentes sobre jogos de guerra, que representou o primeiro passo para a modernização do hobby. Sua produção incentivou outros autores britânicos, que juntamente com o surgimento de vários fabricantes de miniaturas de qualidade (como a Hinchliffe, Peter Laing, Garrisson, Skytrex, Davco, Heroic & Ros), incrementou a popularidade do hobby no final dos anos 1960 e nos anos 1970.

A partir de 1983, a empresa Games Workshop produziu o primeiro jogo de guerra em miniatura projetado para ser usado com modelos específicos: Warhammer Fantasy. Os primeiros jogos de guerra em miniatura eram projetados para serem jogados com modelos genéricos, que podiam ser comprados de qualquer fabricante, mas o cenário de Warhammer Fantasy apresentava personagens originais com designs visuais distintos, e seus modelos foram produzidos exclusivamente pela própria empresa.

A partir daí o wargame passou a ser um mercado milionário, que continua crescendo em todo o mundo, com uma cadeia produtiva que envolve a produção de miniaturas, maquetes, material cenográfico, livros de regras e muito mais.

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