Semana On

Quinta-Feira 26.nov.2020

Ano IX - Nº 420

Entrevista

Em meio à pandemia, crescimento do PSol, derrota de Bolsonaro, vitória do Centrão e avanço de indígenas, negros, LGBTQ+

Robson Sávio Reis Souza analisa as eleições municipais e projeta a conjuntura nacional de um Brasil em pandemia, com aumento das desigualdades e ainda sem projeto de nação

Postado em 17 de Novembro de 2020 - João Vitor Santos e Patricia Fachin - IHU

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Robson Sávio Reis Souza analisa as eleições municipais e projeta a conjuntura nacional de um Brasil em pandemia, com aumento das desigualdades e ainda sem projeto de nação.

Robson Sávio Reis Souza é doutor em Ciências Sociais pelo Programa de Pós-graduação em Ciências Sociais da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais – PUC Minas, com pós-doutorado em Direitos Humanos pela Universidade de Salamanca, na Espanha, mestre em Administração Pública pela Escola de Governo da Fundação João Pinheiro. Ainda é licenciado em Filosofia pela PUC Minas, especialista em Estudos de Criminalidade e Segurança Pública e em Teoria e Prática da Comunicação. Atua como professor adjunto da PUC Minas, pertencente ao Departamento de Ciências da Religião. Também é pesquisador e coordenador do Núcleo de Estudos Sociopolíticos – Nesp da PUC Minas.

 

O que o resultado das eleições municipais desse ano revela sobre a política e a democracia de nossos tempos? No último pleito, reinou o discurso do novo. Neste, o velho jogo dos interesses particulares e partidários já voltou à cena?

Revelou que o espectro partidário de centro-direita, os coronéis do passado e os neocoronéis, retomou o seu protagonismo na cena política nacional. Avalio que esse grupo político, fundamental nos processos de erosão democrática a partir de 2014, assume tardiamente os espólios do golpe de 2016 que foi surrupiado pela extrema-direita bolsonarista e seus pseudodiscurso anticorrupção nas eleições de 2018.

Revelou que o Bolsonaro é um “gigante com pés de barro”. Como influenciador e transferidor de votos, Bolsonaro não emplacou nenhum nome de expressão nessas eleições. O presidente não tem base social robusta e fiel em nenhuma camada social, a não ser pouca adesão em parte da classe média ressentida. (Tem boa aprovação momentânea por causa do auxílio emergencial). As milícias virtuais e reais são suas verdadeiras bases. Ademais, Bolsonaro não tem partido, nem base política no Congresso. Como sempre fez, usa partidos de aluguel a seu bel-prazer e isso ficou claro nos resultados eleitorais. E, por fim, confirmou que Bolsonaro é um incendiário; só faz política usando medo, palavrórios e ameaças, a ponto de constranger sua base militar. Portanto, Bolsonaro é o grande derrotado nessas eleições, apesar do “bolsanarismo” manter laços profundos, na política e na sociedade, que não podem ser desdenhados.

Revelou que houve um incremento bastante interessante na eleição de mulheres e de grupos minoritários, principalmente nos espectros mais à esquerda. Mas, aponta também que os partidos de esquerda, principalmente o PT, altamente criminalizados nos últimos tempos, enfrentam fortes resistências, mas ainda estão bem vivos na disputa eleitoral, dado que o PT é o partido que mais disputará cidades com mais de 200 mil habitantes no segundo turno. Observamos, também, um crescimento do PSOL.

Por fim, revelou que a política mais tradicional parece gerar, neste momento, mais confiabilidade e segurança numa sociedade que aprecia valores tradicionais e conservadores, muitos desses valores associados à questão religiosa.

Cada eleição deve ser interpretada a partir de variáveis daquele momento histórico e fenômenos outsiders, os arrebatadores de votos, podem significar simplesmente uma contingência de determinado momento político e eleitoral, sem provocar grandes fissuras num modelo político tradicionalmente conservador.

Qual a sua análise quanto ao resultado das eleições nas principais capitais do norte, nordeste, sudeste e sul?

Só sete das capitais tiveram a chefia do executivo definida no primeiro turno: o Democratas ganhou três prefeituras. O PSDB e PSD conquistaram, cada um, duas chefias municipais.

A cidade Campo Grande (MS) manteve Marquinhos Trad (PSD). Na região Nordeste, Natal (RN) reelegeu Álvaro Dias (PSDB); Bruno Reis (DEM), foi eleito prefeito de Salvador (o único candidato que conseguiu sair vitorioso no 1º turno sem ser o atual prefeito). No Sul, Curitiba (PR) reelegeu Rafael Greca (DEM) e Florianópolis (SC) reelegeu Gean Loureiro (DEM). Em Belo Horizonte, Alexandre Kalil foi reeleito. E em Palmas (TO) Cinthia Ribeiro (PSDB) renovou o mandato (considerando que a cidade não tem 2º turno pois há menos de 200 mil eleitores no município). Assim, o primeiro turno confirma a força do campo classificado como de centro-direita.

Porém, no segundo turno, é interessante observarmos a situação indefinida nas cidades com mais de 200 mil eleitores. Neste caso, o partido que mais disputará o pleito será o PT, em 15 municípios, seguido do PSDB, em 14 prefeituras e o MDB disputará 12 prefeituras.

Assim, nas eleições 2020 é preciso considerar também o eleitorado para além das capitais. As cidades médias e o chamado “Brasil profundo” devem ser considerados, dado que são locais onde todos os partidos, historicamente, buscam estratégias de organização com vistas à ampliação das respectivas legendas e incremento na participação do “mercado eleitoral”.

Portanto, dependendo dos resultados do segundo turno podemos verificar, por exemplo, se há alguma reação mais consistente dos setores de esquerda, por exemplo.

A pandemia de 2020 trouxe uma série de temas ao debate, como a emergência climática, de concepção de uma outra lógica econômica, da necessidade de uma renda básica e mesmo de um redimensionamento do poder e das ações estatais. Com base no resultado das eleições, como deve evoluir esses debates? E quais devem ser os reflexos nas eleições presidenciais?

A administração da pandemia pelos prefeitos certamente foi fundamental nessas eleições. Os eleitores avaliaram em que medida os prefeitos que buscavam a reeleição cuidaram da população com medidas e políticas públicas voltadas para a atenção à saúde pública e o respeito aos critérios científicos e sanitários nas decisões tomadas durante o surto do Covid-19. Esses prefeitos acabaram tendo uma melhor avaliação e muitos foram inclusive reeleitos, não somente nas capitais como em centenas de outras cidades.

Porém, nas eleições municipais temas como a questão climática e mesmo a situação econômica do país não entram na pauta do debate eleitoral (ou entram marginalmente). O eleitor está mais preocupado com os temas afetos às políticas públicas de base local.

Porém, para se pensar em 2022, o mais importante é avaliar o rearranjo do campo da chamada centro-direita e dos demais campos em disputa. A centro-direita -- que se reorganiza a partir da eleição de muitos prefeitos e vereadores, constituindo bases eleitorais sólidas – se posiciona claramente (também com rearranjos no Congresso Nacional) para o protagonismo no próximo pleito.

Como informado anteriormente, o campo das esquerdas, ao contrário do canto de certas carpideiras neoliberais, está vivo e o PT disputará 15 cidades no segundo turno com mais de 200 mil eleitores. O PSOL disputará Belém e São Paulo, a maior cidade do Brasil, a credenciar o partido como um importante player também nas esquerdas, junto ao PT.

Tudo isso deverá compor as discussões e alianças para o pleito de 2022. Recordando que, aparentemente, o grande inimigo a ser derrotado seria o presidente Bolsonaro que, como afirmamos, não tem base partidária nem base eleitoral, mas ainda mantém uma importante coalizão formada pelo militarismo, segmentos neopentecostais e outros grupos de extrema-direita.

Por fim, há um outro setor à direita que se reorganiza em torno dos nomes do ex-juiz Sérgio Moro e do apresentar global Luciano Huck, congregando importante segmentos neoliberais e conservadores que também poderá dividir o chamado campo da centro-direita. Portanto, o quadro para 2022 está totalmente aberto.

Quais são as saídas para as mazelas sociais que temos no Brasil, para além da política como a conhecemos? Como vê a proposta de teóricos, como o francês Gael Giraud, que sugerem uma conversão espiritual e política para realmente transformar as instituições sociais que precisam ser modificadas?

A provocação de Giraud é eticamente consistente, defensável e desejável. Porém, como dizia o dramaturgo Nelson Rodrigues, devemos considerar “a vida como ela é”.

O Brasil é um país continental e não há uma receita única no enfrentamento das mazelas de uma sociedade histórica e estruturalmente desigual, injusta e violenta.

Vivemos, num mesmo país, em mundos diferentes. Não se trata somente das desigualdades regionais, étnicas, econômicas, geracionais. Dentro de cada cidade, a vida boa dos poucos ricos e da classe média se contrasta com a vida sofrida, em muitos casos miserável, dos pobres das periferias. São muitos brasis...

O fato é que o processo político dos últimos anos tem mostrado que o conservadorismo social, o apego a determinadas tradições, a resistência às reformas estruturais, o medo de mudanças que removam velhos ranços elitistas, machistas, autoritários não têm a adesão de boa parte da população. Há que considerar ainda que temos elites atrasadas, antinacionais, autoritárias; que impedem a construção de um projeto de Nação.

O brasileiro, às vezes por necessidade, tem uma relação com a política eleitoral muito oportunista e pontual. Age como se a democracia fosse simplesmente participar da eleição a cada dois anos, não se responsabilizando no acompanhamento dos eleitos. Isso transforma as eleições num processo altamente enviesado: os eleitos são, tradicionalmente, homens brancos, da classe média e que não representam a diversidade da população que, por sua vez, não avalia criteriosamente seus representantes.

Só muito recentemente começamos a ter uma diversidade de gênero, étnica, de renda nos parlamentos e em outros espaços da vida política e partidária.

Temos um processo de educação que não forma para uma cidadania ativa e participativa. Então, acho difícil pensar em superação de mazelas e reformas estruturais a curto prazo. É preciso um longo processo de amadurecimento político dos cidadãos para que na democracia representativa aperfeiçoemos a qualidade da representação.

Vejamos um exemplo, considerando o pleito na Câmara Municipal de Belo Horizonte: se por um lado foram eleitas 27% de mulheres, totalizando 11 das 41 cadeiras e no campo progressista foram eleitas mulheres trans, lésbicas e duas negras, por outro lado, 80% dos vereadores são de centro-direita à extrema-direita. O que isso significa? Que mudanças no sentido de alianças políticas que visem a construção de uma cidade mais justa e igualitária, a enfrentar as mazelas sociais, ficarão longe do processo legislativo na próxima legislatura, a não ser que aconteça um processo de ampla ação, participação e monitoramento dos eleitos pela população.

Por fim, política é participação em vários espaços da vida e do exercício da cidadania: conselhos, movimentos sociais, coletivos urbanos. Somente com mais participação e com a organização social, a criar uma potência que se organiza pelas bases sociais, poderemos vislumbrar reformas estruturais para além de mudanças incrementais. Eleição não é fim de um processo político. É simplesmente o início.


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